Fragmentos: Bens temporais e bens espirituais

O homem é colocado entre as realidades deste mundo em que se desenvolve sua vida e os bens espirituais em que se encontra a bem-aventurança eterna, de tal modo que mais ele se inclina para um lado mais ele se afasta do outro, e reciprocamente. Lançar-se totalmente nas realidades terrestres a ponto de fazer delas o fim de sua existência, a razão e a regra de seus atos é se afastar totalmente dos bens espirituais. Os mandamentos proíbem tal desordem. Entretanto, para atingir esse fim não é necessário renunciar totalmente ao mundo, porque se pode chegar à bem-aventurança eterna utilizando os bens terrestres, com a condição de que não se faça deles o fim de sua existência. Mas quem renunciar inteiramente aos bens deste mundo chegará à bem-aventurança mais facilmente. É em vista disso que os conselhos são dados.

(ST 1ª 2ae q.108 a.4)

O homem é desapegado dos bens temporais pela virtude de tal maneira que ele aprende a usar deles com moderação; mas o dom lhe ensina a tê-los como totalmente negligenciáveis (totaliter ea contemnat). Por isso pode-se ouvir a primeira bem-aventurança (Mt 5, 3): “Bem-aventurados os pobres em espírito”, seja pelo desprezo das riquezas, seja pelo desprezo das honras, que se realiza pela humildade.

(ST 1ª 2ae q.69 a.3)

Comentário de Paulo VI: “O ponto central e como o pivô da solução que numa intuição profética e genial ele [Tomás] deu ao problema da confrontação nova entre a razão e a fé foi conciliar a secularidade do mundo e o radicalismo do Evangelho, escapando assim a esta tendência contra a natureza que nega o mundo e seus valores, sem faltar às exigências supremas e indeclináveis da ordem sobrenatural. Toda construção doutrinal de santo Tomás funda-se, com efeito, nesta regra de ouro que ele mesmo enunciou desde as primeiras páginas da Suma Teológica, segundo a qual ‘a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa’, e a natureza está subordinada à graça, a razão à fé, o amor à caridade” (Carta ao P. Vincent de Couesnongle, Mestre da Ordem dos Frades Pregadores, para o sétimo centenário da morte de Santo Tomás).

Tomás de Aquino, Santo Tomás, Suma Teológica

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