Doutrina Católica: O pecado original (I)

INTRODUÇÃO

Uma antropologia completa deve levar em conta os dados da Revelação, porque o homem não é só um ser criado como os outros, mas tem um fim próprio (uma teleologia própria) ligado à natureza de ser inteligente. Todo ser criado tem uma teleologia que o transcende, pelo próprio fato de ser obra de um Deus transcendente. Instruídos, no entanto, pela Revelação Divina, sabemos que o homem foi chamado, já desde suas origens, a participar intimamente da vida divina e da familiaridade com Deus (justiça original); e que, por uma livre e pessoal transgressão do plano divino, ele se tornou réu de culpa, perdendo com isso os direitos de filho, que, muito acima dos dons puramente naturais, Deus lhe concedera (pecado original originante). Esta perda voluntária e responsável da adoção inefável no seio da família divina é transmitida individualmente a cada um dos descendentes do primeiro homem (pecado original originado).

Com efeito, por este pecado pessoal primitivo, toda a humanidade nasce ferida na sua íntima elevação sobrenatural, isto é, nasce privada do que de mais sublime pôs nela a livre bondade criadora de Deus: a condição de filho adotivo. Tal privação, causada pelo pecado pessoal do primeiro homem, torna-se, em cada um de seus descendentes, pecado da natureza, próprio de cada indivíduo, pelo fato mesmo de ser homem. Sendo esta condição de filho um dom gratuito de Deus, é evidente que, por suas próprias forças, jamais poderia o homem recuperá-la.

Sem dúvida, isto não se pode conhecer pela razão, nem existe documento histórico capaz de dissipar as névoas que envolvem a origem da humanidade. Mas o dogma do pecado original é o núcleo da antropologia revelada, sem o qual não se pode compreender a antiga esperança de um Redentor, nem Sua vinda na pessoa de Cristo, nem a existência da Igreja e dos sacramentos instituídos pelo Senhor Jesus para recuperar, conservar e aperfeiçoar aquele estado de justiça original.

O dogma do pecado original projeta sobre o homem uma visão ao mesmo tempo realista e otimista. Realista, ou seja, o homem não é onipotente: por mais que se exalte sua dignidade, sua poderosa inteligência, seu domínio sobre o mundo, toda a sua atividade humana é insuficiente para lhe devolver a condição perdida de filho de Deus a que foi chamado e em que consiste a vida eterna. A Igreja, desde os tempos de Pelágio, teve sempre que defender esta verdade contra o naturalismo racionalista, que reduz a ordem sobrenatural da salvação ao esforço da vontade humana.

Além disso, o pecado original explica, de modo coerente e realista, o estado atual da natureza humana: porque o pecado original debilitou a vontade e obscureceu a inteligência do homem de tal modo que, ainda quando se decide pelo bem, continua atraído para o mal; isto é o que se chama concupiscência.

Não é pessimista esta visão realista do homem. Embora inclinada ao mal, a natureza humana não é intrinsecamente corrompida, como pensava Lutero (que se pôs nos antípodas de Pelágio). Pelo contrário, afirma a doutrina católica que o homem, mesmo no estado atual, pode conhecer com certeza as verdades religiosas de ordem natural, e ser transformado interiormente pela graça de Cristo para recuperar a justiça original. Sem correta concepção do dogma do pecado original, é impossível compreender a doutrina católica sobre a justificação, defendida pelo Concílio de Trento contra as posições luteranas. Entre estes dois desvios extremos – o otimismo pelagiano, que identifica as possibilidades da natureza com a graça de Deus, e o pessimismo luterano, que exalta a graça divina sobre as ruínas da liberdade humana -, a Fé católica mantém um equilíbrio realista que pode ser resumido nestes cinco pontos:

1) Adão foi constituído em justiça e santidade.

2) Houve uma falta original cometida por Adão; como conseqüência desta falta, Adão foi privado da justiça e santidade, ferido na própria natureza e sujeito à morte.

3) Por causa deste pecado de Adão, perderam seus descendentes a justiça original, e cada pessoa herda esta culpa com verdadeiro caráter de pecado próprio em cada um, transmitido por geração e não por mera imitação [propagatione, non imitatione, transfusum omnibus inest unicuique proprium], e ficaram sujeitos à morte.

4) Este pecado (original) só pode ser remido pelos méritos de Jesus Cristo e sua remissão se aplica também aos recém-nascidos por meio do Batismo, que lhes restitui a santidade e o direito à vida eterna. Mas o Batismo não os livra da concupiscência, que, aliás, não se identifica com o pecado.

5) Só o monogenismo é compatível com o dogma do pecado original [de pecato originali, quod procedit ex peccato vere commisso ab uno Adamo].

[CONTINUA]

Fonte: Justo Collantes, A Fé Católica – Documentos do Magistério da Igreja

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica

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7 Responses to Doutrina Católica: O pecado original (I)

  1. Anônimo says:

    Pecado originante e a quele que e feita pelo homem

  2. José raimundo says:

    José Oliveira sua pergunta é de uma inocência que dá até dó. A linguagem bíblica é antropológica, isto é : É uma linguagem humana para humano. Quando um professor de matenática diz que Y= x , uma criança de 6 anos vai achar maluco tal afirmação, sabe o porquê.?.a criança ainda não conhece esta linguagem analíca ou matemática.Mas um adulto sabe o significado. Adão e Eva representam uma obra prima de Deus . São os primeiros de milhares de familías que desobedeceram a Deus.

  3. Ramon Galhardo D Lopes Carvalho says:

    Caro Sr. Mendes Melo,
    Você não pareceu entender muito bem do que se trata a questão primordial do primeiro pecado – este é de natureza absolutamente diferente do que nós costumamos entender por nossos pecados (justamente por serem pecados de outrem), mas é perfeitamente inteligível quando você presta atenção nos relatos do Gênesis.

    Adão e Eva ao desobedecerem, quebram sua amizade (amizade no sentido Abraâmico) com Deus e consequentemente Deus fecha aos mesmos as possibilidades que havia aberto com o próprio Edén.

    Veja: no Edén há conhecimento e imortalidade. Deus expulsa Adão e Eva do paraíso para que não tornem-se imortais, pois o conhecimento ele adquiriu no próprio Jardim (Gen 3.22). Ou seja, a culpa original de Adão é ter fechado aos homens as potencialidades contidas na própria criação (do homem). É consequência natural, uma vez que homem original está fora do Edén, que toda sua decendência também estará – e consequentemente todas as potencialidades da alma que estariam associadas ao Edén se fecham para os descentendes de Adão (daí dizer que sua decêndencia carrega o pecado original).

    Jesus (e o batismo) vem reabrir essas possibilidades (pois trata justamente de trazer para esfera humana a potencialidade da imortalidade que foi fechada a Adão).

    ps. uma das três maldições que Deus lançou sobre Adão e Eva:
    porque és pó e pó haverá de tornar.
    Jesus reabre a questão. A Igreja trata da questão através do Batismo e por isso se batiza uma criança recém nascida: para que a potência da imortalidade se abra a ela.

  4. Os descendentes de Adão não são culpados pelo pecado original, mas herdam suas suas penalidades por consequência, hereditariamente.
    Assim, Adão foi penalizado no corpo e na alma. Seus descendentes herdam estas penalidades, primeiramente no corpo, e quando a alma é infundida neste, passa para a alma.

    E os filhos de Adão e Eva casaram-se entre si, pois era o início da humanidade. Após, cessou esta necessidade e não foi mais permitido isto.

  5. David says:

    Não é nesse sentido. Imagine o filho de um pai rico que teria uma fortuna imensa de herança. Porém, o pai faz um péssimo negócio e a herança que receberia não pode receber mais, ficando pobre. É por aí.
    Também não é uma “teoria”, pois é a coisa mais fácil do mundo de se verificar.

  6. Por esta teoria,o filho de um assino deve ser condenado juntamente com o pai,embora nenhuma relação com o fato ou com o ato do pai.
    Por favor me expliquem.

  7. Boa tarde:

    Se Adão foi o primeiro homem, com quem seus fiihos tiveram filhos? Ele cometeram incesto? Por ex, os filhos com Eva e a (s) filha (s) com Adão? 2 – Quantas gerações e quantos anos no total separam Abrão e David? Agradeçopla atenção – José.

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