Tomás responde: Os cismáticos tem algum poder?

Filippino Lippi, Triunfo de São Tomás de Aquino sobre os hereges

“Assim, quando se encerrava por toda parte, ao redor de 1560, esse período constituído por uma série de anos conturbados, em que se haviam tomado posições decisivas, a sorte da Reforma já não dependia do conflito de almas, mas das disputas de governos e partidos. Desde o início, a revolta espiritual de Lutero tinha desencadeado ambições temporais. Rompendo com a tutela pontifícia, os príncipes alemães, os reis escandinavos e Henrique VIII tinham aproveitado a ocasião para se apoderarem da direção das igrejas e das suas riquezas. Não era significativo que a própria palavra ‘protestantismo’, que designava o novo cristianismo – aliás, ao preço de um contra-senso – se referisse a um acontecimento essencialmente político e não religioso, ou seja, à reclamação dos dinastas e das cidades contra a reviravolta do imperador em Espira, no ano de 1529? Era bem visível a desagregação: tudo começara em ‘mística’ e acabara em ‘política’!”

Daniel-Rops,  Igreja da Renascença e da Reforma, vol.   IV

Parece que os cismáticos têm algum poder:

1. Com efeito, Agostinho diz: “Assim como em seu retorno à Igreja aqueles que foram batizados antes de deixa-la não são batizados de novo, assim também aqueles que voltam e que tinham sido ordenados antes de deixá-la não são ordenados de novo”. Ora, a ordem é um poder. Logo, os cismáticos conservam um certo poder porque permanecem ordenados.

2. Além disso, segundo Agostinho: “Aquele que está separado pode conferir os sacramentos, assim como pode recebê-los”. Ora, o poder de conferir os sacramentos é o maior dos poderes. Logo, os cismáticos, que estão separados da Igreja, têm um poder espiritual.

3. Ademais, o Papa Urbano II diz que: “aqueles que foram consagrados por bispos ordenados segundo o rito católico, mas separados da Igreja romana pelo cisma e que voltam à unidade da Igreja conservando suas respectivas ordens, ordenamos serem recebidos com misericórdia, desde que se recomendem por sua vida e sua ciência”. Ora, isso seria impossível se um poder espiritual não permanecesse entre os cismáticos. Logo, os cismáticos têm um poder espiritual.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, Cipriano escreve numa carta: “Aquele que não observa nem a unidade do espírito nem a paz da união e se separa do vínculo da Igreja e do colégio sacerdotal, não pode ter nem o poder nem as honras do episcopado”.

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Há dois poderes espirituais: o poder sacramental e o poder jurisdicional. O poder sacramental é aquele que é conferido por uma consagração. Todas as consagrações da Igreja são imutáveis, enquanto perdurar a coisa consagrada; como acontece até com as coisas inanimadas; assim, um altar uma vez consagrado só será consagrado de novo se for destruído. Por isso tal poder, segundo sua essência, permanece naquele que o recebeu por consagração enquanto permanecer vivo, mesmo se cair no cisma ou na heresia. Isto se evidencia por não ser ele novamente consagrado ao retornar à Igreja. Como, porém, um poder inferior não deve passar ao ato a não ser movido por um poder superior, como se vê até nas coisas da natureza, assim, em consequência, tais homens perdem o uso de seu poder e não lhes é mais permitido usá-lo. No entanto, se o usarem, seu poder produz efeito no campo sacramental pois nele o homem age apenas como instrumento de Deus; por isso os efeitos sacramentais não são anulados por alguma falta existente naquele que confere o sacramento.

Quanto ao poder de jurisdição, é conferido por simples investidura humana. Tal poder não se recebe de modo imutável. E não subsiste nos cismáticos e nos hereges. Por isso não podem nem absolver, nem excomungar, nem dar indulgências, nem fazer coisa alguma desse gênero; se o fazem, nada acontece.

Portanto, quando se diz que esses homens não têm poder espiritual, entenda-se do segundo poder; mas se se refere ao primeiro, não se trata da essência de tal poder, mas de seu uso legítimo.

Com isso, estão respondidas as objeções.

Suma Teológica II-II, q.39, a.3

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3 Responses to Tomás responde: Os cismáticos tem algum poder?

  1. Anônimo says:

    Não.

  2. leandro says:

    Fiquei com uma dúvida quanto ao “segundo poder”.

    São Tomás afirma que o “poder de jurisdição é conferido por simples investidura humana. Tal poder não se recebe de modo imutável. E não subsiste nos cismáticos e nos hereges. Por isso não podem nem ABSOLVER, nem EXCOMUNGAR, nem dar INDULGÊNCIAS, nem fazer coisa alguma desse gênero; se o fazem, nada acontece.”(destaques meus)

    Com isso, fica estabelecido que a absolvição é um ato humano e não divino? Um cismático não pode absolver caso haja risco de vida do penitente? e se absolver, nada acontece?

  3. É possível que um bispo, chegue a papa e com o seu poder legítimo possa aceitar no seio da Igreja, homens “casados” com outro do mesmo sexo e que estes possam ter missões dentro das igrejas. assim também com mulheres unidas com esses laços de contrato se possam considerar família?
    Pensa que tal como houve esse cisma nessa época, possa neste século haver novas mudanças que acabem com as Leis de Deus e com a própria Igreja Católica Romana?

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