Tomás responde: As provas que Cristo apresentou demonstraram suficientemente a verdade de sua ressurreição?

Pietro_Perugino_Ressurreicao

Pietro Perugino (1448-1523), Ressurreição

Parece que as provas que Cristo apresentou não demonstraram suficientemente a verdade de sua ressurreição:

1. Na verdade, após a ressurreição, Cristo nada mostrou aos discípulos que também os anjos, ao aparecer aos homens, ou não tenham mostrado, ou não tenham podido mostrar. Com efeito, frequentemente os anjos se mostraram com aparência humana aos homens e com eles falavam e se entretinham, com eles comiam, como se fossem realmente homens, como no episódio dos anjos que Abraão recebeu como hóspedes, ou do anjo que levou Tobias e o trouxe de volta. Ora, apesar disso, os anjos não tem um corpo verdadeiro unido a eles por natureza; o que é necessário para a ressurreição. Logo, os sinais que Cristo apresentou aos discípulos não foram suficientes para demonstrar sua ressurreição.

2. Além disso, Cristo ressuscitou de modo glorioso, ou seja, numa natureza humana com glória. Ora, Cristo mostrou algumas coisas aos discípulos que parecem contrárias à natureza humana, como o fato de desaparecer da vista deles, ou de entrar estando as portas fechadas. Outras, porém, parecem contrárias à glória, como, por exemplo, ter comido e bebido, ou continuar com as cicatrizes das feridas. Logo, parece que as provas não foram suficientes nem convenientes para o fim de demonstrar a fé na ressurreição.

3. Ademais, o corpo de Cristo depois da ressurreição era tal que não devia ser tocado pelo homem mortal; por isso, ele mesmo disse a Madalena: “Não me toques! Pois eu ainda não subi para o meu Pai”. Portanto, não foi conveniente que, para demonstrar a realidade de sua ressurreição, ele se expusesse a ser tocado pelos discípulos.

4. Ademais, entre os dotes de um corpo glorificado, a claridade parece ser o principal. Ora, Cristo, na ressurreição, não a demonstrou com prova alguma. Logo, parece que aquelas provas foram insuficientes para demonstrar a qualidade da ressurreição de Cristo.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, Cristo, que é a Sabedoria de Deus, “com suavidade” e de modo conveniente “dispõe todas as coisas”, como diz o livro da Sabedoria (8, 1).

tomas_respondoCristo demonstrou sua ressurreição de dois modos, ou seja, pelo testemunho e pela prova, ou sinal. Ambas as demonstrações foram suficientes em seu gênero.

Para manifestar sua ressurreição aos discípulos, ele fez uso de dois testemunhos, nenhum dos quais pode ser impugnado. O primeiro é o testemunho dos anjos, que anunciaram a ressurreição às mulheres, como se vê em todos os evangelistas. O outro é o testemunho das Escrituras, que ele próprio apresentou para demonstrar sua ressurreição, como se lê no Evangelho de Lucas (24, 25-27. 44-48).

As provas também foram suficientes para demonstrar que a ressurreição era não só verdadeira como gloriosa. Quanto a ser uma verdadeira ressurreição, ele o demonstrou, de uma parte, com relação a seu corpo, considerando três aspectos. Primeiro, que era um verdadeiro corpo sólido, não um corpo fantástico ou rarefeito, como o ar. Demonstrou isso ao deixar que seu corpo fosse tocado, quando ele próprio diz “Tocai-me, olhai; um espírito não tem carne nem ossos como vós vedes que eu tenho” (Lc 24, 39). Segundo, mostrou que Leia mais deste post

A morte de São José

São José em agonia, igreja de São José, Rio de Janeiro, detalhe

São José em Agonia, Igreja de São José, Rio de Janeiro

No dia 19 de março comemora-se a festa de São José. A propósito, é oportuno reproduzir o Conto inspirado no conjunto escultural representando São José em agonia (foto), que se venera na igreja de São José, no centro do Rio de Janeiro, ao lado da Assembleia Legislativa.

São José chegara ao fim de seus dias. Ninguém como ele, entre tantos varões veneráveis que o precederam na santidade, fora incumbido de missão tão alta. Ele era o guarda e protetor do Filho de Deus feito homem e de sua Mãe santíssima.

Deus Pai o escolhera pessoalmente para esse mister elevado entre todos. E São José cumprira sua missão com tanta perfeição, tanta dignidade, tanta humildade junto a seus inefáveis protegidos, tanta força e astúcia contra os inimigos de Jesus, insuflados por toda parte pelo demônio, que esteve inteiramente à altura dos desígnios divinos.

Tanto quanto é possível a uma simples criatura, ele teve proporção com o sublime encargo de ser esposo da Santíssima Virgem e pai adotivo do Verbo de Deus encarnado.

Quanto isto significa!

Aproximava-se, porém, o tempo em que Jesus iria iniciar sua missão pública; a Virgem Maria não mais se encontrava na situação de uma jovem mãe que precisa de proteção diante de um mundo hostil e de línguas aleivosas.

A missão de São José chegara magnificamente a seu termo, e ele agonizava placidamente.

De um lado e de outro da cama, Nosso Senhor e Nossa Senhora, emocionados, o contemplavam com amor e gratidão, tristes porque ele partia, mas supremamente consolados por saber que o aguardava a melhor das recompensas celestes.

Do lado de fora, como quer uma antiga tradição, a morte impaciente mas temerosa não ousava entrar para recolher sua presa, pois esperava um sinal do Altíssimo, postado ao lado do moribundo.

São José tivera sempre tal veneração pela Virgem Santíssima, uma ideia tão elevada de seus méritos e virtudes, tal respeito por sua virgindade imaculada, que jamais ousara tocar sequer um fio de seu cabelo.

Agora, posto ele em seu leito de morte, a Santíssima Virgem, como recompensa por tanta dedicação lhe segura a mão, num supremo ato de reconhecimento e amizade.

Aquele toque quase divino comunicou a São José, ainda lúcido, tal alegria sobrenatural, que ele, varão castíssimo, sentiu sua alma invadida por uma graça de superior virginalidade, como se a inundasse um rio de águas puríssimas, cristalinas e benfazejas.

Essa sensação inefável –– até então para ele desconhecida, porque acima do que a natureza humana pode alcançar –– o elevou a um patamar de indizível união com Deus, inacessível à nossa compreensão atual, mas que um dia no Céu ele poderá nos contar.

Estava São José nesse verdadeiro êxtase, quando sentiu pousar sobre seu ombro direito a mão amiga do Filho de Deus. Incontinenti, viu-se submerso em Deus, e Deus nele.

Era a visão beatífica, não concedida até então a nenhum mortal, pois o acesso ao Céu fora fechado pelo pecado de Adão, e lhe era comunicada por antecipação, ainda que fugazmente.

São José notou em seguida que uma coorte de pessoas se aproximava dele. Reconheceu na primeira fila o patriarca Abraão e o profeta Moisés, seguidos de todos os justos que o haviam precedido com o sinal da fé.

Só então ele se deu conta de que não estava mais nesta Terra, e que adentrara os umbrais do Limbo.

Todos os habitantes daquele lugar o interrogavam atropeladamente: Quando se consumará a Redenção?

Quando nos será aberto o Paraíso celeste que tanto esperamos, alguns há milhares de anos?

Como é o Filho de Deus? E sua Mãe Santíssima, como é a sua presença?

São José a todos respondia com atenção e bondade, mas já começando a sentir uma saudade imensa daqueles dois seres perfeitíssimos, com quem conviveu tão proximamente nesta Terra de exílio.

Por Gregório Vivanco Lopes

Fonte: Contos e Lendas da Era Medieval

CRISTO RESSUSCITOU!

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“Não temais! Sei que estais procurando Jesus, o crucificado. Ele não está aqui, pois ressuscitou, conforme havia dito. Vinde ver o lugar onde ele jazia, e, depressa, ide dizer aos seus discípulos: ‘Ele ressuscitou de entre os mortos, e eis que vos precede na Galiléia; é lá que o vereis’. Vede bem, eu vo-lo disse!”

Mt 28, 5-7

FELIZ PÁSCOA A TODOS!

 

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Quando chegaram ao lugar chamado Calvário…

Crucifixao_Giotto

«Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, crucificaram-no a Ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda»

(Lc 23,33)

Ao contrário da árvore produtora de morte, 
Plantada no meio do Paraíso (Gn 3,3), 
Tu levaste aos ombros o madeiro da Cruz 
E carregaste-o até ao lugar do Gólgota. 


Conforta a minha alma, caída no pecado, 
Debaixo de carga tão pesada! 
Conforta-a, graças ao «jugo suave» 
E ao «fardo leve» da Cruz (Mt 11,30). 


À sexta-feira, às três horas, 
Dia em que o primeiro homem foi seduzido, 
Foste pregado na Cruz, Senhor, 
Ao mesmo tempo que o malfeitor e ladrão. 


As tuas mãos, que haviam criado a Terra, 
Estendeste sobre a Cruz, ao contrário 
Das de Adão e Eva, estendidas para a árvore 
Onde foram colher a morte. 


A mim, pecador como eles, e até muito mais 
Do que eles, perdoa, Senhor, os delitos, 
Como já a eles perdoaste na região 
Donde toda a esperança foi banida (1Ped 3,19). 


Tendo subido à Santa Cruz, 
Toda a transgressão humana apagaste 
E ao inimigo da natureza humana 
Nela cravaste para sempre. 


Fortalece-me sob a protecção 
Desse Santo Signo, sempre vencedor, 
E mal ele apareça a oriente (Mt 24,27.30) 
Ilumina-me com a sua luz! 


Ao ladrão que estava à tua direita 
Abriste as portas do Paraíso: 
Assim Te lembres de mim quando vieres 
Na realeza de teu Pai! (Mt 26,64) 


Assim eu próprio possa um dia 
Ouvir proclamar a sentença que faz exultar: 
«Hoje mesmo estarás comigo 
No jardim do Éden, tua primeira pátria!» (Lc 23,43; Gn 2,8)

São Narsés Snorhali (1102-1173), patriarca arménio

São Gregório de Nissa e o Caminho para o conhecimento de Deus

São Gregório de Nissa

São Tomás de Aquino, justamente considerado como um dos mais ferrenhos defensores das exigências da razão, escreveu: “Diz-se que no final do nosso conhecimento, Deus é conhecido como o Desconhecido, porque o nosso espírito chega ao extremo do seu conhecimento de Deus quando finalmente percebe que a sua essência está acima de tudo o que pode conhecer aqui embaixo”

Quarta Pregação de Quaresma do Padre Raniero Cantalamessa

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 30 de março de 2012 (ZENIT.org) – Publicamos o texto da quarta pregação de Quaresma do padre Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap., pregador da Casa Pontifícia, feita nesta manhã na Capela “Redemptoris Mater” no Vaticano.

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1. As duas dimensões da fé

Santo Agostinho fez, com relação à fé, uma distinção que continua clássica até hoje: a distinção entre as coisas que se creem e o ato de acreditar nelas. “Aliud sunt ea quae creduntur, aliud fides qua creduntur” (Agostinho, De Trinitate XIII,2,5), a fidea quae e afides qua, como se diz na teologia. A primeira é conhecida também como fé objetiva, a segunda fé subjetiva. Toda a reflexão cristã sobre a fé se desenvolve entre estes dois pólos.

Traça-se duas orientações. Por um lado temos aqueles que enfatizam a importância do intelecto no crer e portanto a fé objetiva, como assentimento às verdades reveladas, por outro lado aqueles que enfatizam a importância da vontade e do afeto, portanto a fé subjetiva, o crer em alguém (“crer em”), mais do que crer em algo (“crer que”); por um lado aqueles que enfatizam as razões da mente e por outro aqueles que, como Pascal, enfatizam “as razões do coração”.

Esta oscilação reaparece sob formas diferentes em cada curva da história da teologia: na Idade Média, na ênfase diferente entre a teologia de Santo Tomás e aquela de São Boaventura; no tempo da Reforma entre a fé confiante de Lutero e a fé católica informada pela caridade; mais tarde, entre a fé dentro dos limites da pura razão de Kant e a fé com base no sentimento de Schleiermacher e do romantismo em geral; mais perto de nós, entre a fé da teologia liberal e aquela existencial de Bultmann, praticamente desprovida de todo conteúdo objetivo.

A teologia católica contemporânea se esforça, como em outras vezes no passado, por encontrar o justo equilíbrio entre as duas dimensões da fé. Superamos a fase em que, por razões polêmicas contingentes, toda a atenção nos manuais de teologia tinha acabado concentrando-se na fé objetiva (fides quae), ou seja, sobre o conjunto das verdades que devem ser cridas. “O ato de fé – lê-se num respeitável dicionário crítico de teologia – na corrente dominante de todas as confissões cristãs, é hoje a descoberta de um Tu divino. A apologética da prova tende a colocar-se detrás de uma pedagogia daexperiência espiritual que tende a começar uma experiência cristã, da qual se reconhece a possibilidade inscrita a priori em cada ser humano” (J.-Y. Lacoste et N. Lossky, “Foi“ , no Dictionnaire critique de Théologie, Presses Universitaires de France 1998, p.479, tradução nossa). Em outras palavras, mais que frizar a força da argumentação externa à pessoa, deve-se buscar ajudá-la a encontrar em si mesma a confirmação da fé, tentando despertar aquela centelha que existe no “coração inquieto” de cada homem pelo fato de ser criado “à imagem de Deus”.

Fiz essa premissa porque mais uma vez ela nos permite ver a contribuição que os Padres podem dar ao nosso esforço para dar de novo à nossa fé da Igreja o seu brilho e o seu poder de ataque. O maior entre eles são modelos insuperáveis de uma fé que é ao mesmo tempo objetiva e subjetiva, preocupada, isto é, pelo conteúdo da fé, ou seja, pela ortodoxia, mas ao mesmo tempo, acreditada e vivida com todo o ardor do coração. O Apóstolo tinha proclamado: “corde creditur” (Rm 10,10), com o coração se crê, e sabemos que com a palavra coração, a Bíblia entende as duas dimensões espirituais do homem, a sua inteligência e a sua vontade, o lugar simbólico do conhecimento e do amor. Neste sentido, os Padres são um elo indispensável para encontrar de novo a fé como se entende na Escritura.

2. “Creio em um só Deus”

Nesta última meditação nos aproximamos dos Padres para renovar a nossa fé no objeto principal da mesma, naquele que está comumente entendido pela palavra “acreditar” e segundo o qual separamos as pessoas entre crentes e não crentes: a fé na existência de Deus. Refletimos, nas meditações passadas, na divindade de Cristo, no Espírito Santo e na Trindade. Mas a fé no Deus Trino é o estágio final da fé, o “plus” sobre Deus revelado por Cristo. Para alcançar esta plenitude é preciso primeiro acreditar em Leia mais deste post

Tomás responde: Cristo teve um corpo de carne ou terrestre?

Rembrandt, A Sagrada Família (1635)

Parece que Cristo não teve um corpo de carne ou terrestre, mas celeste:

1. Com efeito, escreve o apóstolo na primeira Carta aos Coríntios: “O primeiro homem tirado da terra é terrestre; quanto ao segundo homem ele vem do céu” (15, 47). Ora, o primeiro homem, a saber, Adão, foi feito de terra quanto ao corpo como está no livro do Gênesis. Logo, o segundo homem, ou seja, Cristo, foi do céu quanto ao corpo.

2. Além disso, segundo a primeira Carta aos Coríntios (15,50): “A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus”. Ora, o reino de Deus está em Cristo como em seu princípio. Logo, nele não há carne e sangue, mas antes, um corpo celeste.

3. Ademais, tudo o que é ótimo deve ser atribuído a Deus. Ora, o corpo celeste é o mais nobre entre todos os corpos. Logo, Cristo deve ter assumido esse corpo.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o Senhor diz no Evangelho de Lucas: “O espírito não tem carnes nem ossos como vós vedes que eu tenho” (24, 39). Ora, a carne e os ossos não constam da matéria do corpo celeste, mas dos elementos inferiores. Logo, o corpo de Cristo não foi corpo celeste, mas de carne e terreno.

É claro que o corpo de Cristo não devia ser celeste pelas mesmas razões pelas quais foi demonstrado que não devia ser imaginário (art. precedente):

1. Assim como não se preservaria a verdade da natureza humana em Cristo se seu corpo fosse imaginário como afirmou Mani, assim também ela não se preservaria, se fosse celeste, como afirmou Valentino. Sendo a forma do homem algo natural, requer uma determinada matéria, a saber, carnes e ossos, que é necessário incluir na definição do homem, como ensina o Filósofo no livro VII da Metafísica.

2. Porque suprimiria a verdade daquilo que Cristo realizou no corpo. Como o corpo celeste é incorruptível e impassível, como se prova no livro I de Coelo, se o Filho de Deus houvesse assumido um corpo celeste, não teria tido verdadeiramente sede e fome, nem suportado a paixão e a morte.

3. Porque nega também a verdade divina. Já que o Filho de Deus se mostrou aos homens como tendo um corpo de carne e terreno, teria sido uma exibição de falsidade, se ele tivesse um corpo celeste. Por essa razão se diz no livro Dos Dogmas Eclesiásticos: “O Filho de Deus nasceu recebendo a Leia mais deste post

What Child is This? (c/ tradução)

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What Child Is This?

Que criança é essa?

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What child is this who, laid to rest

Que criança é essa que, colocado a descansar

On Mary’s lap, is sleeping?

No colo de Maria, está dormindo?

Whom angels greet with anthems sweet,

Que os anjos saúdam docemente com cânticos,

While shepherds watch are keeping?

Enquanto pastores continuam Leia mais deste post

Menino Jesus do Espinho

Uma piedosa lenda de Natal conta que o Menino Jesus sentado num troneto brincou tecendo uma coroa de espinhos.

E um espinho machucou seu dedo indicador da mão direita.

Nesse momento, com ciência profética, Ele previu os sofrimentos que haveria de aceitar para redimir o genro humano.

Em sua doçura de criança e na candura de sua inocência infinita Ele pressentiu as dores lancinantes de sua Paixão e Morte na Cruz.

Leia a matéria completa no excelente site “Contos e lendas da era medieval“.

Suma Teológica, Santo Tomás de Aquino, Igreja, Teologia, Filosofia

Fragmentos: Corpus Christi

O unigênito Filho de Deus, querendo fazer-nos participantes da sua divindade, assumiu nossa natureza, para que, feito homem, dos homens fizesse deuses. Assim, tudo quanto assumiu da nossa natureza humana, empregou-o para nossa salvação. Seu corpo, por exemplo, ele o ofereceu a Deus Pai como sacrifício no altar da cruz, para nossa reconciliação; seu sangue, ele o derramou ao mesmo tempo como preço do nosso resgate e purificação de todos os nossos pecados. Mas, a fim de que permanecesse para sempre entre nós o memorial de tão imenso benefício, ele deixou aos fiéis, sob as aparências do pão e do vinho, o seu corpo como alimento e o seu sangue como bebida. Ó precioso e admirável banquete, fonte de salvação e repleto de toda suavidade! Que há de mais precioso que este banquete? Nele, já não é mais a carne de novilhos e cabritos que nos é dada a comer, como na antiga Lei, mas é o próprio Cristo, verdadeiro Deus, que se nos dá em alimento. Poderia haver algo de mais admirável que este sacramento? De fato, nenhum outro sacramento é mais salutar do que este; nele os pecados são destruídos, crescem as virtudes e a alma é plenamente saciada de todos os dons espirituais. É oferecido na Igreja pelos vivos e pelos mortos, para que aproveite a todos o que foi instituído para a salvação de todos. Ninguém seria capaz de expressar a suavidade deste sacramento; nele se pode saborear a doçura espiritual em sua própria fonte; e torna-se presente a memória daquele imenso e inefável amor que Cristo demonstrou para conosco em sua Paixão. Enfim, para que a imensidade deste amor ficasse mais profundamente gravada nos corações dos fiéis, Cristo instituiu este sacramento durante a última Ceia, quando, ao celebrar a Páscoa com seus discípulos, estava prestes a passar deste mundo para o Pai. A Eucaristia é o memorial perene da sua Paixão, o cumprimento perfeito das figuras da Antiga Aliança e o maior de todos os milagres que Cristo realizou. É ainda singular conforto que ele deixou para os que se entristecem com sua ausência.

Opusculum 57, In festo Corporis Christi, lect. 1-4

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Igreja, Teologia

CRISTO RESSUSCITOU!

Mensagem de Páscoa de Bento XVI
“Na vossa Ressurreição, ó Cristo, alegrem-se os céus e a terra”

CIDADE DO VATICANO, domingo, 24 de abril de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos a mensagem de Páscoa que Bento XVI dirigiu do balcão central da Basílica de São Pedro ao meio-dia deste Domingo da Ressurreição.

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«In resurrectione tua, Christe, coeli et terra laetentur – Na vossa Ressurreição, ó Cristo, alegrem-se os céus e a terra» (Liturgia das Horas).

Amados irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro!

A manhã de Páscoa trouxe-nos este anúncio antigo e sempre novo: Cristo ressuscitou! O eco deste acontecimento, que partiu de Jerusalém há vinte séculos, continua a ressoar na Igreja, que traz viva no coração a fé vibrante de Maria, a Mãe de Jesus, a fé de Madalena e das primeiras mulheres que viram o sepulcro vazio, a fé de Pedro e dos outros Apóstolos.

Até hoje – mesmo na nossa era de comunicações supertecnológicas – a fé dos cristãos assenta naquele anúncio, no testemunho daquelas irmãs e daqueles irmãos que viram, primeiro, a pedra removida e o túmulo vazio e, depois, os misteriosos mensageiros que atestavam que Jesus, o Crucificado, ressuscitara; em seguida, o Mestre e Senhor em pessoa, vivo e palpável, apareceu a Maria de Magdala, aos dois discípulos de Emaús e, finalmente, aos onze, reunidos no Cenáculo (cf. Mc 16, 9-14).

A ressurreição de Cristo não é fruto de uma especulação, de uma experiência mística: é um acontecimento, que ultrapassa certamente a história, mas verifica-se num momento concreto da história e deixa nela uma marca indelével. A luz, que encandeou os guardas de sentinela ao sepulcro de Jesus, atravessou o tempo e o espaço. É uma luz diferente, divina, que fendeu as trevas da morte e trouxe ao mundo o esplendor de Deus, o esplendor da Verdade e do Bem.

Tal como os raios do sol, na primavera, fazem brotar e desabrochar os rebentos nos ramos das árvores, assim também a irradiação que dimana da Ressurreição de Cristo dá força e significado a cada esperança humana, a cada expectativa, desejo, projecto. Por isso, hoje, o universo inteiro se alegra, implicado na primavera da humanidade, que se faz intérprete do tácito hino de louvor da criação. O aleluia pascal, que ressoa na Igreja peregrina no mundo, exprime a exultação silenciosa do universo e sobretudo o anseio de cada alma humana aberta sinceramente a Deus, mais ainda, agradecida pela sua infinita bondade, beleza e verdade.

«Na vossa ressurreição, ó Cristo, alegrem-se os céus e a terra». A este convite ao louvor, que hoje se eleva do coração da Igreja, os «céus» respondem plenamente: as multidões dos anjos, dos santos e dos beatos unem-se unânimes à nossa exultação. No Céu, tudo é paz e alegria. Mas, infelizmente, não é assim Leia mais deste post

Tomás responde: Foi conveniente ter Cristo ressurgido no terceiro dia?

Giotto di Bondone (1266-1337), A Ressurreição, Capela Scrovegni, Pádua

Leia também: Tomás responde: Havia necessidade de Cristo ressuscitar?

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Parece que não foi conveniente ter Cristo ressurgido no terceiro dia:

1. Na verdade, deve haver conformidade entre os membros e a cabeça. Ora, nós, que somos membros de Cristo, não ressurgimos da morte no terceiro dia, mas nossa ressurreição é adiada até o fim do mundo. Logo, parece que Cristo, que é nossa cabeça, não devia ressurgir no terceiro dia, mas ter sua ressurreição adiada para o fim do mundo.

2. Além disso, diz Pedro, nos Atos dos Apóstolos, que não era possível que o inferno e a morte detivessem Cristo. Ora, quando alguém está morto, a morte o detém. Logo, parece que a ressurreição de Cristo não deveria ser adiada até o terceiro dia, mas que ele deveria ressurgir imediatamente, no mesmo dia, especialmente quando a Glosa citada acima (artigo precedente) diz que “não haveria nenhuma utilidade para a efusão do sangue de Cristo se não ressurgisse logo”.

3. Ademais, parece que o dia começa com o nascer do sol, cuja presença é causa do dia. Ora, Cristo ressurgiu antes do nascer do sol, pois diz o Evangelho de João que “no primeiro dia da semana, ao alvorecer, enquanto ainda estava meio escuro, Maria de Magdala vai ao túmulo” (20, 1), e nesse momento Cristo já havia ressuscitado, como se vê a seguir: “E vê que a pedra fora retirada do túmulo”. Logo, Cristo não ressuscitou no terceiro dia.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz o Evangelho de Mateus: “E o entregarão aos pagãos para que o escarneçam, o flagelem, o crucifiquem e, no terceiro dia, ele ressurgirá” (20, 19).

Como foi afirmado (artigo precedente), a ressurreição de Cristo foi necessária para a instrução de nossa fé. Ora, a nossa fé diz respeito tanto à divindade como à humanidade de Cristo, pois não basta crer numa sem a outra, como está claro pelo que foi dito acima (q.36 a.4). Portanto, para que se confirmasse nossa fé a respeito da divindade dele, era preciso que ele ressuscitasse logo e que sua ressurreição não fosse adiada até o final do mundo. E para que se confirmasse a fé a respeito da verdade da humanidade e da morte dele, foi conveniente ter havido um espaço de tempo entre a morte e a ressurreição. Pois, se tivesse ressuscitado logo após a morte, poderia parecer que sua morte não fora verdadeira e, conseqüentemente, nem a ressurreição. Para manifestar, porém, a verdade da morte de Cristo, era suficiente que sua ressurreição fosse adiada até o terceiro dia, pois nesse espaço de tempo não costumam aparecer alguns sinais de Leia mais deste post

Eli, eli, lamá sabactani

Tintoretto, 1565

Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos.

Eu te ordeno: Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos.

Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro de vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida. Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso. Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paríso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti.

De uma antiga Homilia no grande Sábado Santo, séc. IV

Tomás responde: A dor da paixão de Cristo foi maior que todas as outras dores?

Giotto di Bondone, A Lamentação, Capella degli Scrovegni, 1304-1306

Leia também: Tomás responde: Cristo deveria sofrer na cruz?

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Como se disse acima, ao tratarmos das deficiências assumidas por Cristo (q. 15, a. 5, 6), deve-se dizer que ele suportou uma autêntica dor; tanto sensível, causada por algo que fere o corpo, como interior, causada pela percepção do que é nocivo e que é chamada de tristeza. Ambas foram em Cristo as maiores dores na presente vida. E assim foi por quatro motivos.

Primeiro, pelas causas da dor. Pois a causa da dor sensível foi a lesão corporal, que se tornou pungente não só pela extensão do sofrimento, da qual se falou, mas também pelo gênero de sofrimento. É que a morte dos crucificados é muitíssimo cruel, pois são transfixados em locais de nervos muito sensíveis, ou seja, nas mãos e nos pés; o próprio peso do corpo suspenso aumenta continuamente a dor; e é uma dor que perdura, uma vez que o crucificado não morre logo, como os que são mortos pela espada. Já a causa da dor interior foi, em primeiro lugar, todos os pecados do gênero humano, pelos quais, sofrendo, Cristo dava satisfação, a ponto de, por assim dizer, assumi-los para si, como declara o Salmo 21: “As palavras das minhas faltas”. Em segundo lugar, especialmente a culpa dos judeus e dos demais que tramaram sua morte, mas de modo particular dos discípulos, que se escandalizaram com a paixão de Cristo. Em terceiro lugar, a perda da vida corporal, que por natureza é horrível à condição humana.

Segundo, a extensão do sofrimento pode ser considerada pela sensibilidade do paciente. Ora, ele tinha uma ótima compleição física, pois seu corpo fora formado de Leia mais deste post

Tomás responde: Foi conveniente que os magos viessem adorar e venerar a Cristo?

Bernardo Cavallino, Adoração dos Magos (séc. XVII)

Parece que não foi conveniente que os magos viessem adorar e venerar a Cristo:

1. Com efeito, cada rei deve receber a homenagem de seus súditos. Ora, os magos não pertenciam ao reino dos judeus. Logo, quando conheceram pela visão da estrela que tinha nascido o Rei dos Judeus, parece que não era conveniente que viessem adorá-lo.

2. Além disso, é imprudente anunciar um rei estrangeiro enquanto vive o próprio rei. Ora, Herodes reinava no reino dos judeus. Logo, os magos procederam com imprudência ao anunciar o nascimento do rei.

3. Ademais, um sinal do céu é mais seguro do que uma indicação humana. Ora, os magos vieram do Oriente à Judéia guiados por um sinal do céu. Logo, agiram sem prudência ao buscar uma indicação humana, abandonando a guia da estrela, quando perguntaram: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?”

4. Ademais, a oferenda de dons e a homenagem da adoração são devidas só aos reis que estão reinando. Ora, os magos não encontraram Cristo revestido da dignidade real. Logo, não foi conveniente apresentar-lhe dons e render-lhe homenagem real.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, afirma Isaías: “As nações vão caminhar para a tua luz e os reis para a claridade da tua aurora” (60, 3). Ora, os que são conduzidos pela luz divina não erram. Logo, os magos não incorreram em erro ao prestar homenagem a Cristo.

 

Como já foi dito, os magos são as primícias dos pagãos a crerem em Cristo. Neles apareceram, numa espécie de presságio, a fé e a devoção dos pagãos vindos a Cristo de lugares remotos. Por isso, sendo a fé e a devoção dos pagãos isenta de erro por inspiração do Espírito Santo, também deve-se crer que os magos, inspirados pelo Espírito Santo, se comportaram sabiamente ao prestarem homenagem a Cristo.

 

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. Como diz Agostinho: “Muitos reis dos judeus nasceram e morreram sem que os magos os tivessem procurado para adorá-los. Não é, pois a um rei dos judeus como então costumavam ser, que estes estrangeiros, vindos de tão longe, e totalmente alheios a este reino, julgavam estar prestando tão grande Leia mais deste post

A voz do Papa (em português)

Mensagem de Natal do Papa Bento XVI em português. Clique na imagem ao lado para escutar (1 min. 54 seg).

Escute também as belas palavras do Papa João Paulo II (em italiano) acompanhadas do Pai-nosso cantado em latim acessando, no menu acima, a página “A voz do Papa”.

 

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A resposta cristã ao racionalismo

Beato John Henry Newman (1801-1890)

Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap.

3ª Pregação do Advento

“ESTAI SEMPRE PRONTOS A DAR A RAZÃO DA VOSSA ESPERANÇA.”

(1 Pe 3,15)

A resposta cristã ao racionalismo


1. A razão usurpadora

O terceiro obstáculo que faz parte da cultura moderna, “refratária” ao Evangelho, é o racionalismo. Sobre isso falaremos nesta última meditação do Advento.

O cardeal e, agora, Beato John Henry Newman, deixou-nos um discurso memorável, proferido em 11 de dezembro de 1831, na Universidade de Oxford, intitulado The Usurpation of Raison, a usurpação ou a prevaricação da razão. Neste título já está a definição do que entendemos como racionalismo1. Numa nota explicativa a este discurso, escrita no prefácio à sua terceira edição, de 1871, o autor explica o que quer dizer com esse termo. Por usurpação da razão – diz – se entende “certo abuso generalizado dessa faculdade quando se fala de religião sem um conhecimento íntimo ou sem o respeito devido aos princípios fundamentais desta. Essa ‘razão’ é chamada ‘sabedoria do mundo’ nas Escrituras é a compreensão de religião dos que têm a mentalidade secularista e se baseiam em máximas do mundo, que lhes são intrinsecamente alheias” 2.

Em outro de seus sermões na universidade, intitulado “Fé e Razão comparadas”, Newman ilustra por que a razão não pode ser o juiz supremo em matéria de religião e de fé, com a analogia da consciência:

“Ninguém – escreve – dirá que a consciência se opõe à razão, ou que seus preceitos não podem ser apresentados em forma de argumento; no entanto, quem, a partir disso, argumentará que a consciência não é um princípio original, mas que, para atuar, precisa atender o resultado de um processo lógico-racional? A razão analisa os fundamentos e os motivos da ação, sem ser ela mesma um destes Leia mais deste post

Obi-Wan Aquino: “Que a Força esteja com você!”

 

Tomás responde: Era necessário que fosse anunciado à Bem-aventurada Virgem o que iria realizar-se nela?

Domenico Beccafumi, Anunciação (1545-1546)

Parece que não era necessário que fosse anunciado à Bem-aventurada Virgem o que iria realizar-se nela:

1. Com efeito, parece que a anunciação só seria necessária para obter o consentimento da virgem. Ora, tal consentimento não perece ter sido necessário, porque a concepção de uma virgem já estava anunciada de antemão pela profecia de predestinação que “se realiza sem a nossa decisão”, como diz uma Glosa. Logo, não era necessário que se realizasse tal anunciação.

2. Além disso, a bem-aventurada Virgem acreditava na encarnação, pois sem essa fé ninguém poderia estar em estado de salvação, porque, como diz a Carta aos Romanos: “A justiça de Deus é dada pela fé em Jesus Cristo” (3,22). Ora, quando alguém crê algo com certeza não precisa de ulteriores explicações. Logo, não era necessário à bem-aventurada Virgem que lhe fosse anunciada a encarnação do Filho.

3. Ademais, assim como a bem-aventurada Virgem concebeu a Cristo corporalmente, assim também toda alma santa o concebe espiritualmente; por isso diz o apóstolo na Carta aos Gálatas: “Meus filhinhos a quem de novo dou à luz, até que se forme Cristo em vós” (4, 19). Ora, aos que devem conceber Cristo espiritualmente não lhes é anunciada tal concepção. Logo não havia por que anunciar à bem-aventurada Virgem que iria conceber no seu seio o Filho de Deus.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o anjo, segundo o Evangelho de Lucas, lhe disse: “Eis que conceberás em teu seio e darás à luz um filho” (1, 31).

RESPONDO. Era conveniente que fosse anunciado à bem-aventurada Virgem que iria conceber Cristo:

1º. Para que fosse guardada a ordem que convinha à união do Filho de Deus com a Virgem, ou seja, que o seu espírito fosse preparado antes que ela o concebesse corporalmente. Por isso Agostinho diz: “Maria foi mais feliz de receber a fé em Cristo do que de conceber a carne de Cristo”. E acrescenta a seguir: “De nada teria servido a Maria a intimidade materna, se não tivesse sido mais feliz por levar a Cristo em seu coração do que em seu corpo”.

2º. Para que pudesse ser firme testemunha deste mistério, uma vez que fora instruída por Deus a respeito dele.

3º. Para que oferecesse a Deus os Leia mais deste post

Natal

Gerard van Honthorst, Adoração dos Pastores, 1622

Essa é a trindade de verdades reveladas simbolizadas aqui pelos três tipos nas antigas histórias do Natal: os pastores, os reis e o outro rei que declarou guerra contra as crianças. Não é simplesmente verdadeiro dizer que outras religiões e filosofias são, sob esses aspectos, suas rivais. Não é verdadeiro dizer que alguma delas reúna essas características; não é verdadeiro dizer que alguma delas pretenda reuni-las. O budismo pode professar ser igualmente místico; mas não professa ser igualmente militar. O islamismo professa ser igualmente militar; mas não professa ser igualmente metafísico e sutil. O confucionismo pode professar que satisfaz a necessidade que têm os filósofos de ordem e razão; mas não professa satisfazer a necessidade que os místicos têm do milagre, do sacramento e da consagração de coisas concretas. Há muitas evidências dessa presença de um espírito ao mesmo tempo universal e único. Uma delas servirá neste ponto, aquela que é o assunto deste capítulo: nenhuma outra história, nenhuma lenda pagã, ou anedota filosófica, ou evento histórico de fato nos afeta com aquela impressão peculiar e até pungente produzida em nós pela palavra Belém. Nenhum outro nascimento de um deus, nenhuma outra infância de um sábio nos parece ser o Natal nem algo parecido com o Natal. Ou é demasiado frio ou demasiado frívolo, ou demasiado formal e clássico, ou demasiado simples e selvagem, ou demasiado oculto e complicado. Ninguém dentre nós, sejam quais forem nossas opiniões, jamais iria buscar uma cena dessas com a sensação de estar indo para casa. Poderíamos admirá-la por ela ser poética, ou por ser filosófica, ou por muitas outras coisas isoladas; mas não por ela ser o que é. A verdade é que há um caráter muito peculiar e individual envolvendo o fascínio que essa história exerce sobre a natureza humana; em sua substância psicológica ela não é nada parecida com uma lenda ou com a biografia de um grande homem. No exato sentido comum, ela não dirige nossa mente para a grandeza: para aquelas amplificações e exageros de seres humanos transformados em deuses e heróis, mesmo pelas espécies mais sadias de veneração dos heróis. Ela não opera exatamente para fora, com intrepidez, visando as maravilhas que se podem encontrar nos confins da terra. Ela é antes algo que nos surpreende pelas costas, desde a parte oculta e pessoal de nosso ser; como aquilo que às vezes nos pega desprevenidos na emoção de pequenos objetos ou nas atitudes piedosas de gente pobre. É mais propriamente como se alguém tivesse descoberto um quarto interno no recesso mais íntimo de sua própria casa, de cuja existência nunca se suspeitara, e houvesse visto uma luz provindo lá de dentro. É como se alguém houvesse encontrado algo no fundo do seu coração que o cooptasse para o bem. Não é algo feito daquilo que o mundo chamaria de materiais resistentes; ou melhor, é algo feito de materiais cuja resistência reside naquela leveza alada com que eles nos tocam de leve e vão embora. É tudo aquilo dentro de nós que não passa de uma breve ternura e que ali se torna eterno; tudo aquilo não significa mais que um enternecimento momentâneo que de alguma estranha maneira se transforma em fortalecimento e repouso; é a palavra perdida e o discurso interrompido que se tornam positivos e são suspensos intactos, à medida que os estranhos reis desaparecem num país distante e nas montanhas já não se ouvem os pés dos pastores; e permanecem apenas a noite e a caverna com pregas sobre pregas cobrindo algo mais humano que a humanidade.

 

G. K. Chesterton, O Homem Eterno, Mundo Cristão, 1ª edição, 2010

Cur Deus homo

Agnolo Bronzino, o nascimento de Jesus, 1535-40

Conformes ao propósito dessa iniciação, gostaríamos de fazer descobrir outra face de sua aproximação ao mistério. Sem refazer todo o seu percurso, seria mais esclarecedor retomar aqui a questão que os teólogos se punham desde muito tempo: Cur Deus homo? Por que Deus se fez homem?

Já evocamos a parte mais conhecida da resposta de Mestre Tomás, mas não conseguimos esgotar tudo o que disse sobre esse assunto. Como ele se recusa a falar de uma necessidade pura e simples da encarnação  – uma vez que não podemos limitar a onipotência de Deus, que poderia nos salvar de qualquer outro modo -, procura antes as razões de conveniência que podem ajudar a entender alguma coisa do incompreensível amor que levou Deus a tal extremo. Depois de Santo Agostinho, de Santo Anselmo e de tantos outros, os quais a Escritura orientava nessa direção, ele apela naturalmente à cura da ferida causada pelo pecado (remedium peccati), à restauração (reparatio) da humanidade na amizade com Deus, à satisfação pelo pecado, que aparecem como os motivos mais manifestos. É assim que o tema da satisfação, presente nas Sentenças e perfeitamente formulado no Compendium theologiae, persiste ainda na Suma Teológica:

 

A encarnação liberta o homem da servidão, o que, como Agostinho diz, “teve de ser feito de tal sorte que o demônio fosse vencido pela justiça do homem Jesus Cristo”. E isso se fez pela satisfação de Cristo por nós. Um simples homem não poderia satisfazer por todo o gênero humano; Deus não o devia; portanto era necessário que Jesus Cristo fosse Deus e homem (Homo autem Purus satisfacere non poterat, Deus autem satisfacere non debebat). [O balanço das fórmulas bastaria para revelar o sinal de origem, Anselmo foi nisso apenas um intermediário. Longe de dissimulá-lo, Tomás o anuncia, e após citar Agostinho continua com Leão:] “A fraqueza é assumida pela força, a humildade pela majestade; para que, conforme era necessário para nossa cura, um só e o mesmo mediador entre Deus e os homens (1Tm 2,5) pudesse morrer como homem e ressurgir como Deus. Se não fosse verdadeiro Deus, não poderia trazer-nos o remédio; se não fosse verdadeiro homem, não nos daria o exemplo”.(P3Q1A2)

 

Não obstante sua pertinência e sua persistência, o tema da reparação do equilíbrio perdido pelo pecado corre sempre o risco de favorecer uma visão antropocêntrica das coisas: o pecado parece impor a Deus uma finalidade não prevista por ele. Na busca de uma via nova, Tomás parece tê-la encontrado na Leia mais deste post

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