Tomás responde: Deus opera em tudo o que opera?

Michelângelo Buonarroti (1475-1564), Deus criando o sol e a lua, Capela Sistina

Parece que Deus não opera em tudo o que opera:

1. Com efeito, não se pode atribuir a Deus nenhuma insuficiência. Por isso, se Deus opera em tudo o que opera, ele o faz de modo suficiente em cada um. Por conseguinte, seria inútil que o agente criado operasse.

2. Além disso, uma única operação não pode ser ao mesmo tempo de dois agentes, como um movimento numericamente único não pode ser de dois que são movidos. Se a operação da criatura é de Deus operando nela, não pode ser ao mesmo tempo da criatura. Assim, nenhuma criatura opera coisa alguma.

3. Ademais, diz-se que o que faz é causa da operação de seu efeito no sentido de que dá ao efeito a forma por meio da qual opera. Por conseguinte, se Deus é causa da operação das criaturas feitas por ele, isto será no sentido de que dá a elas a potência operativa. Ora, isso é no princípio, no momento em que faz a coisa. Logo, parece que a partir daí não opera na criatura que opera.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, se diz em Isaías: “Tu operaste em nós todas as nossas obras, Senhor!” (26,12).

Que Deus opera em tudo o que opera, alguns assim compreenderam: Deus, sozinho, opera imediatamente tudo, enquanto as potências criadas nada operam nas coisas. Por exemplo, o fogo não aqueceria, mas seria Deus no fogo e assim por diante. Ora, isso é impossível. Em primeiro lugar, porque dessa forma se estaria retirando da criação a ordem da causa e do causado, o que seria atribuído a uma impotência do criador, porquanto é a potência do agente que dá a seu efeito a potência de agir. Em segundo lugar, porque as virtudes operativas que se encontram nas coisas lhes teriam sido atribuídas em vão, se por elas nada seria produzido. Mais ainda: todas as coisas criadas pareceriam existir de certa maneira em vão, caso fossem destituídas de sua própria operação, uma vez que toda coisa existe por causa de sua operação. O imperfeito é sempre por causa do mais perfeito: assim também a matéria é por causa da forma, e assim a forma, ato primeiro, é por causa de sua operação, ato segundo; assim, a operação é o fim da coisa criada. É necessário pois entender que Deus age nas coisas de tal maneira que elas tenham sua própria operação.

Para provar isso, é necessário considerar que existem quatro gêneros de causas: a matéria não é princípio de ação, mas se apresenta como sujeito receptor do efeito da ação. O fim, o agente e a forma se comportam como princípios de ação, mas segundo certa ordem. Em primeiro lugar, o fim é princípio de ação porque move o agente. O agente vem em segundo lugar. Em terceiro, a forma daquilo que é levado à ação pelo agente (embora o próprio agente aja por meio de sua forma), como fica claro nas atividades artesanais. O artesão é movido à ação pelo fim, isto é, pela obra, seja uma arca ou uma cama; e aplica a ação do machado, que corta por seu gume.

Segundo esses três princípios, Deus opera em tudo o que opera. Em primeiro lugar, segundo a razão de fim. Toda operação é por causa de um bem verdadeiro ou aparente, mas nada é bom, ou parece bom, a não ser porque participa de alguma semelhança do bem supremo, Deus. Por conseguinte, o próprio Deus, enquanto fim, é causa de toda operação. Igualmente deve-se considerar que, quando diferentes agentes estão ordenados entre si, é sempre em virtude do primeiro agente que o segundo age; pois o primeiro agente move o segundo para a ação. De acordo com isso todas as coisas agem em virtude do próprio Deus, que é assim a causa das ações de todos os agentes criados. Em terceiro lugar, é preciso considerar que Deus não somente move as coisas para a ação aplicando as formas e potências delas à operação, assim como o artesão aplica o machado a cortar a madeira sem no entanto dar ao machado sua forma, como também dá às criaturas agentes suas formas próprias e ainda as conserva na existência. Assim, Deus não apenas é causa das ações enquanto dá a forma, princípio de ação, como se diz que o que impulsiona é causa do movimento dos corpos pesados e leves, mas também como quem conserva as formas e as potências na existência. Assim, se diz que o sol é causa da manifestação das cores, na medida em que dá e conserva a luz que as manifesta. Porque a forma de uma coisa é o que está no mais íntimo dela, e tanto mais no íntimo está quanto mais se apresenta como primeira e universal e porque Deus é propriamente a causa do ser universal em todas as coisas e este ser é o que há de mais íntimo nelas, segue-se que Deus age intimamente em todas as coisas. Por isso, nas Escrituras, as operações da natureza são atribuídas a Deus como nela agindo; de acordo com a palavra de Jó: “Tu me vestiste de pele e carne; tu me teceste em ossos e nervos” (10,11).

[Nota: Eis uma dessas sínteses luminosas nas quais Sto. Tomás atinge a excelência. Ele acaba de afirmar que a Causa primeira, longe de suplantar as causas segundas, leva-as a agir. E agora ele especifica. Tudo age tendo em vista um fim, logo, um bem. No entanto o que é bom só o é pela participação no Bem infinito que é Deus, o que tem valor de fim só o tem como uma forma de assimilação a Deus. A própria ação pode muito bem proceder do agente, ser mesmo sua atualidade, mas ela só procede dele sob a moção do agente superior e, finalmente, de Deus, “que aplica as formas e as virtudes das coisas em agir como o artesão que aplica o machado para talhar”. Mas, e eis o que obriga a ultrapassar totalmente esse exemplo, Deus dá enquanto Criador, ao ser que age, a forma segundo a qual ele age, a “natureza” que é o princípio intrínseco dessa ação. Ele a dá e a conserva em seu ser. E porque criar é dar o ser no que ele tem ao mesmo tempo de mais universal e de mais íntimo, porque somente Deus é fonte última da operação criada na medida em que é fonte de seu ser, pode-se dizer que Deus age intimamente assim como ele existe intimamente em toda a realidade. Chega ao ponto que se pode atribuir a Deus as operações da natureza. O que faz a Escritura. E o que permite, acrescentemos, estender, sem temor de subtraí-los a Deus, os poderes e as autonomias da natureza, uma vez que, no centro de tudo o que se faz está Deus, que opera e que “o faz fazer-se”.]

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. Deus opera nas coisas de maneira suficiente, na qualidade de primeiro agente, mas nem por isso se torna supérflua a operação dos agentes segundos.

2. Uma única ação não procede de dois agentes de uma mesma ordem, mas nada proíbe que proceda ao mesmo tempo do agente primeiro e de um agente segundo.

3. Deus não apenas dá às coisas suas formas, mas ainda conserva esses formas na existência, leva-as à ação, e é o fim de todas as ações, como acabamos de dizer.

 

Suma Teológica I, q.105, a. 5

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3 Responses to Tomás responde: Deus opera em tudo o que opera?

  1. Então tudo o que acontece,é de procedência de DEUS.
    No cade na folha se Dio no volha!(proverbio talian)
    Devemos aceitar tudo o que acontece, da maneira que acontece, hora que acontece……tudo é procedência Dele.
    PAZ E BEM!

  2. Olá. Este artigo, é grande e importante na Suma e no Tratado da conservação e Governo das Coisas. Parabenizo-o mais uma vez à iniciativa de apresentar-nos ás grandes reflexões e opúsculos de São Tomás de Aquino.

    Mais uma vez, peço espaço à uma sugestão: Há na grande cultura filosófica da Igreja a presença de Santo Anselmo. Mais impressionante do que Santo Anselmo é o seu intrigante argumento Ontológico para a existência de Deus. Com isso, apresento-lhe minha sugestão : Escrever um artigo, ou uma série de artigos, comparando o argumento de Santo Anselmo e o Argumento de Tomás de Aquino ( das cinco Vias).

    Após isto, comparar os dois argumentos, apresentar os filósofos modernos de ”ambos os lados”, como Bernard Loregran quando Tomista e Gödel quando comenta o argumento ontológico.

    Espero que a sugestão não seja por demais exigente ou que fuja demais do conteúdo ou objetivo da página.

    Paz e Bem !
    Antonio Afonso

  3. BrunoA says:

    “Segundo esses três princípios, Deus opera em tudo o que opera. Em primeiro lugar, segundo a razão de fim. Toda operação é por causa de um bem verdadeiro ou aparente, mas nada é bom, ou parece bom, a não ser porque participa de alguma semelhança do bem supremo, Deus. Por conseguinte, o próprio Deus, enquanto fim, é causa de toda operação.” Luminoso e complexo. Mas não seria diferente, pois está a falar da realidade criadora. Gastei um tempinho aí pra entender. Mas vou ter que esquartejar o bicho. Mas se Deus não o quiser, não entenderei nada. Hehehe. A paz!

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