[OFF] O niilismo (I): A essência do niilismo

Mas em que consiste o niilismo?

Vejamos as respostas dadas por Nietzsche, que atingem uma clareza exemplar.

Num fragmento, sempre de 1887 (o ano crucial em que Nietzsche amadureceu essa problemática), lemos: “Niilismo: falta o fim; falta a resposta ao ‘por quê?’; o que significa niilismo? – que os valores supremos se desvalorizam”.

Os pressupostos do niilismo são “Que não exista uma verdade; que não exista uma constituição absoluta das coisas, uma ‘coisa em si’”.

E eis um violento destaque desse conceito: “Contra a suposição de que um ‘em si das coisas’ deveria ser necessariamente bom, feliz, verdadeiro, uno, a interpretação de Schopenhauer do ‘em si’ como vontade foi um passo essencial; contudo, ele não soube divinizar essa vontade: deteve-se no ideal moral cristão. Schopenhauer ainda estava dominado a tal ponto pelos valores cristãos que era obrigado a ver a coisa em si – depois que ela deixou de significar ‘Deus’ para ele – como má, estúpida, como algo que se devia rejeitar de uma vez por todas. Ele não compreendera que pode haver infinitas formas de poder-ser-outro e até de poder-ser-Deus. Maldição daquela dualidade limitada: bem e mal”.

Explicitando os pontos básicos desses esclarecimentos, poderíamos dizer que o niilismo leva à desvalorização e à negação dos seguintes princípios:

a) princípio primeiro, Deus;

b) fim último;

c) ser;

d) bem;

e) verdade.

Segundo Nietzsche, pode-se ver o niilismo como um aspecto “de crescimento da potência do espírito”, ou seja, como “niilismo ativo”, pois tem a força destrutiva da fé nos valores que perderam sentido, embora tal força não tenha ainda energia suficiente para apresentar-se como criadora de um novo fim e de uma nova fé.

Mas ele também pode ser considerado em seu aspecto “passivo”, negativo, e, portanto, como sinal de fraqueza. Pois a força que é própria do espírito a certo se sente cansada, esgotada, em consequência do fato de os objetivos considerados válidos até certo momento serem sentidos como inadequados, e por conseguinte caírem em descrédito. E, portanto, a “síntese dos valores e dos fins (em que repousa toda cultura forte) se dissolve, de modo que passa a haver o choque entre os valores individuais: desagregação; tudo o que restaura, cura, tranquiliza, atordoa estará em primeiro plano, sob diversas roupagens, religiosas, morais, políticas, estéticas, etc.”

Nietzsche resumiu a essência do niilismo, em sentido global, na fórmula “Deus está morto”. Vale a pena explicar esse slogan de forma detalhada.

[CONTINUA]

Giovanni Reale, O Saber dos Antigos – Terapia para os tempos atuais

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