São Vicente de Paulo: “Dos padres depende o cristianismo”

Sao_Vicente_de_PauloSão Vicente de Paulo

Entre as finalidades marcadas aos seus filhos por Vicente de Paulo, havia ainda uma terceira. É claro que tinham de santificar-se a si mesmos e levar aos pobres a Palavra de Deus, mas importava também “ajudar os eclesiásticos a adquirir as virtudes necessárias ao seu estado”. Esta terceira intenção não era, na verdade, senão consequência das duas primeiras. Para evangelizar o povo, era necessário evangelizar os pastores, que muitas vezes estavam igualmente necessitados de ajuda.

Como é natural, os decretos do Concílio de Trento não tinham bastado para pôr termo de golpe à decadência do clero. Muitos esforços seriam ainda necessários para subir de novo a encosta pela qual a Igreja deslizava havia mais de dois séculos Demasiados padres, especialmente nos campos, viviam ao nível do seu povo, de um povo cuja moralidade, depois de tantos anos de convulsões políticas, religiosas e sociais, não era lá muito alta. A falar verdade, a maior parte do clero não escandalizava por maus costumes, mas os seus costumes nada tinham de sacerdotais. Muitos deles eram preguiçosos – “a preguiça é o vício do clero”, confessava Vicente de Paulo -, indiferentes a qualquer esforço pastoral. Dada a falta de formação, eram muito ignorantes. Vicente talvez se lembrasse de certo pároco que conhecera durante as suas primeiras Missões em terras dos Gondi: nem sequer sabia a fórmula da absolvição. E o absenteísmo era algo normal.

Essa decadência do clero atormentava a alma verdadeiramente sacerdotal de Monsieur Vincent. Tinha palavras terríveis para a situação que pudera conhecer pessoalmente: “Vivendo como hoje vivem na grande maioria, os padres são os maiores inimigos da Igreja de Deus”. E ainda: “A depravação do estado eclesiástico é a principal causa da ruína da Igreja”. Críticas severas, mas que, para esse coração generoso, apenas significavam uma exigência profunda. “Tais os padres, tais os povos”. Ou: “Se um bom padre pode fazer um grande bem, ai!, quanto mal não faz um mau padre!” E acrescentava esta pequena frase, em que já parece falar o santo Cura d’Ars: “Não há nada tão grande como um bom padre”.

Lançou-se, pois, à reforma do clero. “Ó meus senhores e meus irmãos – exclamava ele diante dos seus lazaristas – formar bons eclesiásticos é a obra mais difícil, mais alta e mais importante para a salvação das almas”.  Obra difícil, na verdade. Era preciso acabar com tantos costumes enraizados, exigir garantias morais aos futuros padres, obrigá-los a uma formação específica, impedir que, por recomendação de algum poderoso, se ordenassem pessoas com o propósito de conseguir uma posição social, sem terem a menor bagagem teológica… Um edifício inteiro a reconstruir desde os alicerces. Vicente não era o único a sofrer a angústia desse imenso problema. Meio século antes, o Concílio de Treno estudara-o a fundo e fixara excelentes princípios práticos, mas faltava aplicá-los. Bérulle, com o Oratório, e Bourdoise, com a sua comunidade de padres, trabalhavam nesse sentido. Um pouco mais tarde, viriam ainda Olier e São João Eudes, assim como Holzhauser na Alemanha, e vários outros. Nessa imensa empresa, Vicente de Paulo não está só, mas assume um papel capital.

A primeira das suas realizações foi-lhe literalmente inspirada pela Providência: ao longo de toda a sua vida, aconteceu-lhe muitas vezes acolher uma sugestão, uma idéia, um projeto, como vindo de Deus e, humildemente, pôr na sua concretização todo o seu zelo e o seu gênio organizativo. Foi em julho de 1628. O bispo de Beauvais, Augustin Potier de Gesvres, viajava na sua carruagem por uma estrada da diocese, acompanhado de alguns eclesiásticos, entre os quais Vicente. Parecia dormitar. Subitamente, abriu os olhos e disse: “Finalmente! Parece-me que encontrei um meio rápido e eficaz de preparar os clérigos para as sagradas ordens: recebê-los em minha casa durante vários dias. Lá farão exercícios de piedade e serão instruídos sobre os seus deveres e funções”. Vicente de Paulo teve um estremecimento de alegria: “Essa idéia vem de Deus, senhor bispo. Também eu não vejo nada melhor para pôr no bom caminho o clero da vossa diocese”. O bispo respondeu-lhe: “Será bom começar quanto antes. Formulai um programa, preparai a lista dos temas a tratar nas palestras, e, uns quinze ou vinte dias antes das ordenações de setembro, voltai a Beauvais para dispor as coisas para o retiro”.

Foi assim que nasceram os Entretiens des ordinands [“Conversas com os ordenandos”]. Nas Têmporas seguintes, Vicente foi a Beauvais a fim de pregar o primeiro retiro. Três anos mais tarde, estava encontrada a fórmula exata, estabelecido um regulamento e elaborado um pequeno manual, que o futuro santo redigiu em colaboração com outras “pessoas piedosas”. Eram essas Conversas com os ordenandos um compêndio de ascese e, ao mesmo tempo, um resumo de teologia. O êxito foi considerável. O arcebispo de Paris manifestou o desejo de ter essas Conversas na sua diocese e pediu a Vicente que abrisse as sessões no Colégio dos Bons-Enfants. Depois, quando Saint-Lazare se abriu à nova Companhia da Missão, o arcebispo exigiu que todos os seus futuros padres participassem das Conversas ali organizadas. A instituição expandiu-se; outras dioceses a adotaram, como Troyes, Noyon e, mais tarde, a Savóia e a própria Roma. Aos católicos do nosso tempo, essa iniciativa pode parecer ainda demasiado rudimentar – que se podia fazer de verdadeiramente sério em vinte dias? -, mas nem por isso foi menos eficaz. Entre os ordenandos das Conversas, dão testemunho disso Jean-Jacques Olier, o padre Rancé e sobretudo Bossuet, que, depois de ter assistido a elas, veio a ensinar lá por diversas vezes.

No entanto, Vicente de Paulo dava-se conta, melhor que ninguém, da insuficiência da sua obra. Esse retiro era certamente um começo, mas era preciso ir mais longe. Esperou durante cinco anos que a Providência o advertisse do que devia fazer. O sinal foi-lhe dado por alguns dos próprios padres que tinham seguido as Conversas com os ordenandos em Saint-Lazare. Ao tomarem mais consciência das grandezas e das responsabilidades do sacerdócio, pediram a Vicente de Paulo que os reunisse em Saint-Lazare “para tratar com eles das virtudes e das funções próprias do seu ministério”. O santo acedeu a esse pedido e, em 24 de junho de 1633, inaugurava as Conferências das terças-feiras, que manteve quase sem exceção até a morte. Tornaram-se famosas e muito concorridas. “Quase não houve eclesiástico de mérito que não quisesse participar delas”, diz Lancelot, o pedagogo ilustre que se preocupava com as questões de reforma do clero tanto como com as das raízes gregas.

Assim se constituiu uma elite sacerdotal, animada de fé profunda e generosa emulação. “Não há entre esses senhores da Conferência nenhum que não seja um homem exemplar. Trabalham todos com frutos sem igual”, disse Vicente. Foi entre os assistentes às Conferências que escolheu os missionários encarregados de catequizar a Corte, em Saint-Germain. Bossuet, que era dos mais assíduos, prestou este belo testemunho acerca daquele que era a alma das Conferências: “Ele era esse ministro que, segundo a expressão de São Pedro, fala de Deus com tanto realce que o próprio Deus parece dar-se a conhecer pela sua boca”.

Daniel-Rops, A Igreja dos Tempos Clássicos (I), Quadrante, 2000

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One Response to São Vicente de Paulo: “Dos padres depende o cristianismo”

  1. xepa2182 says:

    Mayana. On Qua 09/07/14 08:02 , “Suma Teológica – Summae Theologiae”

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