Fragmentos – Espírito Santo: amor, amizade, comunhão e perdão

 

Dado que o Espírito Santo procede por modo de amor, do amor pelo qual Deus ama …, e do fato de que amando Deus nós nos assemelhamos a esse amor, dizemos que o Espírito Santo nos é dado por Deus. Por isso o Apóstolo afirma: “O amor de Deus foi espalhado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5, 5).

Suma contra os gentios IV 21, n. 3575

 

Por toda a parte onde há obra de Deus, deus deve aí se encontrar a título de autor. Dado que a caridade pela qual amamos Deus se encontra em nós pelo Espírito Santo, é necessário que o Espírito Santo permaneça em nós tão longamente enquanto temos a caridade. Por isso o Apóstolo perguntava (1Cor 3, 16): “Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito Santo habita em vós?” Dado que é pelo Espírito Santo que nos tornamos amigos de Deus e que o ser amado, em sua qualidade justamente de ser amado, está presente naquele que o ama, é necessário que o Pai e o Filho habitem também em nós pelo Espírito Santo. É o que diz o Senhor em São João (14, 23): “Viremos a ele e faremos nele nossa morada”; e ainda (1Jo 3, 16): “Sabemos que ele permanece em nós graças ao Espírito que ele nos deu”.

Suma contra os gentios 20, n. 3576

 

É manifesto que Deus ama no mais alto grau aqueles que ele fez seus amigos pelo Espírito Santo; somente um tão grande amor podia conferir um tal bem. … Ora, uma vez que todo ser amado habita naquele que o ama, é necessário que pelo Espírito Santo não somente Deus habite em nós, mas nós também em Deus. É bem o que diz São João (1Jo 4, 16): “Aquele que permanece na caridade permanece em Deus, e Deus nele”, e “E é por isso que sabemos que permanecemos nele e ele em nós, graças ao Espírito que ele nos deu”.

Suma contra os gentios 20, n. 3577

 

É próprio da amizade que o amigo revele a seu amigo seus segredos. Uma vez que a amizade cria uma comunidade de afeição e faz por assim dizer de dois corações um só, o que se confia a seu amigo parece não abandonar seu próprio coração. Eis por que o Senhor podia dizer aos seus discípulos (Jo 15, 15): “Eu não vos chamo mais servos, chamo-vos amigos, porque tudo aquilo que eu ouvi do meu Pai eu vos fiz conhecer”. Uma vez que é o Espírito Santo que nos faz amigos de Deus, convém lhe atribuir a revelação aos homens dos mistérios divinos. É o que diz o Apóstolo (1Cor 2, 9): “O que o olho não viu, o que o ouvido não ouviu, o que não subiu ao coração do homem, o que Deus preparou para aqueles que o amam, Deus nos revelou pelo Espírito Santo”; e, uma vez que é a partir daquilo que conhece que o homem pode falar, convém atribuir ao Espírito Santo [o fato de que] o homem possa falar dos mistérios divinos. … Como diz o Símbolo a propósito do Espírito Santo: “Ele falou pelos profetas”.

Suma contra os gentios 20, n. 3578

 

A amizade não tem por única propriedade fazer conhecer ao amigo seus segredos em razão da unidade de afeição (propter unitatem affectus); essa mesma unidade exige que se comunique a seu amigo o que se possui. Porque um amigo é para um homem “um outro eu”, é necessário vir-lhe em ajuda como a si mesmo dando-lhe tudo o que se tem. Daí essa definição da amizade: “Querer e realizar o bem de seu amigo”. Isso se encontra em 1Jo 3, 17: “Se alguém possui bens desse mundo e vê seu irmão na necessidade, e ele se fecha a toda compaixão, como o amor de Deus permanecerá nele?” Isso se verifica no mais alto ponto em Deus, para quem querer é agir; e por isso convém dizer que todos os dons de Deus nos são dados pelo Espírito Santo.

Suma contra os gentios, n. 3579

 

Para que o homem chegue até aí, é necessário primeiramente que se torne conforme a Deus graças a certas qualidades espirituais, e que ele aja em seguida em conformidade com essa conformidade; assim chegará à bem-aventurança. Ora, os dons espirituais nos vêm pelo Espírito Santo; é, pois, por ele que somos configurados a Deus, por ele ainda nos tornamos aptos a bem agir, por ele sempre a via da bem-aventurança nos é aberta. Três etapas evocadas pelo Apóstolo (2Cor 1, 21-22): “É Deus que nos dá a unção, que nos marcou com seu selo e colocou em nossos corações o penhor do Espírito; e ainda (Ef 1, 13): “Fostes marcados pelo selo do Espírito Santo, penhor de nossa herança”. O selo (signatio) se refere, parece, à semelhança de configuração; a unção (unctio) à aptidão do homem com respeito às obras de perfeição; o penhor (pignus) à esperança que nos orienta para a herança celeste, a bem-aventurança perfeita.

Suma contra os gentios, n. 3580

 

Uma vez que é o Espírito Santo que nos constitui amigos de Deus, é normal que seja por ele que Deus nos perdoe os pecados. Por isso o Senhor disse a seus discípulos: “Recebei o Espírito Santo; aquele a quem perdoardes os pecados, serão perdoados”, e em São Mateus (12, 31) o perdão dos pecados é negado àqueles que blasfemam contra o Espírito Santo, porque não têm em si aquilo por que o homem pode obter o perdão dos seus pecados. Daí decorre também dizermos, do Espírito Santo, que ele nos renova, que ele nos purifica, que ele nos lava.

Suma contra os gentios, n. 3582

Tomás de Aquino, Santo Tomás, Igreja

 

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3 Responses to Fragmentos – Espírito Santo: amor, amizade, comunhão e perdão

  1. Georgia says:

    Gostei muito da seleção das sumulas. A grandiosidade de Deus é a termos a graça na Sua Misericórdia. Porque, com o diz o salmo, Ele nunca nos mede pelos nossos erros…

  2. Jorge Luis says:

    Olá, achei seu blog por acaso quando procurava para material de estudo sobre teologia, patrística, iconografia, epigrafia, arqueologia bíblica, etc.

    E acredito que você possa se interessar por esses blogs

    http://patristicabrasil.blogspot.com/, história e patrística da igreja do século I ao VIII, todo em português.

    http://iconografiascristas.blogspot.com/, Ícones antigos da igreja.

    http://angelusexverum.blogspot.com, que pretende comprovar verdades da Igreja a partir de achados arqueológicos.

  3. Didio Rocha Loures says:

    Cabe ressaltar que o homem na sua imperfeição original jamais poderá perdoar sinceramente seu detrator a menos que tenha o Espirito Santo habitado em seu coração.
    Isto também explica que a alegria de quem perdoa é maior do que a daquele que foi perdoado.

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