Tomás responde: Os homens são combatidos pelos demônios?

Juan_Manuel_Blanes_Demonio_mundo_y_carneJuan Manuel Blanes (1830-1901), “Demônio, Mundo e Carne” (1886)

Parece que os homens não são combatidos pelos demônios:

  1. Com efeito, os anjos, enviados por Deus, são delegados à guarda dos homens. Ora, os demônios não são enviados por Deus, pois sua intenção é perder as almas, enquanto a de Deus é salvá-las. Logo, os demônios não são delegados para combater os homens.
  2. Além disso, não é justa a condição de luta em que o fraco é exposto à guerra contra o forte, o incauto contra o astuto. Ora, os homens são fracos e incautos, enquanto os demônios são fortes e astutos. Logo, Deus, autor de toda justiça, não pode permitir que os homens sejam combatidos pelos demônios.
  3. Ademais, para o exercício dos homens, basta a luta da carne e do mundo. Ora, Deus permite que seus eleitos sejam combatidos para que se exercitem. Logo, não parece necessário que sejam combatidos pelos demônios.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz o Apóstolo na Carta aos Efésios: “Não é contra a carne e o sangue que lutamos, mas contra os Principados e Potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, os espíritos do mal que estão nos céus” (6, 12).

tomas_respondoA respeito dos combates dos demônios é preciso considerar duas coisas: o combate em si mesmo e sua ordem. O combate em si mesmo procede da maldade dos demônios, que por inveja se esforçam para impedir o progresso dos homens e por soberba usurpam a semelhança do poder divino, delegando determinados ministros para combater os homens, assim como os anjos servem a Deus em determinadas funções em prol da salvação dos homens. Todavia, a ordem desses combates é de Deus, que sabe usar com ordem dos males, ordenando-os para o bem. Quanto aos anjos, provêm de Deus, como de seu primeiro autor, tanto a guarda em si mesma como a ordem da guarda.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

  1. Os anjos maus combatem os homens de duas maneiras. Primeiro instigando-os ao pecado. Neste caso, não são enviados por Deus, pois têm às vezes sua permissão para combater, segundo os justos juízos de Deus. Segundo, combatendo-os para puni-los. Neste caso, são enviados por Deus; por exemplo, quando foi enviado um espírito de mentira para punir Acab, rei de Israel, conforme está no terceiro livro dos Reis. O castigo provém de Deus como de seu primeiro autor. Entretanto, os demônios enviados para punir punem com intenção distinta daquela pela qual são enviados, pois punem por ódio e inveja, enquanto Deus os envia por causa de sua justiça.
  2. Para que a condição da luta não seja desigual, o homem recebe em compensação principalmente o auxílio da graça divina, e em segundo lugar a guarda dos anjos. Por isso Eliseu disse a seu ajudante: “Não tenhas medo! Os que estão conosco são mais numerosos do que os que estão com eles”, como está no segundo livro dos Reis.
  3. Para a fraqueza humana bastaria, como exercício, o combate da carne e o mundo. Ora, isso não é o bastante para a maldade dos demônios, que aliás se servem de ambos para combater o homem. Todavia, por ordem divina, isso redunda em glória dos eleitos.

Suma Teológica I, q.114, a.1

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