[OFF] O niilismo (II): A morte de Deus

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Uma das passagens mais violentamente iconoclastas é sem dúvida a que está na obra A gaia ciência, que traz o título “O insensato”: “Nunca ouviram falar de um louco que, em pleno dia, acendeu uma lanterna, correu ao mercado e se pôs a gritar sem parar: ‘Procuro Deus! Procuro Deus!’ Como lá se encontravam muitos que não acreditavam em Deus, provocou muitas risadas. ‘Será que ele se perdeu?’, disse alguém. ‘Perdeu-se como uma criança?’, falou outro. ‘Ou será que está bem escondido? Tem medo de nós? Será que foi embora? Ou emigrou?’ – gritavam e riam em grande algazarra. O louco pulou no meio deles e traspassou-os com o olhar: ‘Para onde foi Deus?’ – bradou. – ‘Vou dizer-lhes para onde foi! Nós o matamos: vocês e eu! Nós todos somos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como pudemos esvaziar o mar, bebendo-o até a última gota? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos quando desprendemos a corrente que ligava esta terra ao sol? Para onde vai agora? Para onde vamos nós? Longe de todos os sóis? Não estaremos caindo incessantemente? Para a frente, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos errando como através de um infinito nada? Não sentiremos no rosto o sopro do vazio? Não está mais frio? Não surgem noites, cada vez mais noites? Não será preciso acender lanternas pela manhã? Não escutamos ainda o ruído dos coveiros que enterram a Deus? Não sentimos o mau cheiro da decomposição divina? Os deuses também se decompõem! Deus morreu! Deus continua morto! E nós o matamos! […] Jamais houve ação tão grandiosa e os que nascerem depois de nós pertencerão, em virtude dessa ação, a uma história mais elevada do que todas as histórias até hoje!’ Após pronunciar essas palavras, o insensato calou-se e dirigiu novamente o olhar a seus ouvintes; também eles se calavam como ele e o fitavam com espanto. Finalmente, atirou a lanterna ao chão de tal modo que se espatifou, apagando-se. ‘Venho muito cedo’ – prosseguiu -, ‘meu tempo ainda não chegou. Esse evento enorme está a caminho, aproxima-se e não chegou ainda aos ouvidos dos homens. É preciso tempo para o relâmpago e o raio, é preciso tempo para a luz dos astros, é preciso tempo para as ações, mesmo depois de concluídas, serem vistas e entendidas. […]’ Conta-se ainda que esse louco penetrou, nesse mesmo dia, em diversas igrejas e ali entoou o seu Requiem aeternam Deo. Expulso e interrogado, dizem que se limitou a responder sempre a mesma coisa: ‘De que servem estas igrejas se são tumbas e monumentos de Deus?’”.

A passagem corre o risco de ser mal interpretada, sobretudo se desvinculada daquele círculo hermenêutico nietzschiano, que é centrado justamente no niilismo. Uma passagem paralela da mesma obra pode levar a desvios ainda maiores. Nela, Nietzsche enfatiza que o mais importante dos acontecimentos recentes é que “Deus está morto” e esclarece que “a fé no Deus cristão tornou-se inaceitável”.

O mal entendido consistiria em acreditar que tais afirmações exprimem um mero ateísmo, por constituírem apenas a opinião de um não-crente e, ainda por cima, de um não-crente como Nietzsche, que – entre outras coisas – morreu louco, precisamente como o personagem simbólico que é levado a pronunciar a afirmação iconoclasta “Deus está morto”.

 [CONTINUA]

Giovanni Reale, O Saber dos Antigos – Terapia para os tempos atuais

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6 Responses to [OFF] O niilismo (II): A morte de Deus

  1. eduardo chaves pandolfi says:

    quero retificar a opinião sobre democrito, epicuro e marx. è justo festejar Marx. Eduardo Chaves Pandolfi

  2. vamos estudar todas as conferencias latinas americanas, de modo especial Medelin e Puebla, e depois conversamos.

  3. eduardo chaves pandolfi says:

    A teologia da Libertação não está morta. o Padre Libanio escreve regularmente elogiando Fidel Castro e Cuba. É claro que as figuras mais representativas da TL como Leonardo Boff evitam o confronto com a Igreja de Roma, e escrevem sobre temas não teologicos, como meio ambiente, etc..Procure se inteira sobre o Movimento dos Trabalhadores Cristãos, que inclusive alegam que so devem satisfação ao Cardeal da Belgica. A questão não é tão simples assim. Não quero polemizar. Quero apenas ter um comportamento de reserva em relação aos dialeticos da Igreja, porque não quiero violencias nem confrontos, como o caso do Cardeal da Colombia que pulou no pescoço do Padre Comblin e quase o sufoca, não o sufocando por causa de outros clerigos. O materialismo é impossivel é leva a tragedia mas não nos cabe chama-los de porcos ou outros adjetivos. As questões metafisicas tem que ser enfrentadas com sobriedade como ensinamos grandes mesres ds Universidades Latranense e Gregoriana de Roma.

  4. Para mim Deus não está morto, está morto sim para muitos ”deuses”falsos, idolos…..
    vejo Deus a cada abrir e fechar os olhos, no ar que respiro, na beleza da criação, num bom gesto de amar, num sorriso verdadeiro; em tudo vejo Deus vivo e real .
    DEUS ESTÁ VIVO E PRESENTE EM MIM E NA MINHA FAMÍLIA, QUE NÃO É PERFEITA ;MAS ESTÁ A CAMINHO DA PERFEIÇÃO.
    PAZ E BEM!

  5. Marx é festejado por alguns pseudo-cristãos, pois a corrente “teológica” que deriva de seus conceitos denominado de “Teologia da Libertação” já foi condenada pelo Cardeal Joseph Ratzinger, hoje nosso Papa, em 1984. Essa Teologia na verdade está morta, pois não produz nada de novo a muito tempo…alguns ainda insistem em ressuscitá-la.

  6. Eduardo Chaves Pandolfi says:

    Nietsche é anticristão mas nãoé materialista. Pior que Nietscha é Democrito, Epicuro e Marx, este ultimo tão festejado por alguns cristãos

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