Fragmentos: Fé, Esperança e Caridade

O amor não poderia ser reto se não tivesse estabelecido de início o justo fim da esperança, e isso não é possível se falta o conhecimento da verdade. Deves ter de início a fé para conhecer a verdade, em seguida a esperança para colocar teu desejo no verdadeiro fim, enfim a caridade pela qual teu amor será totalmente retificado.

Compendium I 1

A fé mostra o fim, a esperança faz tender para ele, a caridade realiza a união com ele.

Super I Tim. 1,5, n. 13

 

A fé é certo aperitivo (praelibatio quaedam) desse conhecimento que será nossa felicidade na vida eterna. Por isso o Apóstolo (Hb 11, 1) diz que ela é “a substância das realidades que esperamos”, como se ela fizesse subsistir em nós de uma maneira começada as realidades que esperamos, isto é, a bem-aventurança futura. O Senhor ensinou que esse conhecimento beatificante consiste em duas coisas: a divindade da Trindade e a humanidade de Cristo, quando ele se dirigia ao Pai dizendo (Jo 17, 3): “A vida eterna é que eles te conheçam, tu, o único verdadeiro Deus, e aquele que enviaste, Jesus Cristo”. É a respeito dessas duas realidades, a divindade da Trindade e a humanidade de Cristo, que se refere todo conhecimento da fé. Isso nada tem de admirável, porque a humanidade de Cristo é o caminho por onde se chega à divindade. Deve-se, pois, quando se está a caminho conhecer a estrada para chegar ao termo, e quando se está na pátria a ação de graças a Deus não seria suficiente se os homens não tivessem conhecimento das vias pelas quais são salvos.

Compendium I 2

Uma vez que o ser humano tem um desejo natural de saber, esse desejo pode-se apaziguar no conhecimento de toda a verdade, uma vez que se trata de um conhecimento qualquer; [a verdade procurada] sendo conhecida, o desejo se acalma. Mas, quando se trata do conhecimento da fé, o desejo está sem repouso, porque a fé é um conhecimento imperfeito: aquilo que se crê é aquilo que não se vê. Por isso o Apóstolo (Hb 11, 1) diz que ela é “a indicação das coisas que não se vêem”. A presença da fé deixa, portanto, na alma uma tendência para outra coisa, para ver perfeitamente a verdade que se crê e para compreender o que pode levar a esta verdade. E, uma vez que entre os ensinamentos da fé dizemos crer que Deus dirige as coisas humanas por sua providência, por esta razão ele eleva no coração do crente em elã de esperança, para obter com a ajuda da fé os bens que deseja naturalmente e que ela lhe faz conhecer. Por isso, depois da fé, a esperança é necessária para a perfeição da fé cristã.

Compendium theol. II 1

Assim, o que é verdadeiramente a virtude da esperança não é a esperança que se tem de si mesmo, nem mesmo a de outro homem, mas somente a que se tem de Deus … Por isso, as realidades que o Senhor nos ensina a pedir em sua oração [o Pai Nosso] se revelam desejáveis e possíveis, tão árduas algumas vezes que não se pode alcança-las apenas pelas forças humanas mas [somente] pela ajuda divina.

Compendium theol. II 7

Se o homem deve se apegar à esperança como o navio à âncora, há entretanto uma diferença entre a âncora e a esperança: a âncora está fixada abaixo; a esperança, ao contrário, está fixada no mais alto, isto é, em Deus. Nada há aqui embaixo que seja bastante sólido para que a alma possa aí se fixar e repousar. É lá que o nosso chefe … fixou nossa esperança, como se diz na coleta da vigília e do dia da Ascensão.

Super ad Hebraeos 6,18, lect. 4, n. 325

“Nós nos gloriamos na esperança da glória de Deus. … E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5, 3-5). Essa glória que se revelará no século futuro começou em nós desde agora pela esperança. Com efeito, aquele que espera ardentemente alguma coisa suporta naturalmente por ela provas difíceis e penosas. O doente que deseja fortemente a saúde bebe de bom grado o remédio amargo para ser curado. O sinal do ardor de nossa esperança no nome de Cristo é que não somente nós nos gloriamos na esperança da glória futura, mas ainda nas tribulações que suportamos por ela. Por isso diz: “Não somente nós nos gloriamos nas tribulações” pelas quais chegamos à glória (At 14, 21): “Devemos passar por muitas tribulações para entrar no Reino dos céus” … É bem conhecido, com efeito, que suportamos facilmente as dificuldades por aquilo que amamos. Se, pois, alguém suporta com paciência as adversidades deste mundo para obter os bens eternos, prova por isso mesmo que ama mais os bens eternos do que os deste mundo.

Super ad Rom. 5, 2-5, lect. 1, n. 385-386 e 388

A caridade não significa somente amor a Deus, mas também certa amizade com ele. Essa amizade acrescenta ao amor a reciprocidade no amor, uma comunhão mútua, como explica o livro VIII da Ética. E que isso pertença à caridade consta claramente na primeira carta de João (4, 16): “Quem permanece na caridade permanece em Deus e Deus permanece nele”, e na primeira carta aos Coríntios (1, 9): “Fiel é o Deus que vos chamou à comunhão com seu Filho”. Ora, essa comunhão do homem com Deus, que consiste no trato familiar com ele, começa aqui na vida presente pela graça, mas se consumará na futura pela glória, e essas duas realidades, nós as obtemos pela fé e pela esperança. Portanto, assim como não se pode ter amizade com alguém se não se confia nem se espera poder manter alguma comunidade de vida ou familiaridade com ele, assim também não se pode ter amizade com Deus, que é a caridade, se não se tem a fé que faz crescer nessa comunhão e trato familiar e se não se espera pertencer a essa sociedade. E assim a caridade não pode existir de forma alguma sem a fé e a esperança.

Suma Teológica I-II, q.65, a.5

No homem existem dois tipos de vida: um exterior, segundo a natureza sensível e corporal; por este tipo de vida não temos comunhão (communicatio) ou vida em comum (conversatio) possível com Deus ou com os anjos. O outro é a vida do homem espiritual, segundo o seu espírito, pela qual nos é possível “a vida comum” com Deus e com os anjos. Em nossa condição presente, essa sociedade é ainda imperfeita, pelo que diz o Apóstolo: “Nossa conversatio está nos céus” (Fl 3, 20), mas alcançará sua perfeição na pátria, quando os “servos de Deus lhe prestarão culto e verão a sua face” (Ap 23, 3). Por essa razão a nossa caridade não é perfeita nesta vida mas o será na pátria.

Suma Teológica II-II, q.23, a.1

Já que há certa comunhão do homem com Deus, pelo fato de que ele nos torna participantes de sua bem-aventurança, é preciso que certa amizade esteja fundada sobre essa comunhão. É a respeito dela que se diz na primeira carta aos Coríntios (1, 9): “É fiel o Deus que vos chamou à comunhão com o seu Filho”. O amor fundado sobre essa comunhão é a caridade. É, pois, evidente que a caridade é uma amizade do homem com Deus.

Suma Teológica II-II, q.23, a.1

Santo Tomás de Aquino, Taeologia, Igrej

 

 

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One Response to Fragmentos: Fé, Esperança e Caridade

  1. Ombelina Furlani says:

    Somente quem esperimenta e passa pela experiência da fé sabe o quanto DEUS é fiel, maravilhoso e infinito è seu poder.Pai de infinita misericórdia que sara todas as feridas e cura nossas enfermidades.
    Graças Te dou SENHOR, VISTO QUE DE MODO ASSOMBRADAMENTE MARAVILHOSO ME FORMASTE!

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