Doutrina Católica: A graça (II)

O Pelagianismo e o XVI Concílio de Cartago

 
I. O PELAGIANISMO
 

O primeiro ataque perigoso ao dogma católico do pecado original proveio do pelagianismo, que deitava raízes bem mais profundas: na negação da ordem sobrenatural e, portanto, da graça. Segundo os pelagianos Adão foi criado nas mesmas condições em que agora se acha o homem, ou seja, mortal e com todas as qualidades inerentes à natureza humana, sem nenhuma elevação sobrenatural à adoção divina e à participação da vida do Criador. Pelo pecado se tornou merecedor de castigo, mas a culpa – afirmam os pelagianos – permanece circunscrita só a ele, Adão, e não a seus descendentes, a não ser pelo mau exemplo. Além disso, tanto Adão como os seus descendentes possuem uma vontade livre, absolutamente independente de Deus e dotada de poderes ilimitados, quer para o bem, quer para o mal. São dois, portanto, os pilares e linhas mestras desta heresia: um naturalismo que exclui a ordem sobrenatural e a independência da vontade humana com relação a Deus.

É claro que os pelagianos falam também da graça, mas para eles ela não passa de dons externos, como a Revelação, a lei, o exemplo de Cristo e sobretudo a liberdade, que é a capacidade de fazer o bem, que Pelágio chama graça por excelência.

 
 
XVI Concílio de Cartago (1.5.418)
 
Depois da denúncia de Santo Agostinho, foi trabalho deste concílio mostrar a inconsistência das teses pelagianas.

TEXTO: Msi 4, 327-329

3. Igualmente foi decisão [deste concílio] que quem disser que a graça de Deus, pela qual o homem recebe a justificação [iustificatur] por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo, só vale para a remissão dos pecados já cometidos, mas não como ajuda para não cometê-los – seja anátema**.

[NOTA: Aqui a graça é designada por gratia qua iustificatur homo; no cânon 5, por gratia iustificationis. Pelo contexto deve-se entender a graça como um auxílio sobrenatural de Deus, essencialmente diferente da natureza. Compreende, portanto, a graça santificante e a graça atual.]

 

Graça e conhecimento

4. Igualmente, quem disser que a graça de Deus por Jesus Cristo Nosso Senhor só nos ajuda a não pecar, porque por ela nos é revelado e manifestado o sentido dos preceitos [intellegentia mandatorum] para sabermos o que devemos desejar, o que evitar, mas que por ela não nos é dado amar também e fazer o que sabemos que deve ser feito – seja anátema. Porque, uma vez que diz o Apóstolo: “A ciência infla, mas a Caridade edifica” (1 Cor 8, 2), é terrivelmente ímpio crer que temos a graça de Cristo para obtermos a ciência que infla e não para obtermos a Caridade que edifica, uma vez que saber o que devemos fazer e o que devemos amar para fazê-lo são dons de Deus, porque a Caridade que edifica impede que a ciência possa inflar. E como de Deus está escrito: “Ele que dá [docet] ao homem a ciência” (Sl 93, 10), assim também está escrito: “O amor [Caritas] vem de  Deus” (1 Jo 4, 7).

5. Igualmente foi decisão [deste concílio] que quem disser que a graça da justificação nos é dada para que mais facilmente possamos cumprir, pela graça, o que com o livre-arbítrio nos é mandado fazer, como se, ainda que não nos fosse dada a graça, pudéssemos sem ela, embora não facilmente, mas pudéssemos cumprir os mandamentos de Deus – seja anátema. Na verdade, o Senhor, ao falar dos frutos dos mandamentos, não diz: “Sem Mim mais dificilmente podeis fazer”, mas diz: “Sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15, 15).

A graça faz evitar o pecado

6. Igualmente foi decisão [deste concílio] que – a propósito do que diz o Apóstolo São João: “Se dissermos que não temos pecado enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós” (1 Jo 1, 8) – quem o interpretar no sentido de que é preciso dizer que por humildade temos pecado, não porque verdadeiramente assim o seja – seja anátema. Porque o Apóstolo prossegue e acrescenta: “Mas se confessarmos os nossos pecados, [Deus] é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda iniqüidade (1 Jo 1, 9). Donde suficientemente se vê que isto não dizemos só por humildade, mas também por veracidade, já que o Apóstolo podia dizer: “Se dissermos ‘não temos pecado’ a nós mesmos nos exaltamos e a humildade não está em nós”. Mas assim como, ao contrário, disse: “Enganamo-nos anos mesmos e a verdade não está em nós”, mostra satisfatoriamente que quem disser que não tem pecado não diz a verdade, mas a falsidade.

7. Igualmente foi decisão [deste concílio] que quem disser que os santos na oração dominical dizem: “Perdoai as nossas ofensas” [debita nostra] (Mt 6, 12) não se referindo a si mesmos, porque já não têm necessidade deste pedido, mas aos outros de sua comunidade, que são pecadores, e que por isso cada santo individualmente não diz “Perdoai-me as minhas ofensas” [debita meã], mas “Perdoai-nos as nossas ofensas” [debita nostra], de modo a entender que o justo não pede isto para si, mas antes para os outros – seja anátema.

Santo e justo era de fato o apóstolo São Tiago quando dizia: “Com efeito, cometemos todos muitas faltas” (Tg 3, 2). Por que motivo, pois, acrescentou “todos” senão porque esta sentença se conciliava com o salmo, onde se lê: “Não chames a juízo o Teu servo, porque na Tua presença nenhum vivente é justo” (Sl 142, 2)? E na oração da sapientíssimo Salomão: “Não há ninguém que não peque” (3 Rs 8, 46). E no  livro do santo Jó: “Na mão de todo homem Ele põe um selo para que o homem conheça suas obras” (Jó 37, 7). Por isso, também Daniel, santo e justo, ao dizer no plural sua oração: “Pecamos, cometemos iniqüidades” (Dn 9, 5.15), e tudo o mais que ali confessa com sinceridade e humildade, para que ninguém pensasse, como pensam alguns, que ele falasse não de seus pecados, mas antes dos pecados do seu povo, acrescenta: “Quando (…) orava e confessava os meus pecados e os pecados do meu povo” (Dn 9, 20) ao Senhor meu Deus, não queria dizer “os nossos pecados”, mas disse os seus pecados e os do povo, porque, como profeta, previu estes [hereges] que haveriam de entendê-lo tão mal.

8. Igualmente foi decisão [deste concílio] que todo aquele que pretender que as próprias palavras da oração dominical: “Perdoai-nos as nossas ofensas” [debita nostra] são ditas pelos santos por humildade e não para confessar uma realidade [ut humiliter, non veraciter hoc dicat] – seja anátema. Quem de fato pode admitir que se faça oração mentindo, não aos homens, mas ao próprio Deus, dizendo com os lábios que se quer ser perdoado, enquanto no coração se afirma não ter faltas [debita] a serem perdoadas?

  [CONTINUA]

Fonte: Justo Collantes, A Fé Católica – Documentos do Magistério da Igreja

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Doutrina Católica, Fé Católica

3 Responses to Doutrina Católica: A graça (II)

  1. Lopes says:

    A contagem da Vulgata Latina segue o Septuaginta. O III Reis corresponde ao I Reis na contagem da Bíblia hebraica

  2. Maria Loretta Penasa says:

    “Não há ninguém que não peque” (3 Rs 8, 46). Qual é o terceiro livro dos Reis? Eu só conheço dois.

  3. Pingback: Doutrina Católica: A graça (IV) « Suma Teológica – Summae Theologiae

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