Chestertoninas: O homem das cavernas

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Esse aposento secreto de rocha, ao ser iluminado depois de sua longa noite de séculos incontáveis, revelou em suas paredes enormes e alastrados contornos feitos dom argila de várias cores; e, quando os visitantes acompanharam suas linhas, reconheceram, através daquele vasto vão de séculos, o movimento e o gesto de uma mão humana. Eram desenhos ou pinturas de animais; e foram desenhados ou pintados não apenas por um homem, mas por um artista. Apesar de todas as limitações possíveis, eles exibiam o amor pelo traço grande e curvo ou longo e ondulado que qualquer um que já desenhou ou tentou desenhar há de reconhecer; e a respeito desse traço nenhum artista aceitará ser contestado por nenhum cientista. Os desenhos mostravam o espírito experimental e aventureiro do artista, o espírito que em vez de evitar, tenta o que é difícil; como no ponto onde o desenhista havia representado o movimento da rena ao virar completamente a cabeça para farejar a própria cauda, ação bastante comum no cavalo. Mas há muitos modernos pintores de animais para quem representar essa cena seria uma tarefa bastante difícil. Nesse e em outros vinte detalhes fica claro que o artista havia observado os animais com certo interesse e presumivelmente com certo prazer. Nesse sentido pareceria que ele não era apenas um artista, mas também um naturalista; o tipo de naturalista que é realmente natural.

Sendo assim, nem é preciso observar, a não ser de passagem, que não há absolutamente nada na atmosfera das cavernas que sugira a atmosfera sombria e pessimista das cavernas dos ventos dos jornais, vociferando e soprando ao nosso redor com inúmeros ecos a respeito do homem das cavernas. Na medida em que algum caráter humano pode ser sugerido por esses traços, esse caráter humano é muito humano e até mesmo humanitário. Certamente não se trata do ideal de um caráter desumano, como a abstração invocada na ciência popular. Quando romancistas educadores e psicólogos de todos os tipos falam do homem das cavernas, eles nunca o imaginam em conexão com coisa alguma que de fato está na caverna. Quando o realista de romances de sexo escreve “Rubras faíscas dançavam no cérebro de Dagmar Pinto; ele sentia o espírito do homem das cavernas crescendo dentro dele”, os leitores do romancista se sentiriam muito decepcionados se Dagmar apenas sumisse e fosse desenhar enormes vacas na parede da sala de visitas. Quando o psicanalista escreve a um paciente “Os instintos submersos do homem das cavernas sem dúvida estão estimulando você a satisfazer um impulso violento”, ele não está se referindo ao impulso de pintar uma aquarela; ou de fazer estudos introspectivos sobre como o gado mexe a cabeça quando está pastando. No entanto, nós temos provas de que o homem das cavernas de fato fazia essas coisas meigas e inocentes; e não temos o menor sinal de evidência de que ele praticasse alguma dessas atividades violentas e ferozes. Em outras palavras, o homem das cavernas tal e qual ele nos é comumente apresentado é apenas um mito, ou melhor, mera confusão; pois um mito tem no mínimo um esquema imaginativo de verdade. Toda essa maneira atual de falar é simplesmente uma confusão e um mal-entendido, que não se funda em nenhuma espécie de evidência científica e é apreciado apenas como desculpa para um estado de espírito anarquista que é muito moderno. Se algum cavalheiro quer bater numa mulher, ele sem dúvida pode ser um grosseirão sem denegrir o caráter do homem das cavernas, acerca do qual não sabemos quase nada a não ser o que se consegue deduzir de algumas inofensivas e agradáveis pinturas numa parede.

G. K. Chesterton, O Homem Eterno

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