[OFF] O niilismo (III): A interpretação de Heidegger

Heidegger

O significado da afirmação da morte de Deus tem um alcance bem mais amplo do que o de exprimir uma forma de ateísmo comum, como Martin Heidegger demonstrou muito bem no magistral ensaio A sentença de Nietzsche “Deus está morto”.

Depois de reproduzir a primeira passagem que citamos acima, e de evocar também a segunda, justamente para explicar a menção explícita do Deus cristão, Heidegger escreve: “Essa passagem evidencia que a afirmação de Nietzsche acerca da morte de Deus refere-se ao Deus cristão. Mas também é certo, e deve ser levado em conta desde então, que as expressões ‘Deus’ e ‘Deus cristão’ são empregadas, no pensamento de Nietzsche, para indicar o mundo supra-sensível em geral. ‘Deus’ é o termo para designar o mundo das idéias e dos ideais. Desde Platão – ou melhor, desde o último período da filosofia grega e da interpretação cristã da filosofia platônica -, esse mundo do supra-sensível tem o mesmo valor que o mundo verdadeiro, o autenticamente real. Em oposição a ele, o mundo sensível é simplesmente o mundo terreno, o mundo mutável, aparente e irreal. O mundo terreno é o vale de lágrimas, em contraposição à eterna felicidade supraterrena. Se, como ainda faz Kant, entendemos o mundo sensível como mundo físico no sentido mais amplo, o mundo supra-sensível passará a ser o mundo metafísico. Assim, a expressão ‘Deus está morto’ significa que o mundo ultra-sensível não tem força real, não envolve nenhum tipo de vida. A metafísica, ou seja – para Nietzsche – a filosofia ocidental entendida como platonismo, está no fim. Nietzsche considera sua filosofia como a contracorrente da metafísica, isto é, para ele, do platonismo”.

Heidegger esclarece essa idéia numa página que é preciso reproduzir e ler tão atentamente quanto a anterior, porque chega ao núcleo do problema: “O niilismo, pensado em sua essência, é antes o movimento fundamental da história do Ocidente. Ele revela um curso tão profundamente subterrâneo, que seu desenvolvimento só poderá determinar catástrofes mundiais. O niilismo é o movimento histórico universal dos povos da Terra, na esfera de poder do Mundo Moderno. Não é, pois, um fenômeno da época atual e tampouco um produto do século XIX, embora tenha despertado nesse século uma consciência mais aguda em relação a ele e o termo tenha começado a ser empregado. Tampouco se pode dizer que o niilismo é apenas um produto das nações em que pensadores e escritores falam expressamente dele. Os que se consideram imunes a ele determinam seu desenvolvimento talvez de modo ainda mais radical. O fato de não poder revelar sua proveniência faz parte da inquietude que cerca esse hóspede extremamente perturbador. O niilismo não começa só onde o Deus cristão é negado, o cristianismo é combatido, ou onde se prega um ateísmo vulgar baseado no livre-pensamento. Enquanto considerarmos exclusivamente a descrença como afastamento do cristianismo e suas manifestações, não iremos além dos aspectos mais extrínsecos e acidentais do niilismo. O discurso do insensato serve justamente para demonstrar que a expressão ‘Deus está morto’ nada tem em comum com as opiniões dos que o cercavam discorrendo entre si, dos que ‘não acreditavam em Deus’. Nos descrentes nesse sentido, o niilismo ainda não penetrou como destino de sua história. Enquanto entendermos a expressão ‘Deus está morto’ apenas como fórmula da descrença, só estaremos pensando de modo teológico-apologético, renunciando ao objetivo do pensamento de Nietzsche, ou seja, à reflexão que tende a pensar o que já aconteceu à verdade do mundo supra-sensível e à sua relação com o mundo sensível”.

A “morte de Deus”, portanto, significa o desaparecimento da dimensão da transcendência, a anulação total dos valores ligados a ela, a perda de todos os ideais.

[CONTINUA]

Giovanni Reale, O Saber dos Antigos – Terapia para os tempos atuais

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