Diálogo com El Greco

El Greco, O Sepultamento do Conde de Orgaz (veja texto abaixo)

Entrou um homem, vestido à moda castelhana do século XVI. Eu o interpelei.

– Senhor, gostaria de olhar por trás desse véu.

Sem dizer palavra, o homem se aproximou, afastou o véu que cobria um grande quadro, e deu dois passos atrás. Eu estava realmente em Toledo, diante da obra-prima de El Greco, L’Enterrement du comte d’Orgaz [O sepultamento do conde de Orgaz]. Contemplei, sem dizer uma palavra. Meu olhar passava da terra ao céu. O homem que havia afastado o véu rompeu por primeiro o silêncio.

– É a primeira vez que vem a Toledo, senhor?

– Oh não! A primeira vez foi em 1924. Eu tinha vinte e três anos. Eu vinha já para O sepultamento do conde. Naquela época, a sala não era tão iluminada como hoje. O quadro estava mergulhado na obscuridade. Para vê-lo, era preciso acender uma pequena lâmpada. Eu ainda me vejo. Ao clarão da chama, na fumaça luminosa, aos reflexos do latão, descobri a terra e os cavaleiros, o céu e os anjos e a alma do conde que subia da terra ao céu. Assim, ia eu do tempo à eternidade e da eternidade ao tempo, como os anjos do sonho de Jacó, que sobem e descem ao longo da escada estendida da terra ao céu. No alto, a Virgem me acolhia. Em baixo, havia um extático em oração. A armadura do conde era tão fria quanto seu rosto de pedra. Um bispo vestido com uma casula de ouro. Os rostos tinham a gravidade dos mais altos mistérios.

– Por que evocar essa lembrança?

– Naquele tempo, ninguém podia abarcar de uma só olhada todo o quadro. Era preciso ir de um lugar a outro e, às vezes, raciocinar para recompor o todo graças à imaginação. Hoje, ele se oferece a mim inteiramente de um só golpe. É a imagem da diferença entre nosso conhecimento aqui de cima e aquele lá de baixo.

– Guitton, você gosta de ver?

– Quando eu vivia no mundo, eu não gostava de ver. Preferia ter visto. Hoje, prefiro ver. (Pausa). É curioso, eu lhe falo desde o além e isso lhe parece normal. Ademais, você está vestido de uma maneira engraçada. Estamos no século XXI. É o carnaval? Quem é você?

– Eu sou El Greco.

– Você é El Greco!

– Tão verdadeiro quanto você é Jean Guitton. Você está sendo sepultado em Paris e você se encontra em julgamento. Eu gosto disso. Então, dado que você veio a Toledo, eu vim para fazer-lhe companhia. O que você faz aqui?

– Greco, eu vim a Toledo com um só objetivo: contemplar  sua obra-prima. No momento em que sou sepultado em meu país, vim à Espanha, a minha pátria mística e espiritual, contemplar a verdade eterna deste instante de minha vida. Somente você soube expressar o mistério deste momento que transcorre entre a morte e a hora do julgamento.

– Também você, Guitton, é pintor da eternidade.

– Oh! Greco, não há como comparar.

-Contudo, você pintou e eu gosto do que você fez. Por que você pintou?

– Eu escrevi e pintei. Quando eu havia escrito minhas páginas, parecia-me que não tinha dito nada e que teria feito melhor calar-me. Pegava, então, o pincel e lhe dava a missão de ir aonde a pena não pudera chegar.

– E eu, quando meu pincel tremia por ter atingido a evocação do mistério, eu preferiria poder filosofar. Para mim, que felicidade seria poder adquirir a inteligência refletida daquilo que eu fazia apenas por profissão ou por instinto.

– Por gênio.

– Por graça, Guitton, por graça.

– Você tinha este gênio de deixar o Espírito de Deus repousar como Senhor Todo-Poderoso sobre a fecundidade de sua natureza. Você consente com seus desígnios. Você segue suas inspirações. E você fica silencioso diante desta beleza admirada por todos, saída de seus olhos e de suas mãos, como a Virgem Maria na adoração dos Magos.

– O que é o desenho?

– É a derrota do tempo, a honra do espaço.

– Vejo que você compreende essas coisas e que nossos pensamentos são parecidos. A pintura, no século XX, esqueceu o desenho e desprezou o espaço. O Renascimento o havia absolutizado demais. Bastaria relativizá-lo.

Você também, Guitton, você relativizou o espaço sem anulá-lo.

– apenas imitei você, e tão de longe, que toda idéia de semelhança ofende. O espaço ideal e puro, em sua estabilidade estática, é uma certa imagem da eternidade. A forma da coisa é o símbolo de sua verdade eterna. Mas a forma e a espacialidade não são a substância e não são divinas. Não passam de imagens. Contudo, sem elas, nós não podemos pensar naquilo que as ultrapassa.

– Dessa forma, Guitton, nossa arte respeita a dignidade das formas sem sacralizar a perspectiva, sem ser submissa às medições, sem idolatrar a geometria.

– Greco, o que é a cor?

– Olhe a armadura do conde, o manto da Virgem, a casula do bispo. O mundo sensível é luz cristalizada, sua substância é irradiação. A cor é a glória da luz.

– Palavras misteriosas. Eu as pronunciei algumas vezes, como fórmulas sacramentais. Mas o que elas significam?

– Você deverá compreendê-las antes de poder entrar no paraíso. Mas Deus lhe enviará um anjo e você compreenderá.

Neste momento, o telefone tocou. El Greco atendeu.

– Alô? Aqui é El Greco… Sim, ele está aqui… Imediatamente?… Entendo… Até mais.

Desligou. Dirigindo-se a mim:

– Estão chamando-o em Paris.

– Já? Bem. Estarei lá em um segundo. Adeus, Mestre. Eu lamento ter de deixá-lo tão depressa. Em todo caso, obrigado por ter vindo apoiar-me nestas circunstâncias.

– O prazer foi todo meu. Quando você estiver no Céu, venha visitar-me. Eu moro num pequeno mosteiro nos arredores do quarteirão dos artistas. Nós continuaremos a conversa.

 

Fonte: Jean Guitton, Meu Testamento Filosófico, Paulinas

 

Tomás de Aquino, Suma Teológica, Santo Tomás de Aquino, filosofia, arte, El Greco, O Enterro do Conde de Orgaz, Jean Guitton, Meu Pensamento Filosófico

 

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