A revolução aristotélica

Luca della Robbia (1400-1481), Platão e Aristóteles (1437-1439), Florença

O que tornou a revolução aristotélica profundamente revolucionária foi o fato de ser religiosa. E é este um ponto tão fundamental, que julguei conveniente apresentá-lo nas primeiras páginas deste livro – que a revolta foi em grande parte uma revolta dos elementos mais cristãos da Cristandade. Santo Tomás, exatamente como São Francisco, sentiu no subconsciente que a massa da sua gente ia deixando a sólida doutrina e disciplina católica, gasta lentamente durante mais de mil anos de rotina, e que a fé precisava ser apresentada a uma nova luz e vista por ângulo diverso. Não tinha outro motivo senão o de desejar torná-la popular para a salvação do povo. De maneira geral, é verdade que por algum tempo ela fora demasiado platônica para ser popular. Precisava ele de algo como o toque sagaz e familiar de Aristóteles, para transformá-la de novo em religião de senso comum. Tanto o motivo como o método se manifestam na controvérsia de Tomás de Aquino com os agostinianos.

Antes de tudo, devemos recordar que a influência grega continuou a se fazer sentir desde o Império Grego, ou ao menos desde o mesmo centro do Império Romano, situado agora na cidade grega de Bizâncio e já não em Roma. Tal influência era bizantina em todos os sentidos, no bom e no mau. Como a arte bizantina, era severa, matemática e um tanto terrível; como a etiqueta bizantina, era oriental e ligeiramente decadente. Devemos ao saber do Sr. C. Dawson muita luz sobre o modo como Bizâncio lentamente se cristalizou numa espécie de teocracia asiática, mais semelhante à do sagrado imperador da China. Mas até as pessoas incultas podem ver a diferença no modo como o Cristianismo oriental simplificava tudo: no modo, por exemplo, como reduzia as imagens a ícones que melhor se poderiam chamar figurinos do que verdadeiros quadros com variedade e arte; e isso fez decidida e destrutiva guerra às estátuas.

Vemos, assim, esta coisa estranha: o Oriente era a terra da cruz, e o Ocidente a terra do crucifixo. Os gregos estavam-se desumanizando por um símbolo radiante, enquanto os godos se iam humanizando por um instrumento de tortura. Só o Ocidente fez quadros realistas da maior de todas as histórias originárias do Oriente.

Eis por que o elemento grego na teologia cristã tendeu cada vez mais a se converter numa espécie de platonismo seco, algo feito de diagramas e de abstrações, todas elas muitíssimo nobres, sem dúvida, mas não suficientemente tocadas por esta coisa imensa que, por definição, é quase o contrário das abstrações: a Encarnação. O seu Logos era o Verbo, mas não o Verbo feito carne. Por vias muito sutis, que não raro escapavam à definição doutrinal, este espírito se espalhou pelo mundo da Cristandade, a partir de onde o sagrado imperador se sentava debaixo de mosaicos dourados; e a civilização do Império Romano nivelou-se na degradação moral, que preparou uma espécie de caminho suave para Maomé. Sim, porque o islã foi a realização final dos iconoclastas. Muito antes disso, porém, já havia essa tendência a tornar a cruz meramente decorativa como o crescente, transformá-la num símbolo como a chave grega ou a roda de Buda. Mas há algo de passivo em tal mundo de símbolos; a chave grega não abre porta nenhuma, enquanto a roda de Buda gira sempre mas não avança nunca.

Em parte graças a essas influências negativas, em parte graças a um ascetismo necessário e nobre, que buscava rivalizar com o padrão tremendo dos mártires, as primitivas idades cristãs tinham sido demasiado anticorpóreas e demasiado próximas da perigosa linha do misticismo maniqueu. Havia no entanto muito menos perigo em os santos macerarem o corpo do que em os sábios o desprezarem. Admitida toda a grandeza da contribuição de Agostinho para o Cristianismo, havia, de certo modo, perigo mais sutil no Agostinho platônico que no Agostinho maniqueu. Dela proveio uma mentalidade que, inconscientemente, levou à heresia de dividir a substância da Trindade. Pensava-se que Deus era, de modo demasiado exclusivo, um Espírito que purifica ou um Salvador que redime, e muito pouco um Criador que cria. Eis por que homens como Tomás de Aquino entendiam dever corrigir Platão pelo recurso a Aristóteles, este estagirita que considerou as coisas como as encontrou, exatamente como Tomás de Aquino as aceitou conforme Deus as fez. Em toda a obra de Santo Tomás, o mundo de criação positiva está perpetuamente presente. Humanamente falando, foi ele quem salvou o elemento humano na teologia cristã, embora utilizasse, por conveniência, certos elementos da filosofia pagã. Mas, como eu já disse, o elemento humano é também cristão.

O pânico pelo perigo aristotélico, o qual passara pelos elevados postos da Igreja, foi provavelmente um vento seco do deserto. Em verdade, vinha mais carregado do medo de Maomé que do medo de Aristóteles, o que não deixa de ser irônico, porque com efeito havia muito mais dificuldade em reconciliar Aristóteles com Maomé do que reconciliá-lo com Cristo. O islã é essencialmente um credo simples para homens simples, e em verdade não se pode converter jamais o panteísmo num credo simples, porque é demasiado abstrato e a um só tempo demasiado complicado. Há pessoas simples, crentes num Deus pessoal, e há ateus de espírito ainda mais simples do que os crentes num Deus pessoal. Mas poucos podem, com toda a simplicidade, aceitar por deus um universo sem Deus. O muçulmano, comparado com o cristão, ao mesmo tempo que tinha um Deus talvez menos humano, tinha um Deus mais pessoal, se tal é possível.

A vontade de Alá era verdadeiramente vontade, e não podia transformar-se em corrente ou tendência. Em todo esse aspecto cósmico e abstrato, o católico era mais acomodatício do que o muçulmano – até certo ponto. O católico podia admitir, ao menos, que Aristóteles tinha razão acerca das manifestações impessoais de um Deus pessoal. Donde podermos dizer, de maneira geral, que os filósofos muçulmanos que se tornavam bons filósofos se convertiam em maus muçulmanos. É natural, pois, que muitos bispos e doutores receassem que os tomistas se tornassem bons filósofos e maus cristãos. E também havia muitos, da escola estrita de Platão e Agostinho, que negavam terminantemente fossem os tomistas bons filósofos. Entre estas paixões muito incongruentes – o amor de Platão e o receio de Maomé – houve um momento em que a perspectiva da cultura aristotélica na Cristandade pareceu de fato muito sombria. Dos postos elevados trovejaram anátemas sobre anátemas, e na fúria da perseguição, como não raro sucede, pareceu um momento que só uma ou duas figuras permaneciam de pé no terreno varrido pela tormenta. Ambas vestiam o hábito preto e branco dos dominicanos: Alberto e Tomás de Aquino mantinham-se firmes.

Nesta espécie de luta há sempre confusão, e as maiorias transformam-se em minorias, e vice-versa, como por magia. É sempre difícil fixar a data do retorno da maré, que parece ser uma sucessão de redemoinhos; as próprias datas parecem sobrepor-se umas às outras e confundir a crise. Mas o ponto crítico desde o momento em que os dois dominicanos ficaram sós até que toda a Igreja, por fim, se alinhou a eles encontra-se talvez próximo da ocasião em que foram, praticamente, levados ante um juiz hostil, mas não injusto. O Bispo Tempier, de Paris, era na aparência um belo exemplar do velho clérigo fanático, e pensava que admirar Aristóteles fosse uma fraqueza que facilmente levava à adoração de Apolo. Por má sorte vinha a ser, além disso, um dos velhos conservadores sociais que haviam sentido intensamente o movimento popular dos frades pregadores. Mas era também homem honesto, e Tomás de Aquino nunca pediu outra coisa senão dirigir-se a homens honestos. À sua volta havia outros revolucionários aristotélicos, mas de espécie muito mais duvidosa. Estava ali Siger, o sofista de Brabante, que aprendera dos árabes todo o seu aristotelismo, e que tinha uma engenhosa teoria acerca de como um agnóstico árabe podia ser também cristão. Havia milhares de jovens como os que tinham aclamado Abelardo, cheios do espírito juvenil do século XIII e embriagados do vinho grego de Estagira. Contra eles, deprimente e implacável, estava o velho partido puritano dos agostinianos, demasiado satisfeitos de poder condenar os racionalistas Alberto e Tomás juntamente com os equívocos metafísicos muçulmanos.

Pareceria que a vitória de Tomás era, em verdade, uma vitória pessoal. Ele não retirou uma só de suas proposições, conquanto se diga que o bispo conservador lhe acabou por condenar algumas, após a sua morte. De modo geral, porém, Tomás de Aquino convenceu muitos dos seus críticos de que era tão bom católico como eles. Houve uma série de disputas entre as ordens religiosas em seguida a esta crise de controvérsia. Mas pode-se talvez dizer que o fato de um homem como Tomás de Aquino ter conseguido, ainda que parcialmente, satisfazer um homem como Tempier punha termo à disputa essencial. O que já era familiar a poucos tornou-se familiar a muitos: que um aristotélico podia, verdadeiramente, se rcristão.

Outro fato acompanhou a conversão geral, e assemelha-se curiosamente à história da tradução da Bíblia e à sua suposta supressão pelos católicos. Por trás da cena, onde o Papa era muito mais tolerante do que o bispo de Paris, os amigos de Tomás de Aquino tinham estado a trabalhar intensamente em nova tradução de Aristóteles. Isso demonstrava que, em muitos aspectos, a tradução herética tinha sido uma tradução muito herética. Com a conclusão final de tal obra, podemos dizer que a grande filosofia grega entrou finalmente no patrimônio da Cristandade. O processo fora definido, algo humoristicamente, como “o batismo de Aristóteles”.

G. K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino, Ed. LTr

 

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One Response to A revolução aristotélica

  1. Gustavo Milano Beserra says:

    Como é maravilhoso esse blog. Isso daqui vale ouro! Por favor, continue com ele. Sem dúvida está trazendo luz à vida de muita gente.

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