Tomás: esboço de um retrato

Fra Bartolommeo (1472-1517), Santo Tomás de Aquino

Se for possível deixar por instantes o terreno sólido de textos e datas, gostaríamos agora de tentar recolher dos que o conheceram algumas indicações sobre o homem e o santo que foi Tomás. A tarefa não é fácil. Já há muito sabemos dos limites do gênero hagiográfico, e com razão apontou-se que os modelos do tipo não estavam ausentes da biografia composta por Tocco. O mesmo vale para o processo de canonização, no qual, como acabamos de dizer, a proporção de testemunhos “úteis” é pequena em relação aos dados estereotipados. Em muitos casos, só podemos chegar à idéia que os contemporâneos faziam de Tomás e à imagem que dele haviam conservado mediante o modo como concebiam a santidade, mas seria um erro, acreditamos, pecar por excesso de ceticismo e recusar-nos sistematicamente a examinar tudo o que aprendemos por essa via. Certos detalhes pessoais que não se harmonizam em absoluto com a idéia que os modernos fazem do Aquinate talvez tenham alguma probabilidade de ser verdadeiros.

Em primeiro lugar, seu retrato físico. Os testemunhos são convergentes. Ele era grande, gordo e com uma fronte calva: “fuit magne stature et pinguis et calvus supra frontem”, diz um cisterciense de Fossanova. Tomás deve por certo sua alta estatura à ascendência normanda; esta é também observada, assim como o excesso de peso, por um segundo observador: fuit magne stature et calvus et quod fuit etiam grossus et brunus. Remigio de Florença, que foi seu aluno em Paris, não hesita em acentuar que Tomás era bastante gordo: pinguissimus.

Tocco, que sugere pudicamente uma certa corpulência, exprime-se de maneira mais extensa: “Quanto à disposição natural de seu corpo e de seu espírito, diz-se que ele era grande de corpo (magnus in corpore), estatura alta e ereta a corresponder à retidão de sua alma. Era loiro como o trigo (coloris triticei), indício de seu temperamento bem equilibrado. Tinha uma grande cabeça, como exigem os órgãos perfeitos que requerem as faculdades sensíveis a serviço da razão. O cabelo, um pouco ralo (aliquantulum calvus).

Esse nobre retrato concorda, fundamentalmente, com as declarações mais sumárias de ambos os monges, mas além disso pretende mostrar que esses traços físicos correspondem a certa fisionomia espiritual, com a idéia de que existe uma relação ideal entre perfeição moral e beleza. Podemos recordar aqui o já citado episódio relatado pela mãe de Reginaldo, seu companheiro: “Quando Tomás passava pelo campo, as pessoas que se achavam ocupadas abandonavam seus trabalhos e corriam a seu encontro, admirando a estatura imponente de seu corpo e a beleza de seus traços humanos. Iam a seu encontro muito mais devido à sua beleza do que em razão de sua santidade ou de sua origem nobre”.

No próprio texto de Tocco, é outro episódio que vem corroborar esse retrato ideal. O biógrafo continua a ressaltar que sua carne, de compleição delicada, revelava a capacidade de sua inteligência, e que sua alma, repleta de força viril, era capaz de dar a esse corpo a força de lhe obedecer e de não temer absolutamente nada. Para ilustrá-lo, Tocco relata o episódio de uma terrível tempestade no mar, enfrentada por ocasião de uma viagem a Paris; enquanto até os marinheiros, assustados, temiam a morte, Tomás, confiante na providência, absolutamente não se perturbava.

Até onde podemos apreender por meios dessas anotações, esse retrato é o de um homem ao mesmo tempo robusto e delicado. Sua sensibilidade à dor chamou a atenção de seus contemporâneos: pedia que lhe avisassem antes de proceder a uma cauterização ou sangria, para que pudesse escapar à dor concentrando seu espírito sobre algum tema elevado. Quanto à sua robustez, podemos deduzi-la dos raros problemas de saúde. A sangria evocada há pouco nada diz em contrário; fazia parte da habitual conservação da saúde na Idade Média; a cauterização da perna, por sua vez, poderia levar a pensar em varizes. Um episódio revela-o vítima de um acesso de febre terçã; outro, de caráter até cômico, mostra-o incomodado por um dente supérfluo, crescido subitamente, e que o atrapalha para falar; como teme sobremaneira a extração, consegue livrar-se dele pela prece. Relatos aliás confirmam que celebrava a missa todos os dias, “caso alguma enfermidade não o impedisse”. Antes das últimas semanas, quando menções como essa se multiplicarão, as exceções são mais raras.

São suas viagens e sobretudo as longas caminhadas rumo aos lugares para onde foi designado que depõem em favor de sua robustez. Se tivesse percorrido a pé o trajeto de Nápoles a Paris, depois Colônia indo e voltando, e então de Paris a Roma e a volta, e novamente de Paris a Nápoles, acrescentando os diversos deslocamentos efetuados rumo aos capítulos provinciais, calcula-se que teria percorrido cerca de 15 nil quilômetros. Mas não se deve esquecer a possibilidade – quase uma certeza – de que muitas dessas viagens podem ter sido feitas pelo menos em parte por via marítima e fluvial. A tempestade enfrentada provavelmente por ocasião do retorno a Paris, em 1268, é prova disso; um episódio da quarta redação de Tocco, provavelmente da mesma época, mostra-o rebocando, sozinho e contra a corrente, um barco que os marinheiros tinham grande dificuldade em puxar, o que vem a ser ao menos uma lembrança de viagem por rio e uma sugestão de sua força física.

Se conseguirmos abrir em meio ao acúmulo dos habituais lugares-comuns que pretendem descrever o santo personagem, talvez não seja impossível perceber algo do homem que foi Tomás em um ou outro testemunho. Como o de Bartolomeu, que, como opinião comum a todos os que pudera questionar, relata o seguinte: “Acreditavam que o Espírito Santo estava realmente com ele, pois estava sempre com rosto alegre, doce e afável…”. Tocco reitera o caráter comunicativo desse mesmo traço: ele inspirava alegria aos que o olhavam. Em apoio a essa alegria sobrenatural, podemos acrescentar um detalhe excepcional (única ressonância concreta que nos chegou, até onde sabemos, dos cursos de Tomás!) que mostra não ter sido desprovido de humor. Remígio de Florença narra que Tomás aludia, brincando, à solenidade excepcional das celebrações litúrgicas da festa de São Martinho, de onde provinha a devoção desses camponeses, que não hesitavam em situá-lo acima de São Pedro, uma vez que, feita a colheita no outono, nadavam então em opulência.

Não dispomos do menor indício da frequência possível desse tipo de tiradas, mas o que de resto sabemos sobre a vivacidade das reações de Tomás leva-nos a pensar que não deviam ser raras. No entanto, somos também informados de sua rara humildade e paciência, e de que jamais atingia alguém com palavras injuriosas. Bartolomeu acentua que, mesmo nas disputas, em que era frequente passar da conta, seu aspecto era sempre afável e humilde, sem jamais utilizar palavras grandiloquentes e afetadas. Por ocasião da divergência com Peckham, o relato faz questão de contrastar a diferença de atitude entre ambos os protagonistas, atribuindo justamente à humilde magnanimidade de Tomás a preocupação em não estragar o principium do novo mestre.

Esse último episódio permite encontrar um Tomás mais familiar, o mestre que ganha a confiança de seus alunos e não os impede de falar francamente e brincar com ele. É mostrado também entre seus jovens irmãos, em passeio ou na saída de uma sessão solene na universidade. Mas esses relatos datam da primeira época parisiense; os episódios do período de Nápoles mostram um Tomás mais avaro de seu tempo, que não hesita em abandonar as recreações comuns caso se trate de conversações frívolas. Prefere muito mais passear sozinho no claustro ou no jardim e ver-se às voltas com suas reflexões habituais, isso tão logo pôde concluir o assunto pelo qual o arrastaram ao parlatório.

Na mesma época (e provavelmente isso já ocorria havia muito tempo), ele vive de maneira bastante retirada. Dedica o mínimo de tempo à refeição e ao sono; parece até que se alimenta apenas uma vez por dia. No despertar noturno (Matinas), está na igreja antes de todos, mas se retira quando ouve os outros chegarem; com raras exceções, não é visto assistindo a outro ofício que não o das Completas. Se celebra a missa todos os dias, ouvindo em seguida uma segunda, volta imediatamente a seu quarto para trabalhar.

Isso significa que não assiste à missa conventual com a comunidade, mas não se deve ver aí um indício de comportamento anti-social; já nessa época, as Constituições dominicanas previam a dispensa do coro (assim como de várias outras obrigações regulares) para os professores, com exceção das Completas. Tomás seguia quanto a isso, portanto, o costume normal de seus colegas leitores. Ademais, temos uma amostra de que não era avesso, se a ocasião fosse oportuna, a certa manifestação de alegria comunitária: a ceia de Santa Inês por ele oferecida a seus estudantes para festejar a cura de Reginaldo.

Evitaremos examinar as relações sociais de Tomás, um religioso do século XIII, segundo o modelo de nossas relações mundanas atuais. Não lhe conhecemos relações femininas, que permitiriam descobrir um pouco mais de sua afetividade (como o podemos para Jordão da Saxônia e Diana de Andalo); julgamos poder dizer, no entanto, que ele sabia o significado de uma amizade profunda e tinha amigos até mesmo na família. Tudo o que sabemos de suas relações familiares indica suficientemente que eram afetuosas. Quanto a seus amigos, basta pensar em Reginaldo ou em Anibaldo de Anibaldi, seu antigo aluno e sucessor, tornado cardeal, sobre quem faz explícita referência à antiga amizade (antiqua dilectio) que nutre por ele. É preciso lembrar sobretudo a sutileza com que comentou os Livros VIII e IX da Ética, em que Aristóteles expõe sua noção de amizade; sabemos que fez dela a noção-chave de seu tratado da caridade. Mesmo sua pregação remete, com delicada sensibilidade, à experiência que temos da amizade, sugerindo a exigente qualidade de nossas relações com Deus. É difícil pensar que o homem que se expressa desse modo só tenha da afetividade um conhecimento livresco.

Jean-Pierre Torrel, OP, Iniciação a Santo Tomás de Aquino

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