Tomás responde: A morte e outras deficiências corporais são efeitos do pecado?

Parece que a morte e outras deficiências corporais não são efeitos do pecado:

  1. Com efeito, se a causa for igual, o efeito também será igual. Ora, estas deficiências não existem igualmente em todos, são mais abundantes em alguns, enquanto que o pecado original é igual em todos. É dele que estas deficiências parecem ser principalmente efeito. Portanto, elas não são efeitos do pecado.
  2. Além disso, removida a causa remove-se o efeito. Ora, removido todo pecado pelo batismo ou pela penitência não se removem tais efeitos. Logo eles não são efeitos do pecado.
  3. Ademais, há mais razão de culpa no pecado atual do que no pecado original. Ora, o pecado atual não muda em deficiências a natureza do corpo. Logo, muito menos o pecado original. Assim, a morte e outras deficiências do corpo não são efeitos do pecado.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o Apóstolo diz: “Por um só homem o pecado entrou neste mundo, e pelo pecado a morte”.

tomas_respondoUma coisa é causa de outra de duas maneiras: por si, ou por acidente. Ela é por si causa de uma outra quando é em virtude de sua natureza ou de sua forma que ela produz o efeito, donde se segue que o efeito é procurado por si pela causa. Portanto, como a morte e as tais deficiências estão fora da intenção do pecador, é claro que o pecado não é por si a causa dessas deficiências.

Acidentalmente uma coisa é causa de uma outra se ela remove o obstáculo. “Quem arranca a coluna, diz o livro VIII da Física, acidentalmente remove a pedra sobreposta”. É desta maneira que o pecado do primeiro pai é causa da morte e de todas as deficiências na natureza humana. Eis como: o pecado do primeiro pai suprimiu a justiça original, pela qual não somente as potências inferiores da alma estavam contidas sob a razão sem qualquer desordem, mas todo o corpo estava contido sob a alma sem nenhuma deficiência, como foi dito na I parte. Uma vez suprimida esta justiça original pelo pecado do primeiro pai, assim como a natureza humana foi ferida, quanto à alma, pela desordem das potências, assim também se tornou corruptível pela desordem do mesmo corpo.

A perda da justiça original, como a da graça, tem a razão de uma pena. Por conseguinte, a morte e todas as consequentes deficiências do corpo são, também elas, a pena do pecado original, e embora não sejam procuradas pelo pecador, são ordenadas por Deus como penas de sua justiça.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

  1. A causas por si iguais correspondem efeitos iguais e aumentada ou diminuída a causa aumenta ou diminui o efeito. Se alguém com um impulso igual arranca duas colunas, não se segue que as pedras sobrepostas devam mover-se igualmente. Cairá mais depressa a que for mais pesada segundo a sua própria natureza, à qual fica entregue quando o obstáculo é removido. Assim, removida a justiça original, a natureza do corpo humano ficou entregue a si mesmo, e nesse sentido, segundo a diversidade da compleição natural, os corpos de alguns estão sujeitos a mais deficiências, os de outros a menos, embora o pecado original exista em todos igualmente.
  2. Aquele que remove a culpa original e atual é também aquele que remove as deficiências da natureza: “Ele vivificará, diz o Apóstolo, vossos corpos mortais pela habitação em vós de seu Espírito”. As duas coisas se fazem segundo a ordem da divina sabedoria, no tempo oportuno. Com efeito, é preciso para chegar à imortalidade e à impassibilidade da glória que foi iniciada em Cristo e nos foi adquirida por Cristo, que nos tornemos primeiro conformes aos seus sofrimentos. É preciso, portanto, que a passibilidade permaneça em nossos corpos por um tempo, para que mereçamos a impassibilidade da glória em conformidade com Cristo.
  3. No pecado atual podemos considerar duas coisas: a substância do ato e a razão da culpa. Pela substância do ato, o pecado atual pode causar alguma deficiência corporal. Por exemplo, há quem é doente e que morre por excesso de alimento. Pela culpa, o pecado atual priva da graça, que é dada ao homem para retificar os atos da alma, não porém para impedir as deficiências do corpo, como impedia a justiça original. É por isso que o pecado atual não causa essas deficiências, como o pecado original.

Suma Teológica I-II, q.85, a.5

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