[OFF] O niilismo (VI): O niilismo levado às últimas consequências

Pieter Bruegel o velho, Torre de Babel (1563), Viena, Áustria

Diante de passagens como as acima citadas, convém perguntar se Nietzsche realmente inverteu os valores com algum saldo positivo, ou se, ao contrário, a posição que ele assumiu não passa de um niilismo destrutivo levado às últimas consequências.

Heidegger deu respostas exemplares, as quais se impõem mesmo quando desvinculadas das posições teóricas que em grande medida as sustentam.

Recordo aqui as três passagens mais significativas a esse respeito.

No primeiro Heidegger, esclarece-se o seguinte: “Não obstante toda derrubada e inversão da metafísica, Nietzsche não se desvia de seu curso ininterrupto quando concebe aquilo que a vontade de potência intui para a própria conservação como o ser, o ente, ou a verdade. A verdade resume-se, então, numa condição posta pela essência da vontade de potência, e precisamente na condição de conservação de sua potência. Resumindo-se nessa condição, a verdade é um valor. Como a vontade de potência só pode querer dispondo de algo permanente, a verdade torna-se um valor necessário para a vontade de potência e fundamenta sua essência. O termo verdade não significa nem o não-ser-escondido do ente, nem a concordância do conhecer com o objeto, nem a certeza como segurança daquilo que é posto no pôr representativo. A verdade é entendida aqui – num sentido que deriva historicamente das modalidades derivadas de sua essência – como certeza da presença disponível do círculo a partir do qual a vontade de potência quer a si mesma.

No segundo Heidegger, esses esclarecimentos aprofundam-se ainda mais: “O que resta do ser? Do ser resta o nada. E se justamente aqui se revelasse a essência do niilismo, que até agora ficou escondida? Será que o verdadeiro niilismo consistirá em pensar por valores? Mas Nietzsche concebe a metafísica da vontade de potência justamente como superação do niilismo. Uma vez que o niilismo é pensado apenas como a derrubada dos valores supremos e a vontade de potência como o princípio da inversão de todos os valores em virtude de uma nova posição dos valores supremos, a metafísica da vontade de potência é certamente uma superação do niilismo: sob o pressuposto, porém, de que o pensar por valores seja transformado em princípio. Mas se o valor não permite que o ser seja o ser que é como ser, a pretensa superação será apenas o cumprimento do niilismo”.

São estas as afirmações conclusivas de Heidegger acerca desse problema: “O assegurar-se, como aquisição de segurança, fundamenta-se na posição de valores. A posição de valores submeteu a si todo ente, matando-o em seu em si. Este último golpe ao assassinato de Deus é desferido pela metafísica, que, como metafísica da vontade de potência, dilui o pensamento no pensamento de valores. Contudo, esse golpe extremo pelo qual o ser é reduzido a simples valor não é reconhecido por Nietzsche naquilo que é, ou seja, em relação ao próprio ser. Mas não é Nietzsche quem proclama: ‘Nós todos somos assassinos, vocês e eu!’? Com certeza. Com base nisso, ele considera a própria metafísica da vontade de potência como niilismo. Sem dúvida. Mas para Nietzsche isso significa simplesmente que esta, como contracorrente e inversão de todos os valores anteriores, realiza mais radicalmente, porque definitivamente, aquela ‘derrubada de todos os supremos valores anteriores’ que já estava em curso”.

Não há dúvida: a transferência dos valores da esfera do ser e da transcendência para a esfera imanente da vontade de potência e a respectiva transvaloração radical dos valores supremos constituem a etapa conclusiva e completa do niilismo que foi descrito e interpretado pelo próprio Nietzsche. Nada impede que sua proposta alternativa seja definida da forma como John Findlay define o procedimento do pensamento de Heidegger para Sendas perdidas [Holzwege]: “Trata-se de uma viagem por uma estrada revestida de desespero em direção a uma frustração predeterminada”, ou, eu diria, para um desespero predeterminado.

E a loucura final que encerra a existência terrena de Nietzsche é uma espécie de encarnação emblemática desse fim da estrada do niilismo.

 [CONTINUA]

Giovanni Reale, O Saber dos Antigos – Terapia para os tempos atuais

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3 Responses to [OFF] O niilismo (VI): O niilismo levado às últimas consequências

  1. vagneromano says:

    Reblogged this on Teologia e Corpo and commented:
    Extraordinário!

  2. egivan says:

    igreja é realmente auxilio para as aqueles quer não tem som na voz, não tem pernas para andar
    não tem mãos para escrever. igreja pode ensinar e aplicar todo atributo em ações que muitas dos fiéis não pode luta. exemplo disso é muito católico, não possuir recurso direto sobre todos os meios e ainda existam muitos padre que realmente lamentamos pelo a mal fé em Jesus. viva o verdadeiro blog em um mundo de ateísmo, sem substancia. fica com meus parabéns!!!! paz e bem.

  3. egivan says:

    essa texto são massa, porque coloca todo conhecimento em grande fervor !!!
    divulgue todos através todo a tecnologia, pois a Igreja não mudar.

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