Tomás responde: A ignorância diminui o pecado?

Antonio Canova (1757-1822), Insegnare agli ignoranti (1795)

Parece que a ignorância não diminui o pecado:

1. Com efeito, o que é comum a todo pecado não diminui o pecado. Ora, a ignorância é comum a todo pecado. O Filósofo diz que “todo mau é ignorante”. Logo, a ignorância não diminui o pecado.

2. Além disso, um pecado acrescentado a um pecado faz um pecado maior. Ora, a ignorância, foi dito (q.76, a.2), é um pecado. Logo, não diminui o pecado.

3. Ademais, a mesma coisa que agrava o pecado não o diminui. Ora, a ignorância agrava o pecado, pois Ambrósio retomando a palavra do Apóstolo “Ignoras que a bondade de Deus…” afirma: “Pecas de maneira grave, se ignoras”. Logo, a ignorância não diminui o pecado.

4. Ademais, se alguma ignorância diminui o pecado, isso aparece sobretudo naquela que tolhe totalmente o uso da razão. Ora, tal ignorância não diminui o pecado, mas o aumenta, pois, o Filósofo diz que “o ébrio merece uma dupla punição”. Logo, a ignorância não diminui o pecado.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, tudo o que é razão para a remissão do pecado é assim, segundo a primeira Carta a Timóteo (1, 13): “Obtive misericórdia porque não sabia o que eu fazia”. Portanto, a ignorância diminui ou alivia o pecado.

Todo pecado é voluntário. A ignorância diminui o pecado na medida em que diminui o voluntário. Se não diminuir o voluntário, de modo algum diminuirá o pecado. Claro está que a ignorância que escusa totalmente o pecado, porque tolhe totalmente o voluntário, não diminui o pecado, mas o apaga completamente. A ignorância que não é causa do pecado, mas lhe é concomitante, nem diminui e nem aumenta o pecado. Assim, a ignorância que pode diminuir o pecado é somente aquela que é causa do pecado e contudo não escusa totalmente o pecado.

Às vezes acontece que tal ignorância é voluntária diretamente e por si, como quando alguém de propósito ignora algo para pecar mais livremente. Tal ignorância faz crescer, parece, o voluntário e o pecado. Se alguém, com efeito, quer, para dar-se a liberdade de pecar, sofrer o dano da ignorância, isso provém da intensidade da vontade de pecar. Mas, por vezes, a ignorância causa do pecado, é querida só indiretamente ou acidentalmente, como acontece com aquele que é ignorante por não ter querido trabalhar durante seus estudos, ou com aquele que se inebria e se torna indiscreto por ter tomado muito vinho. Essa ignorância diminui o voluntário, e por consequência, o pecado. Com efeito, quando alguma coisa não é conhecida como pecado, não se pode dizer que a vontade refere-se direta e propriamente ao pecado. Ela refere-se a ele acidentalmente; isto faz com que o menosprezo seja menor, e por consequência também o pecado.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. A ignorância pela qual todo mau é ignorante não é causa do pecado, mas algo consecutivo à causa, isto é, à paixão ou ao hábito que inclina ao pecado.

2. Um pecado acrescentado a um pecado faz um maior número de pecados, mas não faz sempre um pecado maior, porque talvez não coincidem no mesmo pecado, mas são muitos. Então, pode acontecer, se o primeiro diminui o segundo, que ambos em conjunto não sejam tão graves como um só. Assim, o homicídio é mais grave se cometido em estado de sobriedade do que se ele o é em estado de embriaguez, se bem que haja neste último caso, dois pecados. E a razão é que a embriaguez diminui a razão do pecado seguinte mais do que a gravidade que ele tem.

3. A palavra de Ambrósio pode ser entendida da ignorância absolutamente afetada. Ou de uma espécie de ingratidão, cujo sumo grau está em o homem não reconhecer os benefícios. Ou então, da ignorância de infidelidade que arruína pela base o edifício espiritual.

4. O ébrio merece ser castigado duplamente pelos dois pecados que comete, a embriaguez e o outro em consequência. E no entanto, a embriaguez, em razão da ignorância que a ela se ajunta, diminui o pecado que ela faz cometer. Talvez até tira-lhe, como foi dito, mais de gravidade que ele mesmo tem. Pode-se dizer ainda que aquelas palavras estão inspiradas numa certa ordenação do legislador Pítaco, que estabelece que “os ébrios, se ferissem alguém, fossem castigados mais severamente, não atendendo à indulgência a que os ébrios têm direito, mas à utilidade, porque os ébrios ofendem mais do que os sóbrios”, como está claro no livro II da Política.

Suma Teológica I-II, q.76, a.4

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One Response to Tomás responde: A ignorância diminui o pecado?

  1. BrunoA says:

    Boa. Assim, acabamos ou não com a “santa ignorância”?

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