Louis Lavelle – A Presença Total (introdução)

aquele que é

Paisagem com Moisés e a Sarça Ardente,
Domenichino (Domenico Zampieri) (Italian, Bolognese, 1581–1641)

É, parece-nos, uma espécie de postulado comum à maior parte dos espíritos que a nossa vida se esvai no meio das aparências e que não saberemos jamais coisa alguma do próprio Ser: assim, como não teria esta vida aos nossos olhos um carácter de frivolidade? Faz de nós os espectadores de um mundo ilusório que não cessa de se formar e de se dissolver face ao nosso olhar e atrás do qual nós suspeitamos um outro mundo, o único que é real, mas com o qual não temos qualquer contacto. Então, é natural que a consciência, segundo o seu grau de profundidade, se contente com o cepticismo ou se deixe invadir pela inquietude. A vida não pode retomar a confiança em si mesma, não pode adquirir a gravidade, a força e a alegria, se não for capaz de se inscrever num absoluto que nunca falhará, dado que lhe é presente todo inteiro e no qual ela abre para si mesma uma perspectiva, traça um sulco, os quais são a marca e a medida dos seus méritos. Não perde essa angústia de existir, que é inseparável de uma existência que cada uma das nossas acções nos deve dar a nós mesmos: mas esta angústia exprime apenas a tensão suprema da sua esperança.

Pensamos então que é numa ontologia, ou, mais radicalmente, numa experiência do Ser, que o pensamento mais tímido e a acção mais humilde bebem a sua origem, a sua possibilidade e o seu valor. Mas conhecemos bem todas as suspeitas nas quais a ideia de uma primazia do Ser, em relação com todos os seus modos, não deixará de tropeçar: pois, antes do mais, olha-se quase sempre o Ser como estático, terminado e totalmente concluído, como um objecto puro que o eu poderia, talvez, contactar, mas de modo algum modificar, nem penetrar. No entanto, se a lei de participação nos obriga, pelo contrário, a inserirmo-nos no Ser por intermédio de uma operação sempre limitada e imperfeita, a qual faz aparecer, sob a forma de um objecto actual ou possível, justamente o que lhe responde, mas também o que a ultrapassa: é que o Ser total não pode ele mesmo ser definido senão como um sujeito puro, um Si universal, um acto que não encontra nem em si, nem fora de si, a limitação de um estado ou a de um objecto. Longe de ser a morte da consciência, é a sua vida indivisivelmente transcendente e imanente.

Não há, também, outro para além de Deus que possa alguma vez ter dito : “Sou aquele que é.”

(Tradutor: Américo Pereira)

Anúncios

3 Responses to Louis Lavelle – A Presença Total (introdução)

  1. Edvaldo Melo says:

    Não tenho nenhuma dúvida de que Lavelle será descoberto com toda força e inteligibilidade pelos maiores pensadores de nossa época.

  2. Pingback: Louis Lavelle – A Presença Total (“ser criado criador”) | Suma Teológica - Summae Theologiae

  3. Belíssimo texto! Tinha razão olavo de Carvalho em suas apologias a esse notável gênio, Louis Lavelle!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: