Será que tem sentido toda essa morte ao nosso redor?

Ciseri,_Antonio_-_Das_Martyrium_der_sieben_Makkabäer_-_1863

Santa Felicita e il martirio dei Maccabei (1863),
Chiesa di Santa Felicita – Firenze, Antonio Ciseri (1821-1891).

Gostaria de recordar aquilo que foi, talvez, a mais profunda experiência por que passei no campo de concentração. As chances de sair dali com vida não passavam de uma em 28, como se pode verificar facilmente em estatísticas exatas. Não parecia nem mesmo possível, e muito menos provável, que o manuscrito do meu primeiro livro, que ocultei dentro da minha capa ao chegar em Auschwitz, jamais pudesse ser salvo. Assim, tive que sofrer e superar a perda do meu filho espiritual. Parecia agora que nada nem ninguém sobreviveria a mim; nem filho físico nem filho espiritual que fossem meus! Vi-me assim confrontado com a questão de se, dentro dessas circunstâncias, minha vida carecia de qualquer sentido, em última análise.

Eu ainda não percebia que uma resposta para esta questão, com que eu estava me batendo tão desesperadamente, já estava à minha espera e que pouco depois ela me seria dada. Foi quando tive que entregar minha roupa e, em troca, herdei os trapos surrados de um recluso que fora mandado para a câmara de gás, logo depois de sua chegada à estação ferroviária de Auschwitz. Em lugar do grande número de páginas do meu manuscrito, encontrei no bolso da capa recém-adquirida uma única página, arrancada de um livro de orações hebraico, contendo a principal oração judaica, o Shemá Yisrael¹. Como interpretar semelhante “coincidência” senão como desafio no sentido de viver meus pensamentos, em vez de simplesmente colocá-los no papel? 

Lembro-me que pouco depois me pareceu que eu morreria em futuro próximo. Dentro dessa situação crítica, entretanto, eu tinha uma preocupação diferente da maioria dos meus companheiros. A pergunta deles era: “Será que vou sair com vida do campo de concentração? Caso contrário, todo esse sofrimento não tem sentido.” A pergunta que atormentava a mim era: “Será que tem sentido todo esse sofrimento, toda essa morte ao nosso redor? Caso contrário, em última análise não faz sentido sobreviver; uma vida cujo sentido depende de semelhante eventualidade – escapar ou não escapar – em última análise nem valeria a pena ser vivida.”

Problemas metaclínicos

Cada vez mais os psiquiatras são procurados por pacientes que os confrontam com problemas humanos e não tanto com sintomas neuróticos. Parte das pessoas que hoje buscam um psiquiatra teriam procurado um pastor, sacerdote ou rabino em épocas anteriores. Agora elas freqüentemente recusam seu encaminhamento para clérigos e, ao contrário, confrontam o médico com questões como: “Qual é o sentido da minha vida?”

(Em busca de sentido, Viktor Frankl (7ª ed., Ed. Vozes, 1997)

[¹ Versículos na edição da Bíblia de Jerusalém. “Ouve, ó Israel: Iahweh nosso Deus é o único Iahweh! Portanto, amarás a Iahweh teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força…” Deuteronômio 6,4-6]

5 Responses to Será que tem sentido toda essa morte ao nosso redor?

  1. Heitor Azevedo says:

    Desculpe-me José Inácio, a resposta que escrevi abaixo era para você, mas por erro de interpretação foi endereçado ao nobre Augusto.
    Acredito que você possa me perdoar e compreender este lapso.
    Abraços
    Heitor

  2. Heitor Azevedo says:

    Prezado Augusto.
    Permita-me cumprimentá-lo e assim lhe dizer:
    Você, – como assim diziam os antigos – é um homem feito.
    Seu aprimoramento e lapidação atingiu um enorme nível. Parabéns.
    Não estou adornando as palavras, pois estas fluem com muita naturalidade.
    Sabe, acredito que , numa linha geral, o homem chegou ao nível do “bastou-se”.
    Fartou-se de si próprio e agora existe uma certa tendência de evadir-se…
    Pudera! Quebram-se todas as barreiras e muros para uma liberdade que consiste em nada ser! Explodem-se os protocolos da circunspecção, retiram-se todas as graças naturais ou consolidadas na tradição em troca da liberdade de não ser…
    Este “não ser”, que nada tem com a filosofia que nos é compartilhada. Este “não ser” que me refiro, seria assim definido: quebram-se os muros de limites, que em si eram adornos e constrangimentos no devir de nossas vidas, e que eram belos. E o que nos resta?
    Aparam-se e aplanam-se todas as montanhas para termos como legado um plano que em si nada significa. Apenas uma sensação de vazio que nos sufoca cada vez mais.
    E o homem assim ousou, mas ousou demais.
    Os frutos estão por aí esparramados. Colhemos e sentimos o sabor destes resultados e não estamos gostando.
    Desta maneira, nobre Augusto, pessoas como você vão rareando…… Espaçadamente rareando.
    Mas não devemos jamais desanimar, pois estes mecanismos das coisas estariam já em previsão, e estamos por difíceis passos.
    Continue este seu brilhante caminho, orientando os que lhe rodeiam, pois você é muito necessário neste sistema de coisas.
    Abraços sinceros
    Heitor.

  3. joao says:

    Caro Jose Inacio, permita-me discordar sobre o misterio da morte…isto já foi resolvido e trouxe a humanidade a esperança há mais de 2000 anos. Deus feito homem – Jesus – ressurgiu dos mortos e nos outorgou vida Nele…pois os grilhoes da morte não foram capazes de retê-lo (Biblia, livro de Atos capitulo 2 e verso 24). E nenhum outro nome dado entre os homens pode resolver e vencer a morte, apenas a pessoa de Jesus Cristo, Senhor, Salvador. Deus eterno e imortal.(Biblia, livro de Atos, cap.4, verso 12). Deus o abençôe.

  4. Caro Heitor,
    A pergunta que você fez a seu sogro, eu também a faço todo dia e o dia todo. Mas com uma pequena diferença com relação a sua. A minha é mais genérica, pois eu a formulo assim: que sentido tem esta vida? E tenho certeza de que ninguém há de me responder, porque a vida em si, já é um grande mistério. Creio que por tal motivo, o dramaturgo inglês William Sheakespeare, nos legou esta frase: “há mais segredo entre o céu e a terra, do que possa imaginar a nossa vã filosofia.” Na verdade, a vida para mim é uma é uma pedra filosofal. O que posso lhe afirmar é que ela é muito fugaz, muito breve, como um relâmpago na escuridão da noite. Ela nos reserva mais dores, sofrimentos do que outra coisa. A morte que põe fim ao nosso existir terreno, chega quando nem bem esperamos e põe fim aos nossos sonhos e projetos. E a vida além túmulo, nem mesmo o mais fervoroso dos papas, João Paulo II, pôs luz suficiente a esse outro grande enigma, quando perguntado sobre tal assunto no livro Cruzando o Limiar da Esperança. Tomara que Deus, na outra vida tenha misericórdia de nós. A bem da verdade, já não há motivos para se viver. Com bem disse o seu sogro, o homem perdeu a poesia de viver. Está completamente alienado por três terríveis males: o hedonismo, o consumismo e a idolatria do ter. O desamor impera nesta sociedade. Os valores inverteram-se, por completo. O que antes era certo, hoje é errado, e vice-versa. Há mais de quarenta anos li em um livro a seguinte sentença profética: “hoje nos escandalizamos com as coisas torpes, chegarão dias que nos escandalizaremos com as coisas louváveis.” O jurista Rui Barbosa diz melhor eu:

    “De tanto ver triunfar as nulidades,
    de tanto ver prosperar a desonra,
    de tanto ver crescer a injustiça,
    de tanto ver agigantarem-se os poderes
    nas mãos dos maus,
    o homem chega a desanimar da virtude,
    a rir-se da honra,
    a ter vergonha de ser honesto”.

  5. Heitor Azevedo says:

    “Qual é o sentido da minha vida?”
    Uma certa vez, perguntei ao meu sogro – homem de uma grande sabedoria e humildade – o que estava acontecendo com a humanidade nos dias de hoje.
    E o que ele me respondeu, guardo com muito carinho e respeito já fazem alguns anos:
    “- É simples, Heitor: O homem perdeu a poesia de viver…-
    Repliquei: – ” E o que se pode fazer?” –
    Ele me olhou longamente e assim o disse:
    -“Não há mais tempo…”-
    Simples assim.

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