Fragmentos: A conformidade a Cristo

A satisfação de Cristo obtém em nós seu efeito na medida em que lhe somos incorporados como membros à sua cabeça … Ora, é necessário que os membros se conformem à cabeça (membra autem oportet capiti conformari). Por conseqüência, assim como Cristo começou por receber, ao mesmo tempo que a graça, a passibilidade do corpo e, por sua paixão, chegou à glória da imortalidade, assim nós que somos seus membros fomos libertados por sua paixão de toda pena, mas de tal maneira que recebemos primeiro em nossa alma o Espírito dos filhos adotivos (Rm 8, 15), graças ao qual nos foi atribuída uma herança de glória imortal. Será somente depois, após ter sido configurados aos sofrimentos e à morte de Cristo (Fl 3, 10), que seremos conduzidos à glória imortal, conforme ao que diz o apóstolo (Rm 8, 17): Filhos de Deus e portanto herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, se pelo menos sofremos com ele para ser glorificados com ele.

(Suma Teológica III q.49 a.3)

 

Assim como somos configurados à sua morte [de Cristo] na medida em que morremos para o pecado, assim ele é morto para a vida mortal, na qual há a semelhança do pecado, mesmo que ele não tenha tido pecado. Assim todos nós que fomos batizados morremos para o pecado.

(In ad Romanos 6, 3, lect. 1, n. 473)

 

Para que alguém seja libertado eficazmente das penas [temporais], é preciso que se tenha feito participante da paixão de Cristo, o que se realiza de duas maneiras. Em primeiro lugar, pelo sacramento da paixão, o batismo, pelo qual [o batizado] é sepultado com Cristo na morte, segundo Romanos 6, 4, e no qual opera a virtude divina que não conhece ineficácia; por isso tais penas são tiradas no batismo. Em segundo lugar, alguém se torna participante da paixão de Cristo por uma conformidade real a ela, isto é, quando sofremos com o Cristo que sofre: isso se realiza pela penitência. Esta última conformidade se produz por nossa própria operação, e é por isso que ela pode ser perfeita ou imperfeita…

(Sent. III d.19 q.1 a.3 sol.2)

 

Aqueles que anteriormente ele conheceu, ele também os predestinou a serem conformes à imagem de seu Filho … [contra “alguns” que pretendem que o conhecimento prévio de Deus dos méritos futuros de uma pessoa é a razão de sua predestinação e que querem compreender assim São Paulo: “aqueles que ele soube de antemão que deveriam ser conformes à imagem de seu Filho, Deus os predestinou”, Tomás responde:] poder-se-ia dizer isso de maneira fundamentada se a predestinação visasse somente à vida eterna, que responde ao mérito; mas é na realidade toda boa obra salutar prevista para o homem desde toda a eternidade que destaca a predestinação; é a razão pela qual todas as obras boas que nos são dadas no tempo foram preparadas desde toda a eternidade. Afirmar que um mérito qualquer de nossa parte é pressuposto, que seria a razão de nossa predestinação, equivale a dizer que a graça é dada em virtude de nossos méritos, que estamos no princípio de nossas boas obras e que só o seu termo pertence a Deus.

É antes assim que se deve ler o texto: “aqueles que de antemão conheceu, são aqueles que ele predestinou a serem conformes à imagem de seu Filho”. Essa conformidade não é a razão da predestinação, mas seu termo, seu efeito. O apóstolo diz bem em outro lugar (Ef 1, 5): “ele nos predestinou a ser filhos adotivos”, a adoção filial nada mais é do que essa conformidade. Aquele que foi adotado como filho de Deus foi conformado a seu verdadeiro Filho.

[Isso se produz] primeiramente pelo direito de participar da herança, como foi dito mais acima (Rm 8, 17): “Filhos e herdeiros, herdeiros de Deus, co-herdeiros de Cristo”. Em seguida por uma participação em sua glória. Ele com efeito foi gerado pelo Pai como o esplendor de sua glória (Hb 1, 3). É por isso que, pelo fato mesmo de que ilumina os santos com a luz de sua sabedoria e de sua graça, os torna conformes a ele. Por isso foi dito no Salmo (109, 4): “Do seio da aurora eu te gerei antes da luz nos esplendores dos santos”, isto é, espalhando o esplendor dos santos…

Quanto à conseqüência dessa predestinação, Paulo acrescenta: “a fim de que ele seja o primogênito de uma multidão de irmãos”. Assim como Deus quis comunicar a sua natureza a outros fazendo-os participar da semelhança de sua bondade, de sorte que ele seja não somente bom mas ainda autor de bondades, assim o Filho de Deus quis comunicar a conformidade de sua filiação, de sorte que ele não seja o único filho mas o Primogênito dos filhos. É assim que aquele que é único por sua geração eterna, segundo João (1, 18), “o Filho único que está no seio do Pai”, torna-se pela comunicação da graça “o Primogênito de uma multidão de irmãos”: “Aquele que é o Primogênito dentre os mortos, o Príncipe dos reis da terra” (Ap 1, 5).

Somos assim os irmãos de Cristo, tanto pelo fato de que ele nos comunicou a semelhança de sua filiação, como se disse aqui, quanto pelo fato de que ele assumiu a semelhança de nossa natureza, segundo a carta aos Hebreus (2, 17): “tornou-se em tudo semelhante aos seus irmãos”.

(In ad Romanos 8, lect.6, n.703-706)

 

Lê-se na escritura que somos configurados ao Filho pela mediação do Espírito Santo. Testemunha este texto da Carta aos Romanos (8, 15): “Recebestes um Espírito que fez de vós filhos adotivos”, e este texto da carta aos Gálatas (4, 6): “Porque sois filhos, Deus enviou em vossos corações o espírito de seu Filho”. Ora, nada se conforma a um modelo senão por meio de seu próprio selo. Constata-se isso nas naturezas criadas, nas quais o que torna semelhante ao modelo procede dele; assim o sêmem humano que procede do homem torna semelhante ao homem. Ora, o Espírito Santo procede do Filho como o seu próprio caráter. Em conseqüência, diz-se de Cristo: “ele nos marcou com o seu selo, com sua unção, ele nos deu como penhor o Espírito Santo presente em nossos corações”.

(De potentia q.10 a.4)

 

Tomás de Aquino, Santo Tomás

 

 

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