Tomás responde: Devem-se suportar os insultos proferidos contra si?

RP-P-1896-A-19368-2221James, bispo de Nische, hostilizado por três meninas, Caspar Luyken, Christoph Weigel, 1704

 Parece que não se devem suportar os insultos proferidos contra si:

  1. Com efeito, quem suporta os insultos encoraja a audácia do injuriante. Ora, isso não deve ser feito. Logo, em vez de suportar, é melhor revidar os insultos.
  2. Além disso, deve-se amar a si mesmo mais que a outrem. Ora, não se deve deixar insultar a outrem; como se diz no livro dos Provérbios: “Quem impõe silêncio ao insensato aplaca as cóleras” (26, 10). Logo, não se devem suportar os insultos feitos a si mesmo.
  3. Ademais, ninguém tem o direito de se vingar a si mesmo, conforme está dito na Carta aos Hebreus: “A mim a vingança! Sou eu que retribuirei”. Ora, é uma vingança não resistir aos insultos, pois Crisóstomo declara: “Se queres vingar-te, guarda o silêncio, e lhe darás assim um golpe fatal”. Logo, não se deve guardar silêncio e aguentar os dizeres insultuosos, mas, antes, dar-lhes réplica.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, está escrito no Salmo: “Os que buscam minha desgraça, espalham mentiras;” E a seguir: “Sou como um mudo que não abre a boca” (37, 13-14).

tomas_respondoA paciência é necessária para suportar tanto as ações quanto as palavras que nos ofendem. Mas, os preceitos que recomendam a paciência contra as ofensas visam estabelecer uma disposição habitual da alma. O mandamento do Sermão sobre a Montanha: “Se alguém te esbofetear na face direita oferece-lhe também a outra”, é assim comentado por Agostinho: “Deve-se estar preparado para praticá-lo, se necessário. Mas não se está obrigado a agir assim efetivamente, pois o próprio Senhor não o fez. Quando recebeu uma bofetada, perguntou: Por que me feres?” É o que se lê no Evangelho de João. De igual maneira, no que toca às palavras injuriosas proferidas contra nós, devemos ter o ânimo preparado para suportar as ofensas, se for conveniente. Mas em certos casos devemos repelir os insultos, sobretudo por duas razões.

A primeira é o bem de quem nos injuria; cumpre reprimir sua audácia, a fim de que não seja tentado a recomeçar. É o que diz o livro dos Provérbios: “Responde ao insensato segundo sua insensatez, para que não se tenha por sábio” (26,5). A segunda razão é o bem de muitos cujo progresso seria entravado pelos insultos que nos fazem. Daí as reflexões de Gregório: “Aqueles cuja vida é dada em exemplo aos outros devem, se podem, reduzir ao silêncio seus difamadores; a fim de que os que poderiam ouvir sua pregação não se afastem, e, permanecendo presos a seus vícios, acabem desprezando a virtude”.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

  1. Reprimir com moderação a audácia do insultante injurioso, para cumprir um dever de caridade, não por apego à própria honra. É o que se diz no livro dos Provérbios: “Não respondas ao insensato segundo sua insensatez, para não te igualares a ele” (26,4).
  2. Quando se reprime o insulto feito a outrem, o risco de se buscar a satisfação do amor próprio é menor do que no caso da defesa da honra pessoal. Parece aí prevalecer a motivação da caridade.
  3. Calar-se com o desejo secreto de assim provocar à cólera aquele que nos injuriou é, sem dúvida, agir por vingança. Ao contrário, guardar silêncio para apaziguar a cólera é atitude virtuosa. Daí a palavra do Eclesiástico: “Não discutas com o fanfarrão, não jogues lenha no fogo” (8,4).

Suma Teológica II-II, q.72,a.3

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