A espiritualidade de Tomás (II): realista, do desenvolvimento humano e de comunhão

Diego Velázquez (1599-1660), Coroação da Virgem, Museu do Prado, Madrid

Uma espiritualidade “realista”

Essa palavra significa primeiro que o sujeito espiritual não é uma alma desencarnada, nem mesmo uma alma que teria um corpo, mas uma pessoa que não existe em si mesma a não ser na união estreita de seus dois componentes, alma e corpo. Tomás nos propõe “uma idéia do homem” e decorre disso certa maneira de considerar a vida interior e a prática da virtude. Não uma “libertação” do corpo nem mesmo das potências “inferiores”, mas uma retificação progressiva, uma cristianização de todo o ser reunido em sua orientação reta para Deus.

Em oposição a um sobrenaturalismo precipitado que tenderia a ignorar o nível próprio da natureza, a teologia de Tomás da criação, “realista”, quer também evocar sua bondade fundamental, a autonomia do temporal e a validade dos fins intermediários cujas exigências específicas não foram suprimidas nem ocultadas pelo dom da graça. Tudo isso constitui a base indispensável de uma espiritualidade para uso dos fiéis leigos, qualquer que seja sua função no mundo, que podem ser assim mantidos e confirmados em sua orientação última para Deus, sem ser conduzidos a praticar um equivocado “desprezo do mundo”, que faria deles monges em miniatura. Se por vocação pessoal Tomás praticou uma espiritualidade de religioso, sua obra põe os fundamentos sólidos de uma teologia das realidades terrestres, em respeito aos valores humanos, que não poderia fazer falta em nenhuma espiritualidade verdadeira.

 

Uma espiritualidade do desenvolvimento humano

Alguns falariam talvez de uma “moral da felicidade”, mas se trataria apenas de uma  diferença de acento. Tomás não ignora certamente o lugar do mal e do sofrimento na vida do homem (sua longa meditação sobre o livro de Jó é testemunha), mas mesmo se ele fala belamente disso não se pode resumir sua espiritualidade num elogio da cruz. Mas muito menos num elogio do epicurismo – ele convida antes a “tornar-se o que se é”. Certamente, ele entende à sua maneira a máxima do sábio antigo, mas não a renega. A concepção de Tomás do homem e de sua liberdade implica que ele não se encontra a si mesmo a não ser encontrando a Deus. Filho de Deus chamado a servi-lo na alegria e no amor, destinado a herdeiro do Reino, ele não tem nenhuma razão de se conduzir como um escravo no temor. O apelo repetido à experiência da amizade esclarece o lugar que Tomás reconhece aos valores humanos para exprimir o mistério de nossas relações com Deus. Mesmo se esses valores têm necessidade de ser purificados e levados de volta à sua integridade, a vida segundo o Espírito de acordo com Tomás não se situa no registro da renúncia ou da obrigação, mas antes no registro da realização pelo amor.

 

Uma espiritualidade de comunhão

Esse qualificativo se impõe por dois motivos. Primeiro, porque o homem é por natureza um animal “social” e não pode se desenvolver senão na relação com seus semelhantes. Segundo, porque sua participação em diversas comunidades, civis ou religiosas, deve encontrar sua tradução no âmbito espiritual. Aqui como em outros lugares – e sem que o sujeito tenha sempre consciência –, o dado natural encontra sua cópia e sua realização no âmbito da graça. Ora, não recebemos a graça a não ser por e na Igreja Corpo de Cristo, cuja extensão é às vezes mais ampla e mais íntima do que o olho humano pode reconhecer. Por isso, o cristão de Tomás é antes de tudo um membro do Corpo eclesial. Pelos sacramentos, batismo e eucaristia mais especialmente, ele recebe de sua Cabeça , Cristo, toda a sua vida, e no Espírito Santo, o Coração da Igreja, ele está estreitamente unido, na Comunhão dos Santos, a todos os outros membros do Corpo. Essa dimensão comunitária não é uma simples implicação da definição da Igreja como corpo (ou como congregatio ou populus); anterior a toda reflexão teológica, sua valorização na espiritualidade, na oração ou na liturgia apenas manifesta a natureza das coisas. A vida interior não é um simples assunto privado, individualista; ela não retira nem separa a pessoa da Totalidade da qual faz parte. Ela lhe inspira espontaneamente uma atitude de comunhão, a de um membro, não a de um pedaço.

 

Fonte: Jean-Pierre Torrel, OP, Santo Tomás de Aquino – Mestre Espiritual, Loyola

 

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