Fragmentos: A oração, intérprete da esperança

Embora [Deus] por sua disposição providencial vele sobre toda a criação, ele tem um cuidado particular das criaturas racionais, revestidas da dignidade de ser sua imagem, que podem chegar até ele pelo conhecimento e pelo amor no senhorio de seus atos, tendo a livre escolha do bem e do mal. Regenerados pelo batismo, os homens têm uma esperança mais elevada, a de obter de Deus a herança eterna. … Pelo Espírito de adoção que recebemos podemos dizer “Abbá, Pai” (Rm 8,15), e para nos mostrar que era necessário orar nesta esperança o Senhor começou sua oração pela palavra “Pai”. Essa simples palavra prepara o coração do homem para orar com sinceridade para obter o que ele espera, porque os filhos devem se conduzir como imitadores de seus pais. Quem, pois, confessa a Deus como seu Pai deve se esforçar por viver como imitador de Deus, evitando tudo o que torna dessemelhante a Deus e praticando tudo o que nos assemelha a Deus.

Compendium theol. II 4

Dado que a ordem da Providência divina atribui a cada ser uma maneira de chegar a seu fim segundo a sua natureza, o homem também recebeu uma maneira própria de obter de Deus o que ele espera dele de acordo com o curso habitual da condição humana. Pertence à condição humana pedir para obter de um outro, e sobretudo de um superior, o que se espera dele. É assim que a oração foi prescrita aos homens por Deus para receber dele o que eles esperam. [Não certamente para fazer conhecer as nossas necessidades a Deus, mas antes para tomar consciência das nossas. A oração cristã te, entretanto, uma particularidade:] Quando se trata da oração a um homem, devemos ter com ele certa familiaridade para estar autorizado a nos dirigir a ele. A oração a Deus, ao contrário, nos faz penetrar em sua intimidade; quando o adoramos em espírito e em verdade, nosso espírito se eleva até ele e entra com ele num colóquio de afeto espiritual. Orando assim, esta intimidade afetuosa nos prepara em caminho para recomeçar a orar com mais confiança. Assim diz o Salmo (16, 6): “Eu chamei”, orando com confiança, “e tu me ouviste, ó Deus”: como se a primeira oração, tendo adquirido a intimidade divina, pudesse continuar com mais confiança. Por essa razão, a assiduidade na oração e a freqüência dos pedidos não são importunos, mas agradáveis a Deus (Lc 18, 1): “Deve-se sempre orar sem jamais se cansar”. O Senhor nos convida a  isso (Mt 7, 7): “Pedi e recebereis, procurai e encontrareis, batei e vos será aberto”. Na oração dirigida aos homens, pelo contrário, a insistência do pedido torna-se inoportuna.

Compendium theol. II 2

Tomás de Aquino, Santo Tomás, Igreja

 

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