[OFF] O niilismo (VII) – O estado intermediário: o niilismo incompleto

Francisco de Goya (1746-1828), O Manicômio

Entre o estado caracterizado pela destruição dos valores supremos tradicionais e a transvaloração completa desses valores há, porém, um estado intermediário. Nos Fragmentos póstumos lemos: “Os supremos valores, para servir os quais o homem deveria viver, sobretudo quando o dominassem de forma muito pesada e excessiva: estes valores sociais foram edificados, com a finalidade de reforçar sua influência, sobre o homem, quase como se fossem mandamentos de Deus, como ‘realidade’, como mundo ‘verdadeiro’, como esperança e mundo futuro. Agora que a origem mesquinha de tais valores se evidencia, o universo nos parece desprovido de valor, ‘desprovido de sentido’… mas este é apenas um estado intermediário”.

Ora, esse estado intermediário pode dar origem (e aliás origem de maneira evidente) a um niilismo incompleto, que procura subtrair-se às consequências do próprio niilismo, com vários disfarces dos valores supremos, que vão do saber científico à práxis social, com uma série de matizes.

Nietzsche escreve: “Proposição principal. Em que sentido o perfeito niilismo é a consequência necessária dos ideais alimentados até agora. – O niilismo incompleto, suas formas: nós vivemos no meio dele. – As tentativas de fugir do niilismo sem transvalorar esses valores: produzem o contrário, agudizam o problema.

E ainda, dizendo um de seus categóricos “não” aos disfarces dos antigos valores, afirma: “Meu reconhecimento e minha identificação do ideal tradicional, o cristão, mesmo lá onde se eliminou a forma dogmática do cristianismo. O perigo do ideal cristão esconde-se em seus sentimentos de valor, naquilo que pode prescindir da expressão conceptual: minha luta contra o cristianismo latente (por exemplo na música, no socialismo)”.

O sentido da menção ao socialismo é claro; a música refere-se sobretudo ao Parsifal de Wagner, que repropõe o mistério da Páscoa.

Uma confirmação feita por Heidegger

Esse ponto também foi bem compreendido e esclarecido por Heidegger: “Se Deus, no sentido do Deus cristão, abandonou seu lugar no mundo supra-sensível, o lugar ainda existe, mesmo se vazio. Esta região vazia do mundo supra-sensível e do mundo ideal pode ser mantida. Ela requer então um novo ocupante e a substituição do Deus deposto. Portanto, novos ideais são instituídos. Segundo Nietzsche (Vontade de potência), isso acontece com as doutrinas de felicidade universal e com o socialismo, com a música wagneriana, ou seja, onde quer que o ‘cristianismo dogmático’ seja reduzido aos extremos. Tem-se então o ‘niilismo incompleto’ […]”.

Ora, acrescenta Heidegger, tal concepção “pode ser formulada mais rigorosa e claramente da seguinte maneira: o niilismo incompleto substitui, é claro, os valores precedentes por outros, mas os põe no lugar dos precedentes, uma vez que conserva assim a posição de região ideal do supra-sensível. O niilismo completo, ao contrário, deve eliminar o lugar tradicional do valor, o supra-sensível como região separada, e portanto deve por os valores de modo diferente, ou seja, invertê-los”.

Como veremos depois, o estado intermediário caracteriza, de forma exemplar, o mal-estar de nossa civilização.

[CONTINUA]

Giovanni Reale, O Saber dos Antigos – Terapia para os tempos atuais

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