Doutrina Católica: O pecado original (III)

Indiculus (séc. V)

Este documento é uma espécie de Syllabus, no qual se expõe a Fé tradicional sobre a graça, para defender Santo Agostinho de seus adversários. Foi atribuído ao papa Celestino I, porque desde o século VI aparece junto com a carta que este dirigiu aos bispos das Gálias (431), a pedido de São Próspero de Aquitânia e de Santo Hilário de Poitiers, grandes defensores do bispo de Hipona. O indiculus foi provavelmente composto por São Próspero e seu valor foi em toda a parte reconhecido como expressão da Tradição da Igreja sobre a graça. Assim o afirma o Papa São Hormisdas numa carta a Possessor de 13.08.520.

TEXTO: PL 50, 531-532 e 51, 205-206.

Cap. 1. Na desobediência de Adão todos os homens perderam o poder natural [naturalem possibilitatem] e a inocência, e ninguém teria podido, pelo livre-arbítrio, erguer-se do abismo daquela ruína, se a graça do Deus misericordioso não o levantasse, como o declara e diz o Papa Inocência, de feliz memória, na carta ao Concílio de Cartago: “Depois de outrora ter experimentado mal [perpessus] o livre-arbítrio, ao usar insensatamente seus próprios bens, ficou [o homem], ao cair, submerso nas profundezas de seu pecado, e nada achou por onde pudesse dali levantar-se; e, enganado para sempre por sua liberdade, teria ficado prostrado pela opressão desta ruína se mais tarde não o tivesse levantado, com Sua graça, a vinda de Cristo, que, por meio da purificação de um novo nascimento [novae regenerationis], lavou, com as águas do Batismo [sui Baptismatis lavacro], toda a mancha [vitium] passada”.

Carta Sicut rationi do Papa Hormisdas (13.8.520)

A autoridade do Indiculus foi confirmada pelo Papa Hormisdas nesta carta ao bispo africano Possessor.

TEXTO: PL 63, 493.

5. O que crê e professa a Igreja Romana, isto é, a Igreja Católica, sobre o livre-arbítrio e a graça de Deus – ainda que possa ser abundantemente conhecido por vários livros do Bem-Aventurado Agostinho, principalmente os dirigidos a Hilário e a Próspero – está contido também em documentos específicos dos arquivos eclesiásticos; se não os tendes e os credes necessários, vo-los enviaremos (…).

Concílio de Orange (3.7.529)

Reuniu-se este concílio provincial, presidido por São Cesário de Arles (470-543), para acabar com as controvérsias semipelagianas. Ainda que o objeto primeiro do concílio fosse o problema da graça, seus dois primeiros cânones reafirmaram a doutrina tradicional sobre o pecado original. O primeiro trata dos efeitos malignos que a culpa de Adão trouxe ao homem, inclusive em suas faculdades espirituais; o segundo volta a condenar a doutrina pelagiana, como já o fizera o XVI Concílio de Cartago.

TEXTO: Msi 8,712.

Cânon 1. Se alguém disser que, pelo pecado de Adão, o homem todo não “foi mudado para pior”, isto é, segundo o corpo e a alma, mas, seduzido pelo erro de Pelágio, julgar que, ficando ilesa a liberdade da alma, só o corpo está sujeito à corrupção, contradiz a Escritura, que diz: “A alma que pecar morrerá” (Ez 18, 20) e “Não sabeis que, se vos entregais a alguém como escravos para obedecer, ficais escravos daquele a quem obedeceis?” (Rm 6, 16) e “pois fica-se escravo daquele por quem foi vencido” (2 Pd 2, 19).

Cân. 2. Se alguém afirmar que o pecado de Adão prejudicou só a ele e não também a sua descendência, ou declarar que por um só homem passou a todo o gênero humano só a morte do corpo, que certamente é pena do pecado, mas não também o pecado, que é a morte da alma, atribuirá a Deus injustiça, contradizendo o Apóstolo, que diz: “Por um só homem [per unum hominem] entrou o pecado no mundo, e com o pecado a morte, e assim a morte passou a todos os homens, pois nele [in quo] todos pecaram” (Rm 5, 12).

 [CONTINUA]

Fonte: Justo Collantes, A Fé Católica – Documentos do Magistério da Igreja

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Igreja, Teologia, Cristianismo

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: