Tomás responde: O ato sexual pode existir sem pecado?

Raffaello Sanzio (1483-1520), As Três Graças, 1504-1505

Parece que não pode haver ato sexual sem pecado:

1. Com efeito, nada parece ser obstáculo à virtude como o pecado. Ora, todo ato sexual é um obstáculo máximo à virtude, pois Agostinho diz: “Creio que nada derruba tanto o ânimo varonil como as carícias femininas e as intimidades corporais”. Logo, parece que não há ato sexual sem pecado.

2. Além disso, onde houver algo excessivo que nos aparte do bem racional, aí haverá algo vicioso, pois tanto o excesso como a falta destroem a virtude, ensina o Filósofo. Ora, em todo ato sexual há um excesso de prazer, que absorve a razão de tal forma que “ela não consegue refletir sobre coisa alguma nesse momento”, diz o Filósofo e, adverte Jerônimo, nesse ato o espírito de profecia não tocava o coração dos profetas. Logo, nenhum ato sexual pode ocorrer sem pecado.

3. Ademais, a causa é mais importante que o efeito. Ora, o pecado original é transmitido às crianças pela concupiscência, sem a qual não pode existir o ato sexual, como demonstra Agostinho. Logo, nenhum ato sexual pode realizar-se sem pecado.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz Agostinho: “Já foi bastante explicado aos hereges, se é que eles querem compreender: não existe pecado no que não contraria a natureza, nem os costumes, nem a lei”. E ele está falando do ato carnal, que os antigos patriarcas praticavam com várias esposas. Logo, nem todo ato sexual é pecado.

RESPONDO. Nos atos humanos, o pecado consiste naquilo que contraria a ordem racional e essa ordem exige que se oriente cada coisa ao seu fim. Não há pecado, portanto, quando o homem usa de certas coisas respeitando o fim para o qual existem, na medida e na ordem convenientes, desde que esse fim seja, realmente, bom. Ora, como é realmente um bem conservar a natureza corpórea do indivíduo, assim também é um bem excelente conservar a natureza da espécie. E como o alimento está destinado à conservação da vida individual, assim também a atividade sexual está dirigida à conservação de todo o gênero humano. Razão por que Agostinho pode dizer: “O que é a comida para a vida individual é a relação sexual para o bem da espécie”. Portanto, como pode a alimentação ser sem pecado, feita na ordem e medida devidas, como o requer a saúde do corpo, também pode não haver pecado na atividade sexual, realizada dentro da medida e da ordem devidas, de acordo com o que convém à finalidade da geração humana.

 

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. Uma coisa pode criar obstáculo à virtude de dois modos. Ou quanto ao estado comum da virtude e então só o pecado constitui obstáculo a ela; ou quanto ao estado perfeito da virtude e nesse caso a virtude pode ser impedida por algo que não é pecado, mas um bem menor. Nesse sentido é que o uso da mulher derruba o ânimo não da virtude, mas do mais alto, isto é, da perfeição da virtude. Por isso, Agostinho diz: “Era bom o que Marta fazia, entregue ao serviço dos santos; mas era melhor o que Maria, ouvindo a palavra de Deus, fazia. Assim também nós apreciamos a virtude de Susana, em sua castidade conjugal, mas preferimos a virtude da viúva Ana e muito mais a da Virgem Maria”.

2. Não se mede o meio-termo da virtude quantitativamente, mas pelo seu ajustamento com a reta razão. Por isso, o intenso prazer gozado no ato sexual, feito segundo a reta razão, não contraria o meio-termo da virtude. Além do mais, não é o quanto de prazer experimentam os sentidos exteriores, resultantes da disposição do corpo, que interessa à virtude, mas o quanto o apetite interior é sensível a tal prazer. E o fato de a razão não poder produzir, junto com esse prazer, um ato livre sobre as coisas espirituais, também não prova que ele se oponha à virtude. Na verdade, não é contra a virtude que o ato da razão seja, às vezes, interrompida por algo razoável; do contrário, não seria conforme à razão entregar-se ao sono.

No entanto, se a concupiscência e os prazeres sexuais não obedecem ao comando moderador da razão, isso provém da pena do primeiro pecado, porque, rebelando-se contra Deus, a razão mereceu que a carne se rebelasse contra ela, como expõe Agostinho claramente.

3. Como diz, no mesmo lugar, Agostinho, “da concupiscência da carne, filha do pecado, mas que não se imputa aos regenerados como pecado, nasce a criança sujeita ao pecado original”. Não se deduz daí que esse ato seja um pecado, mas que há nele algo de pena, derivada do primeiro pecado.

 

Fonte: ST P2-2Q153A2

One Response to Tomás responde: O ato sexual pode existir sem pecado?

  1. Leitor Atento says:

    Querido(a) bloguista,
    Sou leitor assíduo do seu blog e gostei muito deste artigo. Quero parabenizá-lo pela escolha do assunto e da imagem que o acompanha. Que gracinha(s)!

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