Tomás responde: A piedade assegura o sustento aos pais?

 

Parece que a piedade não assegura o sustento aos pais:

1. Com efeito, a piedade parece se referir àquele preceito do decálogo: “Honra teu pai e tua mãe”. Ora, aí apenas se prescreve a obrigação de prestar honra. Logo, não cabe à piedade assegurar o sustento dos pais.

2. Além disso, o homem deve entesourar para aqueles que tem obrigação de sustentar. Ora, o Apóstolo diz: “Não são os filhos que tem obrigação de entesourar bens para os pais” (2Cor 12, 14). Logo, a piedade não os obriga a sustentar os pais.

3. Ademais, como ficou dito no artigo anterior, a piedade não se estende apenas aos pais, mas também aos consanguíneos e aos concidadãos. Ora, ninguém é obrigado a dar sustento a todos os consanguíneos e concidadãos. Logo, a piedade não obriga tampouco a sustentar os pais.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o Senhor recrimina os fariseus por impedirem os filhos de assegurar o sustento aos pais (Mt 15, 3).

Tomas_RespondoDe duas maneiras se deve alguma coisa aos pais: por si ou acidentalmente. Por si, se deve a eles aquilo que convém ao pai enquanto pai. Sendo ele superior ao filho, um como que princípio do filho, este último lhe deve reverência e serviço. Acidentalmente, se deve ao pai aquilo que lhe convém segundo uma circunstância acidental; se, por exemplo, estiver doente, os filhos devem visitá-lo e procurar a sua cura; se estiver na pobreza, os filhos devem sustentá-lo, e assim em todas as circunstâncias em que há a obrigação de serviço que a ele se deve. É a razão pela qual Túlio diz que a piedade comporta dever e culto: o dever se refere ao serviço, o culto à reverência ou à honra; porque, como diz Agostinho, “rendemos culto às pessoas a quem celebramos, por demonstrações de hora, pela lembrança ou pela presença”.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. A honra que se deve prestar aos pais compreende também toda a assistência que lhes é devida, de acordo com a interpretação dada pelo Senhor. E isto porque a assistência a um pai é um dever para com alguém superior.

2. O pai tem razão de princípio; e o filho tem a razão de procedente daquele princípio. Por isso, o pai, por si, tem obrigação de prover o sustento do filho. E não somente por um determinado lapso de tempo, mas durante toda sua vida, o que é entesourar. A assistência prestada a um pai por um filho é acidental, em razão de alguma necessidade do momento que obriga a ajudá-lo, mas não a entesourar a longo prazo; porque, naturalmente, são os filhos que sucedem aos pais, e não estes aos filhos.

3. Como diz Túlio, o culto e os serviços se devem a todos aqueles que são “unidos pelo sangue e que amam a mesma pátria”, mas não a todos da mesma maneira; em primeiro lugar, aos pais; aos outros, apenas na medida de nossos próprios recursos e da situação social deles.

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica II-II, q.101, a.3

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