[OFF] O niilismo (Final) – As máscaras do niilismo

Hieronymus Bosch, A Nau dos Loucos, Museu do Louvre, Paris

De fato, é justamente aquele niilismo que Nietzsche chama de niilismo incompleto que domina a todos hoje, repleto de obscuras ameaças e perigos.

Nietzsche diz ainda: “Ao valor do que permanece eternamente igual a si mesmo […] contrapõe-se o valor do que é mais breve e fugaz, o sedutor brilho dourado no ventre da serpente vida”.

Esses valores breves e fugazes parecidos com o sedutor brilho dourado no ventre da serpente vida são aqueles ligados à vontade de potência, e portanto constituem os antigos valores transvalorados segundo a doutrina nietzscheniana; mas em nada diferem dos disfarces niilistas dos antigos valores substituídos por novas máscaras multicoloridas, os quais, bem mais do que com o fugaz brilho dourado no ventre da serpente vida, se apresentam como as sereias que encantam, e que, vangloriando-se de ser portadores de salvação ou pelo menos de segurança, representam o perigo de arrastar de forma irreversível para o abismo do nada.

As causas profundas dos males do homem de hoje são justamente esses disfarces niilistas dos valores supremos que caíram (como tais) no esquecimento.

A meu ver, tais males e os vários disfarces niilistas dos valores perdidos a eles vinculados podem ser resumidos nos dez itens apresentados a seguir:

1) o cientificismo e o redimensionamento da razão do homem em sentido tecnológico;

2) o ideologismo absolutizado e o esquecimento do ideal do verdadeiro;

3) o praxismo, com sua exaltação da ação pela ação e o esquecimento do ideal da contemplação;

4) a proclamação do bem-estar material como sucedâneo da felicidade;

5) a difusão da violência;

6) a perda do sentido da forma;

7) a redução do Eros à dimensão do físico e o esquecimento da “escala de amor” platônica (e do verdadeiro amor);

8) a redução do homem a uma única dimensão e o individualismo levado ao extremo;

9) a perda do sentido do cosmos e da finalidade de todas as coisas;

10) o materialismo em todas as suas formas e o esquecimento do ser, a ele vinculado.

Obviamente, cada um tem a liberdade de… continuar a lista! Mas eu gostaria que o leitor deste livro dirigisse sua atenção para os remédios para esses males. Pois bem, como já antecipei, parece-me que a sabedoria dos antigos possa apresentar-se ao homem de hoje como cura dos males do espírito, com toda uma série de remédios que, como disse no Prefácio, se não eliminam esses males, podem pelo menos mitiga-los, impondo-se como um pólo dialético propriamente dito, e portanto como construtivo termo de comparação.

Nietzsche conhecia muito bem os gregos, mas não pôde desfrutar de toda a sabedoria deles, porque os interpretou em função da própria teorese, invertendo, por conseguinte, a mensagem deles, que só considera válida em suas origens, mas logo comprometida, justamente a partir de Sócrates.

Sobre o filósofo ateniense, que escolheu para si um final “louco” talvez até para os homens de hoje (mas de uma loucura bem diferente da de Nietzsche!), voltaremos a falar depois. Antes disso, vamos discutir aqueles males um a um.

[FINAL]

Giovanni Reale, O Saber dos Antigos – Terapia para os tempos atuais

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