Filosofia Concreta de Mário Ferreira dos Santos – TESE 1

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O Ponto Arquimédico

Há um ponto arquimédico, cuja certeza ultrapassa ao nosso conhecimento, independente de nós, e é ôntica e ontologicamente verdadeira.

Alguma coisa há…

Partamos da análise dessa verdade incontestável. Poderia não surgir o homem, e não haver um ser inteligente que captasse pensamentos, mas há um pensamento real, absolutamente seguro, certo, verdadeiro: alguma coisa há

Pode não haver o homem e o mundo. Tudo isso é contingente, e poderia não ser. Mas alguma coisa há, pois do contrário teríamos o vazio absoluto, a ausência total e absoluta de qualquer coisa, o nada absoluto.

Ou alguma coisa há, ou, então, o nada absoluto.

O nada absoluto seria a total ausência de qualquer coisa, absolutum, des-ligada de qualquer coisa, o vazio absoluto e total. Neste momento, podemos ser a ilusão de um ser, podemos duvidar de nossa experiência e da do mundo exterior, porém não podemos afirmar que nada há, porque a própria dúvida afirma que há alguma coisa, a própria ilusão afirma que há alguma coisa, e não o nada absoluto.

Quando dizemos há alguma coisa, afirmamos a presença do que chamamos de “ser”, embora ainda não saibamos o que é ser, em que consiste, qual a sua essência, o que dele podemos dizer.

Vê-se, assim, que alguma coisa há é contraditado peremptoriamente pelo nada absoluto. Afirmar que há o nada absoluto é o mesmo que afirmar que não há qualquer coisa em absoluto. Mas, note-se, em absoluto, porque, se admito que alguma coisa há, não se dá contradição em admitir-se que alguma coisa não há, pois pode haver alguma coisa, esta ou aquela, e não haver alguma coisa, essa ou aquela outra.

Chamaremos ao primeiro nada de nada absoluto, e ao segundo de nada relativo. Se ao nada absoluto contradiz o “alguma coisa há”, o nada relativo apenas a ele se opõe. Não o exclui.

Portanto, ambos podem dar-se, podem pôr-se, positivos ambos, embora de positividade inversa.

Entre o “alguma coisa há”, e “há o nada absoluto”, não pode haver a menor dúvida, e a aceitação do primeiro surge de um ato mental, de plena adesão e firmeza, sem temor de errar.

Onde poderia estar o erro? Se afirmo que alguma coisa há, o único erro poderia estar em não haver nenhuma coisa, o que é negado até pelo meu ato de pensar, até pelo mais cético ato de pensar, pois se nada houvesse não poderia ter surgido sequer a dúvida.

Portanto, a afirmativa de alguma coisa há é mostrada apoditicamente, assim como a impossibilidade do nada absoluto também o é, pois sendo verdade que alguma coisa há, o nada absoluto absolutamente não há; o nada absoluto é impossível de ser porque alguma coisa há.

Portanto, está demonstrado de modo apodítico o primeiro postulado da “Filosofia Concreta”:

TESE 1 – Alguma coisa há, e o nada absoluto não há.

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4 Responses to Filosofia Concreta de Mário Ferreira dos Santos – TESE 1

  1. Anônimo says:

    Parabéns pelo blog amigo

  2. Fico feliz que não tenha encerrado o blog! Páginas como esta são necessárias na época em que vivemos. Parabéns por esta iniciativa de divulgar a obra de Mário Ferreira dos Santos! Um abraço de Portugal!

  3. David says:

    Olá, Bruno!
    No caso desse “algum vinho há”, só posso dizer que o seu “ser” está por um fio, e que o mais desejável é que se tornasse um “nada relativo” o quanto antes. O problema é que quando estou aí, o que já é difícil, o portuga sempre arranja reuniões para ir e o vinho segue envelhecendo. Na próxima terça-feira, porém, o anúncio da quaresma será às 18:00, e talvez possamos reunir os casais para um jantar. Que acha? Se achar que está bem, fale com o John.
    Quanto ao erro, já foi corrigido. Obrigado.
    Já o Louis Lavelle nunca li. Talvez possamos falar sobre o livro oportunamente, mas confesso que você já me assustou, pois em matéria de burrice sou mestre.
    Que acha de colaborar no blog? Ao que tudo indica, suas leituras são pertinentes, e você poderia ajudar a manter o blog vivo.
    Abraço.

  4. Bruno says:

    há… [aquele que é. (ainda estamos nos devendo o vinho. estou com um do norte de Portugal, aguardando para fazer raiva ao alentejano)].

    ps1: está escrito “sem temos de errar”, no 3º parágrafo de baixo para cima. Não seria “sem temor de errar”?

    ps2: conhece Louis Lavelle? Comecei a ler no ano passado o “A presença total”. Ainda não saí da introdução, tamanha a densidade do que lá está – e a minha estupidez, claro. Vai ao encontro disso que o Mário F. do Santos está aí dizendo.

    A paz

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