A vingança de Aristóteles

aristoteles

Por Olavo de Carvalho

Se você frequentou alguma dessas curiosas instituições que no Brasil se chamam “escolas”, com certeza aprendeu que na Renascença o pensamento moderno dissipou as trevas medievais, colocando a ciência no lugar de uma névoa de superstições e crendices, como a magia, a alquimia e a astrologia. Se chegou à universidade, então, adquiriu a certeza absoluta de que foi isso o que aconteceu.

Pois é, aprendeu tudo errado. O assalto moderno ao pensamento escolástico predominante na Idade Média começou justamente trazendo de volta as práticas mágicas que a escolástica havia expulsado dos domínios da alta cultura.

Os pioneiros da modernidade – Tommaso Campanella, Giordano Bruno, Pietro Pomponazzi, Lucilio Vanini, entre outros – não só eram crentes devotos das artes mágicas, mas sua revolta contra a escolástica baseou-se essencialmente no desejo de colocá-las de novo no centro e no topo da concepção do mundo.

O advento da física matematizante e mecanicista de Descartes e Mersenne, em seguida, voltou-se muito menos contra a escolástica do que contra essa primeira leva de pensadores modernos, e nesse empreendimento serviu-se amplamente de argumentos aprendidos da escolástica.

A única diferença substantiva entre o mecanicismo de Descartes-Newton e a escolástica é que esta última, seguindo Aristóteles, não apostava muito no método matemático, cujo repentino sucesso a pegou desprevenida e desarmada.

A física aristotélico-escolástica era baseada nas qualidades sensíveis dos corpos, das quais ela obtinha, por abstração, os seus conceitos gerais. A ciência moderna desinteressou-se da “natureza” dos corpos e concentrou-se no estudo das suas propriedades mensuráveis. Daí resultou a concepção mecanicista, na qual todos os processos naturais se reduziam, em última análise, a movimentos locais e obedeciam a proporções matemáticas universalmente válidas.

No mais, o mecanicismo cartesiano concordava em praticamente tudo com a escolástica, especialmente no tocante às provas da existência de Deus e da alma, bem como à liberdade humana.

Hoje sabe-se que Descartes e seu amigo Marin Mersenne não estavam interessados em destruir a escolástica, mas em salvá-la da contaminação mágico-naturalista para a qual a antiga física das “qualidades” deixava o flanco aberto.

O mundo, porém, dá voltas. Aristóteles não levava a sério o método matemático porque não acreditava que nada na natureza se conformasse exatamente a qualquer medição ou regularidade inflexível. Para ele, o método certo para o estudo da natureza era a dialética, que não leva a conclusões lógicas perfeitas e acabadas, mas somente a probabilidades razoáveis.

O desenvolvimento da física quântica, no século 20, mostrou que as leis inflexíveis da física newtoniana só valiam para o quadro das aparências macroscópicas, mas que a matéria, na sua constituição mais íntima, admitia irregularidades e imprevistos que só podiam ser apreendidos numa ótica probabilística.

Aristóteles, portanto, não estava realmente errado. Apenas ele não tinha os instrumentos matemáticos para expressar numa linguagem quantitativa a sua noção de um universo probabilístico. Esses instrumentos, por ironia, vieram a ser criados justamente pela ciência moderna que desbancou temporariamente a física aristotélica. Sem a arte do cálculo, descoberta por Newton e Leibniz, a física quântica seria impossível, mas desde o advento desta última o abismo que separava o probabilismo aristotélico da física matematizante foi transposto. Um pouco mais adiante, uma releitura mais atenta da Física de Aristóteles mostrou nela, por baixo de erros de detalhe (por exemplo, quanto às órbitas planetárias), uma metodologia científica geral bastante fecunda e compatível com as exigências modernas. Na celebração dos 2400 anos do seu nascimento, em 1991, Aristóteles provou que ainda era até mais popular entre os cientistas do que entre os filósofos de ofício.

E, no seu livro O Enigma Quântico, o físico Wolfgang Smith demonstrou que todas as chaves conceptuais para uma fundamentação filosófica da física quântica já estavam dadas com séculos de antecedência na escolástica de Santo Tomás de Aquino. Era a vingança completa.

Não há um só historiador das ciências, hoje em dia, que ignore que foi exatamente assim que as coisas se passaram. Contudo, nas universidades brasileiras, parece que essas novidades velhas de meio século ainda não chegaram.

Fonte: http://www.olavodecarvalho.org/semana/140304dc.html

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One Response to A vingança de Aristóteles

  1. Caro David,

    Faço parte dos formados pela Filosofia da USP, durante a década de 70. No curso de Filosofia Antiga estudávamos os pre-socráticos e Platão. A partir disso, havia um saldo até Descartes, passando por Hume, Kant, Rousseau e Marx. Um pouco de Husserl e a famosa Escola de Frankfurt. O pensamento aristotélico-escolástica era considerado démodé, ultrapassado , sem interesse acadêmico. Culpados do atraso do desenvolvimento natural da ciência . Nao ocasionou a total destruição das obras geradas pelos filósofos da antiguidade, graças aos árabes e muçulmanos. O que também parecem ignorar que estes estiveram na península ibérica e adjacências do mediterrano até o oriente médio por quase 1000 anos.
    A comunidade cristã-romana ocupou o espaço que hoje é um pouco da Itália, sul da Alemanha, parte da França e somente no séc XI inicia a ocupação do norte da península ibérica. O norte africano e oriente médio encontramos os ortodoxos, mouros, beduínos , muçulmanos e etc…
    Diante deste quadro, simplista confesso, mas nao menos real, qual o poder de fogo, dominação , força que os católicos romanos podem sustentar?
    Negar, ignorar, desprezar toda a produção de conhecimento medieval é simplesmente um atestado de ignorância intelectual , pobreza de espirito, manipulação ideológica.
    Hoje tenho 61 anos e precisei de todo os meus sessenta anos para descobrir o conhecimento medieval. Hoje descobri Tomas de Aquino e lendo a “Suma Teológica” constato os caminhos novos para a investigação racional, que nos deixou. Ele reconhece que o Ser só é conhecido por sua aparência ( fenomenologia), que o conhecimento natural é adquirido na natureza. (indução e dedução), o quanto a matemática é a base racional das ciências naturais (logica).
    Deixa-nos com uma clareza fantástica que o conhecimento humano é representativo e sucessivamente , isto é, ao observar o fenômeno, pode ser conhecido através dos meios de representações próprias de cada uma de suas partes. (STh I,q12,a10 )
    Outra citação:” a faculdade cognitiva é informada pela representação de um outro que a ela se assemelha, nesse caso, nao se diz que a coisa é conhecida em si mesma, mas em seu semelhante” (SThI, q12,a9)
    Por exemplo a Energia.
    O ser humano necessita de energia para tudo que faz, desde impulsionar o sangue para tuas as partes de seu corpo até fazer com que uma lampada se acenda ou que um automóvel se locomova. Como podemos obter essa energia?
    Para o corpo humano utilizamos a energia dos alimentos….
    Biocombustível, do álcool….da cana de açúcar, amendoim, soja…..
    Hidroelétrica, das quedas d´águas….
    Conhecemos as coisas por meio das semelhanças existentes.
    Concluindo:
    Descartes, Kant , Husserl….devem ter a humildade e reconhecer, quem abriu as portas do conhecimento e desenvolvimento das investigações cientificas foi Tomas de Aquino. Nao era seu objetivo maior. Tomas faz todo esse caminho para nos mostrar que se este processo de conhecimento racional existe no ser humano é porque algo superior, ao todo e ao múltiplo, o criou.
    Cristina Cilento

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