Louis Lavelle – A Presença Total (“o intelectualismo é estéril se não é permeado de espiritualidade”)

The Calling of Saint Matthew by Caravaggio, 1599

Vocação de São Mateus,
Caravaggio (Michelangelo Merisi da Caravaggio) (Itália, 1571–1610)

Leia também: A Presença Total (“ser criado criador”)


A filosofia, da qual apresentamos aqui os princípios essenciais, nada inova. É uma meditação pessoal para a qual a matéria é fornecida por essa philosophia perennis que é a obra comum da humanidade, da qual todas as consciências devem, por seu lado, tomar posse, e que cada uma delas, dando e recebendo ao mesmo tempo, aceitando ser indivisivelmente, relativamente às outras, “mediatizada e mediadora”, deve continuar simplesmente a promover. Se acontece desviarmo-nos, é porque sucumbimos devido a qualquer curiosidade particular, ou a essa necessidade de divertimento que não pode ser satisfeita senão com uma aparência de novidade, ou a essa falta de força e de coragem que nos impede de captar as verdades mais simples e de lhes conformar a nossa conduta. O homem crê sempre poder inventar o mundo: mas então abandona-o e deixa de o ver. Se o ser nos é sempre e todo inteiro presente, o orgulho das mais belas invenções deve curvar-se diante da humildade da mais pobre descoberta. A nossa existência própria, que é ao mesmo tempo distinta da totalidade do real e em comunicação incessante com ela, não pode realizar-se senão na luz: as trevas abolem-na, o conhecimento liberta-a e multiplica-a. Aqui está a verdade eterna do intelectualismo. Mas a luz não é dada senão àquele que a deseja e a busca. Não é conservada senão por aquele que a incorpora na sua potência de amar e de querer. E o intelectualismo é estéril se não é permeado de espiritualidade.

[Fim da Introdução ao livro.]

(Tradutor: Américo Pereira)

[Trecho do prefácio do padre Sertillanges ao seu “A vida intelectual” – Ed. É Realizações, 2010.]


Supõem que isso seja simples? “À escuta de si mesmo” é uma outra formulação para esta expressão: à escuta de Deus. É no pensamento criador que jaz nosso ser verdadeiro e nosso eu na forma autêntica. Ora, essa verdade de nossa eternidade, que domina nosso presente e prevê nosso porvir, é-nos revelada tão somente no silêncio da alma, silêncio dos vãos pensamentos que levam ao “divertimento” pueril e dissipador; silêncio dos barulhos de chamada que as paixões desordenadas não se cansam de fazer-nos escutar. A vocação pede o atendimento, que, num esforço único para sair de si, escuta e atende.

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One Response to Louis Lavelle – A Presença Total (“o intelectualismo é estéril se não é permeado de espiritualidade”)

  1. Heitor Azevedo says:

    Um dia qualquer, um homem pensante, cavaleiro andante de seus pensamentos, escreve uma frase que possui determinada quantificação em profundidade. O papel a recebe.
    Ora, o que ele escreveu vem num repente, e de pronto o abandona. A inspiração se esvai.
    Passa o tempo da maturação, e o pensamento amadurece na mente do escritor e se dignifica naquela folha amarelada pelo tempo.
    Escrito e escritor se revelam mais circunspectos. Pronto: O criador da frase está preparado para a essência da mesma. E o escrito é a noiva que desvela seus segredos.

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