Tomás responde: A Sagrada Escritura deve se utilizar de metáforas?

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Catedral de Notre Dame, Adão, Eva e a serpente

Parece que a Sagrada Escritura não deve se utilizar de metáforas:

1. Na verdade, o que é próprio de uma doutrina bem inferior não parece convir a esta ciência, que, como já disse, ocupa o lugar mais alto. Ora, o emprego de imagens diversas e de representações sensíveis é próprio da poética, que ocupa o último lugar entre todas as ciências. Logo, não convém à ciência sagrada usar tais imagens.

2. Além disso, a doutrina sagrada parece ter por finalidade manifestar a verdade; por isso, aos que a manifestam é prometida uma recompensa: “Os que me explicam alcançarão a vida eterna”, diz a Sabedoria no livro do Eclesiástico (24, 31). Ora, tais imagens escondem a verdade. Logo, não convém a esta doutrina apresentar realidades divinas sob imagens do mundo corporal.

3. Ademais, quanto mais sublimes são algumas criaturas, mais se aproximam da semelhança com Deus. Portanto, se algo das criaturas deve ser transposto para Deus, tal transposição há de ser feita a partir das criaturas mais nobres, e não das ínfimas, o que no entanto se encontra com frequência nas Escrituras.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, Deus diz em Oséias: “Falarei aos profetas e multiplicarei as visões, e pelos profetas falarei em parábolas” (12, 10). Ora, apresentar uma verdade mediante imagens é usar metáforas. Logo, convém à doutrina sagrada empregar metáforas.

tomas_respondoConvém à Sagrada Escritura nos transmitir as coisas divinas e espirituais mediante imagens corporais. Deus provê a tudo de acordo com a natureza de cada um. Ora, é natural ao homem elevar-se ao inteligível pelo sensível, porque todo o nosso conhecimento se origina a partir dos sentidos. É, então, conveniente que na Escritura Sagrada as realidades espirituais nos sejam transmitidas por meio de metáforas corporais. É o que diz Dionísio: “O raio da luz divina só pode refulgir para nós envolvido na diversidade dos véus sagrados”.

Além do mais, a Escritura sendo proposta geralmente a todos, segundo se diz na Carta aos Romanos: “Sou devedor… às pessoas cultas como às ignorantes” (1, 14), é-lhe conveniente apresentar as realidades espirituais mediante imagens corporais, a fim de que as pessoas simples as compreendam; elas que não estão aptas a apreender por si mesmas as realidades inteligíveis.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. O poeta se vale de metáforas para sugerir uma representação, o que é agradável naturalmente ao homem. Quanto à doutrina sagrada, ela se vale de metáfora por necessidade e utilidade, como foi dito.

2. O fulgor da divina revelação, nos diz Dionísio, não é supresso pelas figuras sensíveis que o velam; ele permanece em sua verdade, de modo a impedir que mentes às quais é feita a revelação se limitem às imagens; ele as eleva até o conhecimento das coisas inteligíveis, e, por seu intermédio, os outros são igualmente instruídos. Eis por que o que é apresentado em determinado lugar da Escritura sob metáforas é exposto mais explicitamente em outros lugares. Além do mais, a obscuridade das próprias imagens é útil, seja para exercitar os estudiosos, seja para evitar as zombarias dos infiéis, a respeito dos quais se diz no Evangelho de Mateus: “Não deis aos cães o que é sagrado” (7, 6).

3. Dionísio explica por que nas Escrituras é preferível que as coisas divinas sejam apresentadas sob a figura dos corpos mais vis, e não dos mais nobres. Dá três razões para isso. Em primeiro lugar, desse modo afasta-se mais o espírito humano do erro. Fica claro que estas coisas não se aplicam com propriedade às coisas divinas: o que poderia provocar dúvidas se estas fossem apresentadas sob a figura dos corpos mais nobres, sobretudo para os que nada imaginam de mais nobre do que o mundo corporal. Em segundo lugar, esta maneira de agir se encontra em maior conformidade com o conhecimento que alcançamos de Deus nesta vida, porque de Deus sabemos mais o que Ele não é do que o que é. Assim, as semelhanças mais distantes de Deus nos levam a melhor compreender que Ele está acima de tudo o que podemos dizer ou pensar a seu respeito. Enfim, graças a esse caminho, as coisas divinas aparecem mais bem veladas aos indignos.

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q.1, a.9

 

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