Tomás responde: Um milagre é maior que outro?

Pedro Berruguete (1450-1504), Milagre de S. Domingos de Gusmão frente aos albigenses (séc. XV)

Parece que um milagre não é maior que o outro:

1. Com efeito, diz Agostinho: “Nas coisas feitas de modo admirável, toda a razão do feito está na potência daquele que faz”. Ora, a mesma potência, a saber, Deus, faz todos os milagres. Logo, um não é maior que outro.

2. Além disso, a potência de Deus é infinita. Ora, o infinito ultrapassa sem proporção tudo o que é finito. Logo, um efeito desse poder não pode mais ser mais admirável que outro. Logo, um milagre não é maior que outro.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o Senhor diz no Evangelho de João, a propósito das obras milagrosas: “As obras que faço, aquele que crê em mim as fará também, e ainda maiores” (14,12).

Nada pode ser chamado de milagre em referência à potência divina, porque tudo o que é feito, comparado à potência de Deus, é mínimo, como diz Isaías: “As nações são como gota d’água num balde, como um grão de poeira na balança” (40,15). Uma coisa, porém, se diz milagre por comparação com o poder da natureza, que é ultrapassado. Portanto, na medida em que mais ultrapassa o poder da natureza, nessa mesma medida se diz que o milagre é maior.

Uma coisa ultrapassa o poder da natureza de três maneiras. Primeiro, quanto à substância do fato: como quando dois corpos se encontram ao mesmo tempo num mesmo lugar, ou quando o sol retrocede, ou quando um corpo humano é glorificado; pois a natureza não pode fazer isso de modo algum. Estes são os milagres de primeiro grau.

Em segundo lugar, uma coisa ultrapassa o poder da natureza não quanto àquilo que se faz, mas quanto àquilo em que se faz: como a ressurreição dos mortos, ou a cura dos cegos, ou outros casos semelhantes. A natureza pode causar a vida, mas não em um cadáver; ela pode dar a visão, mas não a um cego. Milagres desse tipo pertencem ao segundo grau.

Em terceiro lugar, uma coisa ultrapassa o poder da natureza quanto ao modo e à ordem em que se faz. Por exemplo, quando, pelo poder divino, alguém se cura de uma febre sem remédios e fora do processo habitual de cura; ou quando, pelo poder divino, o ar subitamente se condensa em chuvas sem nenhuma causa natural, como o que aconteceu depois da oração de Samuel e de Elias.

Tais acontecimentos constituem milagres do grau menos elevado. Em cada uma dessas maneiras há diversos graus, na medida em que ultrapassam o poder da natureza.

Pelo que acabamos de dizer, se responde às objeções que procedem do ponto de vista do poder divino.

Suma Teológica I, q.105, a.8

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