Doutrina Católica: A graça (III)

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Indiculus (séc. V)

INTRODUÇÃO

Embora o pelagianismo, como tendência a negar o mundo sobrenatural e a graça, sobreviva ainda em muitos espíritos, como problema dogmático a questão foi definitivamente liquidada nos concílios africanos do séc. V, aprovados pela Igreja universal, de tal modo que o pelagianismo propriamente dito acabou no séc. V. Outra coisa é o que chamaríamos semipelagianismo. O termo é relativamente moderno e seria melhor falar de antiagostinismo, porque na prática foi uma reação excessiva contra algumas frases de Santo Agostinho sobre a economia da graça e sobre a relação entre a livre vontade do homem e a ação de Deus na ordem da salvação.

Santo Agostinho sempre defendeu a supremacia da graça ao sustentar quatro teses: 1. Todos os atos que conduzem à salvação são praticados com a ajuda da graça; 2. A salvação é um dom gratuito de Deus; 3. Deus quer a salvação de todos; 4. A liberdade humana permanece intacta, mesmo sob o influxo da graça. Quatro verdades que, já em vida de Santo Agostinho, parecia difícil conciliar.

A resistência mais obstinada veio dos monges do sul da França: contra Santo Agostinho levantaram-se em particular João Cassiano e São Vicente de Lérins, que escreveu o Commonitorium, provavelmente dirigido, em polêmica, ao santo Doutor. Enquanto a tese agostiniana era de que Deus predestinava gratuitamente a quem Ele quisesse, a objeção dos adversários era de que pela graça inicial se exigem e bastam os próprios méritos, porque Deus geralmente concede a graça santificante àqueles que, no exercício da própria liberdade, dela se tornaram merecedores; caso contrário, nem haveria igualdade de condições para todos, nem se respeitaria a liberdade humana.

São Próspero de Aquitânia e Santo Hilário de Poitiers, este de origem africana, ambos de vasta cultura, avisaram a Santo Agostinho e pediram ao Papa São Celestino I que defendesse o santo bispo com uma carta circular dirigida aos bispos das Gálias (431), mas Santo Agostinho já estava morto (430). Limitou-se o Papa a defender a autoridade do santo bispo de Hipona, mas sem tomar posição em favor de todas as suas afirmações. No século seguinte São Cesário de Arles (501-542) conseguiu realizar um concílio em Orange (Arausicano II) e fazer condenar a teologia semipelagiana. As decisões do concílio foram depois aprovadas por Bonifácio II (530-532).

O Indiculus foi inicialmente atribuído a Celestino I porque desde o séc. VI aparece nos manuscritos junto com a citada carta aos bispos gauleses; hoje a tendência é atribuir sua autoria a São Próspero de Aquitânia. É fora de dúvida que o Indiculus é expressão da Fé tradicional da Igreja; tanto assim que foi inserido nas Decretais por Dionísio, o Pequeno (por volta do ano 500), e assim o recomenda o Papa São Hormisdas (514-523) ao bispo africano Possessor como um testemunho que reflete a autêntica Fé da Igreja.

TEXTO: PL. 50,531-537 e  51, 205-212

Porque alguns, que se gloriam do nome de católicos, persistindo, por malícia ou ignorância, nas idéias [já] condenadas dos hereges, ousam contradizer os pensadores de comprovada piedade [piissimis disputatoribus]; e embora não hesitem em anatematizar Pelágio e Celéstio, censuram, no entanto, nossos mestres como se tivessem exagerado e declaram que seguem e aprovam exclusivamente o que prescreveu e ensinou a sacratíssima Sé do Bem-Aventurado Apóstolo Pedro, pelo ministério de seus Pontífices, contra os que negam [contra inimicos] a graça de Deus: por isso, foi necessário averiguar diligentemente qual foi o juízo dos chefes da Igreja Romana sobre a heresia surgida em seu tempo e o que determinaram se devesse saber sobre a graça de Deus contra os perniciosos defensores do livre-arbítrio. Acrescentaremos também algumas decisões dos concílios africanos, que sem dúvida as fizeram suas os bispos apostólicos, quando as aprovaram. Por isso, para que os que duvidam possam mais plenamente ser instruídos, damos a público num breve [indiculo], a modo de compêndio, as constituições dos Santos Padres, por meio do qual todo aquele que não for por demais obstinado identifique o ponto central nestas breves mas autorizadas citações que damos aqui e que, portanto, já não lhe sobra razão alguma para contestar, se quisermos pensar e falar de católicos.

 Justo Collantes, A Fé Católica – Documentos do Magistério da Igreja

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Igreja, Teologia, Filosofia

 
 
 
 
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