Trento, Pio V e a Suma de Santo Tomás

El Greco (1541-1614), Pio V

Um vento de austeridade soprou sobre a Igreja, a começar por Roma. A polícia pontifícia fez extensas rusgas, de que foram vítimas as raparigas de vida fácil; as corridas de cavalos, à moda do Palio de Siena, que se realizavam tradicionalmente diante da Basílica de São Pedro, foram relegadas para um bairro periférico e acabaram por cair em desuso; o intransigente pontífice desejaria suprimir o carnaval romano e, não podendo consegui-lo – teria desencadeado uma revolução -, fomentou a devoção das Quarenta Horas para desagravar pelas desordens desses dias, e ele próprio se recolheu em Santa Sabina para ali fazer penitência. Um dos seus gestos mais espetaculares e também mais discutidos foi mandar retirar dos palácios pontifícios todos os nus pagãos que pôde, gesto de que a cidade de Roma se aproveitou para constituir o seu museu do Capitólio.

Paralelamente a essa obra coercitiva e punitiva, Pio V empreendeu outra, de caráter mais construtivo. Obedecendo também nesta matéria aos decretos de Trento, considerou sua obrigação levar a bom termo e promulgar os livros que o Concílio achara indispensáveis. Não bastava eliminar as obras nocivas designadas pelo Index – corrigido -, de pois de a Congregação do mesmo nome as ter investigado. Era necessário dar aos fiéis o bom alimento de que as suas almas tinham fome. Com esse propósito, editaram-se sucessivamente quatro publicações que viriam a ser fundamentais: o Catecismo, o Breviário, o Missal e a Suma de São Tomás de Aquino.

Uma comissão presidida pelo cardeal Seripanto começara a redigir o Catecismo durante as últimas semanas do Concílio, e, após a dissolução deste, o cardeal Borromeu continuara o trabalho, ajudado por três teólogos dominicanos. Só apareceu em setembro de 1566, depois de cinco anos de esforços tenazes: mas que obra! Tudo o que um católico podia e devia crer – sobre o Credo, sobre os sacramentos, sobre a moral cristã e sobre a vida espiritual – estava ali explicitado em termos claros e precisos. Traduzido logo em todas as línguas, difundido por todo o mundo, esse livro-suma ia ser a carta, o código dos católicos, e continuaria a ter um uso constante até nossos dias.

O Breviário, o livro em que os clérigos podem seguir as “horas canônicas”, existia já há muito tempo: o mais utilizado era o chamado “dos Menores , que datava de 1277. Fora sobrecarregado de acréscimos no decorrer dos tempos e tornara-se prolixo demais. No tempo de Leão X, alguém tivera a infeliz idéia de introduzir nele hinos mitológicos e outras belas coisas caras aos humanistas, mas muito distantes da verdadeira tradição cristã. Clemente VII vira-se obrigado a criar uma comissão para corrigir os abusos e o cardeal espanhol Francisco de Quiñones elaborara outro texto. Finalmente, foi Pio V quem, chamando a si a questão com a sua energia costumeira, a confiou a uma comissão cardinalícia e a levou a termo, publicando em 1568 um texto mais curto, mais centrado no Ofício principal e desembaraçado de muitas festas secundárias. Foram raras as dioceses que se recusaram a adotá-lo, entre elas as de Milão, Lyon e Toledo.

A reformo do breviário supunha a do Missal, que também foi levada a cabo dentro do mesmo esforço por assegurar a unidade. Até então, a Igreja ocidental celebrava a missa pelo menos de quatro maneiras, segundo o rito romano, o milanês ou ambrosiano, o galicano e o moçárabe. A mesma comissão cardinalícia que acabava de remodelar o breviário se encarregou de compor o novo missal, que suprimiu as diferenças, muito entranhadas pelos fiéis, e foi publicado em 1570. Estabeleceram-se alguns pontos novos, como o Introibo (“Subirei ao altar de Deus…”) e o Confiteor (“Confesso a Deus todo-poderoso…”) no princípio da missa, a bela oração Suscipe Sancta Trinitas (“Recebei, ó Santíssima Trindade…”) no ofertório e o prólogo de São João como última leitura do Evangelho. À parte pequenos pormenores a que continuaram a ater-se algumas dioceses – como as de Lyon, Milão, Toledo e Braga – ou algumas Ordens – como a dominicana -, o missão de São Pio V foi adotado pela cristandade inteira e assim permaneceu, quase sem nenhuma mudança, até a reforma litúrgica recomendada pelo Concílio Vaticano II.

Há por último uma quarta obra de que geralmente se fala menos do que das três precedentes e que, no entanto, viria a influir poderosamente no futuro da Igreja. Como dominicano, Pio V manuseava São Tomás de Aquino desde a juventude; o pensamento do grande teólogo parecia-lhe a base mais sólida para reedificar a Igreja, “um quebra-mar estável contra as tempestades”. Em 1567, proclamou São Tomás Doutor da Igreja, colocando-o no nível de Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São Jerônimo e São Gregório Magno. Depois, ordenou a dois teólogos da sua Ordem, Giustiniani e Manrique, que preparassem, segundo os manuscritos do Vaticano, a publicação definitiva da Summa theologica; as despesas correriam por conta dele. As universidades receberam ordem de ensinar unicamente o tomismo; os jesuítas obedeceram logo.

Toda esta atividade disciplinar e doutrinal estava longe de ser suficiente para ocupar esse homem infatigável. Não houve terreno algum em que o papa não se empenhasse na luta pelo regresso às tradições cristãs, pela unidade e pela disciplina. Todos os soberanos sem exceção foram convidados com voz categórica a participar do propósito da Igreja, a promover nos seus povos a reforma, a lutar com todas as suas forças contra a heresia. A bula In coena Domini chamou-os às suas obrigações. Nem todos se submeteram com a mesma docilidade às injunções do pontífice, mas o mirrado ancião do Vaticano, sem se desviar um milímetro dos seus princípios, desprezando os meios habituais da diplomacia, avançava em todos os sentidos, falando claro e ameaçando se necessário, escorado na sua ação pelos incorruptíveis homens da Inquisição. Desencadeou-se uma imensa ofensiva de ortodoxia, tão múltiplo nos seus aspectos que é quase impossível fazer uma idéia do seu conjunto.

Daniel-Rops, A Igreja da Renascença e da Reforma (II), Quadrante, 1999

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Igreja, Teologia, Filosofia

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