Tomás responde: Deus se encarnou mais para remédio dos pecados atuais do que para remédio do pecado original?

Schnorr_von_Carolsfeld_Adao_Eva_ExpulsosJulius Schnorr von Carolsfeld (1794–1872), Adão e Eva expulsos do Paraíso (1851-1860)

Parece que Deus se encarnou mais para remédio dos pecados atuais do que pra remédio do pecado original:

  1. Com efeito, quanto mais é grave um pecado, tanto mais se opõe à salvação humana, para a qual Deus se encarnou. Ora, o pecado atual é mais grave do que o pecado original; pois, como Agostinho diz, ao pecado original se deve um castigo mínimo. Logo, a encarnação de Cristo ordena-se principalmente a apagar os pecados atuais.
  2. Além disso, ao pecado original não se deve a pena dos sentidos, mas somente a pena do dano, como acima foi estabelecido. Ora, Cristo veio sofrer a pena dos sentidos na cruz para satisfação dos pecados, mas não a pena do dano, pois não sofreu nenhuma diminuição da visão e fruição divinas. Logo, veio sobretudo para apagar o pecado atual mais do que o original.
  3. Ademais, diz Crisóstomo: “Este é o sentimento do servo fiel, a saber, considerar como concedidos somente a si os benefícios de seu senhor que são concedidos a todos. Como se falasse apenas de si, escreve Paulo aos Gálatas: ‘Amou-me e se entregou por mim’ (2, 20)”. Ora, os nossos próprios pecados são pecados atuais e, com efeito, o pecado original é um pecado comum. Logo, devemos sentir de tal modo que julguemos ter ele vindo por causa dos pecados atuais.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o Evangelho de João diz: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (1, 29).

tomas_respondoÉ certo que Cristo veio a esse mundo não só para apagar o pecado transmitido originalmente aos apóstolos, mas também para apagar todos os pecados que depois foram acrescentados. Não que todos efetivamente sejam apagados, em razão da deficiência dos homens que não aderem a Cristo, conforme o que diz o Evangelho de João: “A luz veio ao mundo e os homens preferiram as trevas à luz” (3, 19), mas porque ele realizou o que foi suficiente para apagar todos os pecados. Assim é dito na Carta aos Romanos: “Não acontece com o dom o mesmo que com a falta; pois, o julgamento de um só pecado terminou em condenação, enquanto a graça aplicada a numerosos pecados terminou em justificação” (5, 15-16).

Quanto maior é o pecado, com tanto maior razão Cristo veio para apagá-lo. Ora, algo se diz maior de duas maneiras: ou intensivamente, e assim é maior a brancura que é mais intensa. E desse modo o pecado atual é maior do que o original, porque participa mais da natureza do voluntário, como já foi dito na II Parte. De outra maneira, algo é dito maior extensivamente: como maior é a brancura que está numa superfície mais ampla. E desse modo o pecado original, pelo qual todo o gênero humano é atingido, é maior do que qualquer pecado atual próprio de uma pessoa singular. Sob esse aspecto, Cristo veio principalmente para apagar o pecado original: porque “o bem do povo é mais divino do que o de um só”, como se diz no livro I da Ética.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

  1. O argumento procede da grandeza intensiva do pecado.
  2. Na retribuição futura não será atribuída ao pecado original a pena do sentido; mas os sofrimentos que suportamos nessa vida sensivelmente, como a fome, a sede, a morte e outros semelhantes provêm do pecado original. Assim Cristo, para satisfazer plenamente pelo pecado original quis sofrer a dor sensível para abolir em si mesmo a morte e todos os outros castigos.
  3. O próprio Crisóstomo acrescenta, no mesmo lugar, que o Apóstolo dizia aquelas palavras “não querendo diminuir os grandes benefícios de Cristo espalhados por toda a terra, mas para designar apenas a si como beneficiário em lugar de todos. Que importa que tenha sido concedido a outros, quando o que foi dado de tal modo o foi inteira e perfeitamente, como se não tivesse sido concedido a ninguém mais?” Portanto, pelo fato de que devamos julgar que os benefícios de Cristo nos foram concedidos, não devemos pensar que não foram concedidos a outros. Logo, não se exclui que tenha vindo principalmente para apagar o pecado de toda a natureza mais do que o pecado de uma só pessoa. Mas o pecado comum foi de tal maneiro sanado em cada um como se apenas ele tivesse sido curado. De resto, em razão da união de caridade, o que foi concedido a todos, cada um o deve atribuir a si mesmo.

Suma Teológica III q.1, a.4

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