A imagem da Trindade

Andrei Rublev, Trindade (ver final do texto abaixo)

O leitor da Suma não pode não observar que o autor dividiu em duas seções distintas o que tinha a dizer sobre o homem: enquanto as questões 75-89 tratam da natureza normal do homem, as questões 90-102 falam de sua criação (de productione prima hominis). Se for filósofo e um pouco apressado, esse leitor limitará seu estudo à primeira parte e deixará a segunda ao teólogo. Seria um erro fatal que lhe impediria compreender o propósito de seu autor, porque este diz claramente que é em sua qualidade de teólogo que pretende considerar a natureza do homem. Deixando o estudo do corpo ao médico, falará sobretudo da alma e da relação que ela entretém com o seu corpo. Ao mesmo tempo anunciará firmemente que seu estudo do homem não terminará antes que ele tenha falado da imagem de Deus, porque é o fim que Deus se propôs ao criar o homem. Como disse excelentemente um filósofo, Tomás compreendeu o tema da imagem “como a apresentação da causa final da produção do homem. O ser humano foi produzido para ser à imagem de Deus. Se as palavras fim ou termo têm um sentido, deve-se dizer que o ser humano é, foi criado, e portanto querido e concebido finalmente por seu Criador não para ser uma substância pensante, por exemplo, ou um animal racional, mas para ser à sua imagem” (L. B. Geiger, L’homme image de Dieu). Falando de outro modo, na sua exegese de Gênesis 1, 26, o Mestre de Aquino vê em ação e simultaneamente a eficiência e a finalidade: Deus em ato de criação do homem é movido pela intenção de lhe comunicar sua semelhança.

Santo Tomás falou muitas vezes da imagem de Deus nos lugares principais de suas elaborações teológicas, mas parece que ele, mesmo mantendo o fundo comum de suas primeiras pesquisas, esteve em constante progresso graças à atenção renovada com a qual releu a obra de Santo Agostinho.

Enquanto não for tratado ex professo, quase no fim da Prima Pars, o tema da imagem de Deus se encontra desde as primeiras páginas da Suma, e é referindo-se a ele que Tomás esclarece o tipo de semelhança que a criatura pode ter com seu criador. Essas referências precoces são o sinal não-negligenciável de que o tema está presente no pensamento do teólogo mesmo quando não fala dele. Entretanto, e isto não nos admira mais, é a propósito da Trindade e da criação que ele vai dar os passos decisivos. Quando explica por que a Escritura reserva o termo “imagem” para falar do Filho e quando lhe objeta que esse termo é também utilizado para o homem, responde com uma primeira distinção:

 

A imagem de qualquer um se encontra num outro de duas maneiras: seja em algo da mesma natureza segundo a espécie, como a imagem do rei se encontra em seu filho; seja em algo de natureza diferente, como a imagem do rei se encontra na moeda. Ora, é da primeira maneira que o Filho é a imagem do Pai; e da segunda que o homem é a imagem de Deus. Por isso, para significar essa imperfeição da imagem, no homem, não se diz que ele é a imagem, mas é à imagem de Deus. Assim, fica assinalado o movimento de uma tendência à perfeição. Do Filho, ao contrário, não se pode dizer que ele seja à imagem, porque é a perfeita imagem do Pai. (P1Q35A2)

 

Na suposição de que seja necessário procurar razões que expliquem por que Tomás dá tal destaque à noção de imagem – o fato de que isso seja um dado revelado é por si mesmo suficiente -, a nuança aqui introduzida é particularmente esclarecedora. A idéia de uma realidade que não é dada em estado acabado, mas vista como chamada a progredir, corresponde profundamente à sua concepção da natureza que comporta certamente um dado de base estável e germinalmente rico de uma realização futura. O homem existe plenamente só no estado de cultura; assim como a imagem de Deus que está nele será plenamente ela mesma só no estágio perfeito de sua atividade de natureza espiritual.

Naturalmente, encontramos a imagem no desenvolvimento da Suma quando Tomás se interroga sobre a semelhança da criação com seu criador, no vestígio que o Artista divino deixou em sua obra; é nessa ocasião que ele define sua doutrina dos vestígios da Trindade. É agora, no entanto, que se dá um passo decisivo. Se o homem participa também, com a criação inteira, nessa semelhança a modo de vestígio em sua condição corporal, ele tem a mais ser uma imagem propriamente dita da Trindade, porque é dotado de inteligência e de vontade, e portanto pode se encontrar nele um verbo concebido e um amor que procede. Há nisso muito mais que uma simples semelhança exterior; é no nível da mens, o que há de mais espiritual no homem, que se situa a imagem:

 

Dado que a Trindade incriada se distingue pela processão do Verbo da parte de quem o profere e pela processão do Amor de um e de outro… se consideramos a criatura dotada de razão, na qual se encontra a processão do verbo na inteligência e a processão do amor na vontade, pode-se falar de uma imagem da Trindade incriada em virtude de uma representação específica. (P1Q93A6)

[NOTA: Outras passagens são mais explícitas; cf. P1Q45A7: “As processões das Pessoas divinas são consideradas segundo os atos do intelecto e da vontade…, porque o Filho procede como Palavra do intelecto e o Espírito Santo como Amor da vontade. Portanto, nas criaturas dotadas de razão, que têm intelecto e vontade, encontra-se uma representação da Trindade, à maneira de imagem, na medida em que se encontra nelas uma palavra que é concebida e um amor que procede”.]

 

Nesse caso o corpo não tem outra semelhança que a do vestígio, é portanto no nível da alma espiritual que se encontra a imagem. No fato de que ela é como Deus capaz de conhecimento e de amor. Eis um dado de base que se encontra em todo ser humano pelo fato de sua criação, e é ele que funda a analogia de proporcionalidade própria que Tomás desenvolve no texto seguinte. Trata-se aí tão-somente de um ponto de partida, e Tomás não cessa de acumular os ensaios para superar o caráter estático desse dado bruto e pôr em relevo o caráter progressivo e dinâmico da imagem. Ela é também uma realidade em devir, presente na natureza humana como um apelo. Portanto, para sugerir o caráter evolutivo da imagem, além da analogia de proporcionalidade que repousa sobre um dado ontológico indestrutível, Tomás põe em ação uma gradação de conformidade ascendente que abre caminho para um crescimento indefinido:

 

A imagem de Deus no homem poderá ser vista de três maneiras. Primeira, enquanto o homem tem uma aptidão natural para conhecer e amar a Deus, aptidão que reside na natureza da alma espiritual comum a todos os homens. Segunda, enquanto o homem conhece e ama atual ou habitualmente a Deus, embora de maneira imperfeita. Trata-se então da imagem por conformidade de graça. Terceira, enquanto o homem conhece e ama a Deus atual e perfeitamente. Tem-se então a imagem segundo a semelhança da glória. Por isso, comentando a palavra do Salmista: A luz de tua face foi impressa sobre nós, Senhor, a Glosa distingue três espécies de imagens: a da criação, a da nova criação e a da semelhança. – A primeira dessas imagens se encontra em todos os homens, a segunda nos justos somente e a terceira somente entre os bem-aventurados. (P1Q93A4)

 

Como se observou, “esses três aspectos da imagem estão intimamente ligados um ao outro como os três momentos de um mesmo itinerário espiritual. Se Tomás não parece ter chegado de imediato a essa formulação definitiva, pelo menos ele propôs constantemente os graus na sua maneira de compreender a imagem, um supondo o outro e realizando-o num grau superior; e isso mostra que é nesse dinamismo da imagem que consiste seu interesse para a teologia espiritual: “Há duas maneiras de se conformar [à imagem do homem celeste, Cristo; cf. 1Cor 15, 49], uma na vida da graça e outra na vida da glória, sendo a primeira uma via para a segunda (via ad aliam), porque sem a vida da graça não se alcança a vida da glória. Como bem diz um comentarista recente, o homem-imagem não reflete Deus-Trindade à maneira de um espelho, mas à maneira de um ator que imita o modelo que ele representa entrando cada vez mais profundamente na vida de seu personagem.

Tudo isso é verdade, mas para ser plenamente fiel à intuição central de Tomás deve-se ainda dizer mais. Se a doutrina da imagem tem tal importância, é porque ela permite compreender como se realiza na criatura a articulação do exitus e do reditus. Com efeito, se a primeira, a imagem da criação, é o termo da “saída”, a segunda, a imagem da re-criação ou segundo a graça, é aquela por onde começa o “retorno”, inaugurando o movimento que acabará na pátria com a terceira, a imagem da glória, enfim perfeitamente semelhante. É assim que damos ao impulso interno da imagem toda a sua força substituindo-o pelo dinamismo mais amplo do movimento circular infinito que leva até Deus a criação inteira.

A criação inteira – e especificamente as pessoas humanas que entram conscientemente nesse percurso – se encontra assim tomada e levada para o movimento das relações trinitárias, como se vê no ícone da Trindade, de Andrei Rublev (sob a forma do retângulo embaixo do altar que simboliza o universo criado); a criação não está fora, mas no coração da comunhão trinitária. O gênio do pintor alcança sem saber a intuição do teólogo e torna visível alguma coisa dessa circulatio que parte do Pai pelo Filho e volta para ele pelo Espírito levando junto o universo em seu amor.

Fonte: Jean-Pierre Torrel, OP, Santo Tomás de Aquino – Mestre Espiritual, Edições Loyola, 2ª ed.

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5 Responses to A imagem da Trindade

  1. DEUS EXISTE EM TUDO, NA NATUREZA , NOS TRÊS REINOS;ANIMAL VEGETAI E MINERAL.
    NÓS SUAS CRIATURAS,NÃO SONENTE NA SUA IMAGEM E SEMELHANÇA NO FISICO; MANS PRINCIPALMENTE NA PARTE ESPIRITUAL.O INTELECTO POSSUIDOS DE INTELIGÊNCIA A TAL PONTO DE COMPREENDER ALGO QUE NINGUÉM AINDA PODE ESPLICAR, POIS É UM MISTÉRIO DO CRIADOR.CHEGAMOS A TAL PONTO NA ESPIRITUALIDADE MÁXIMA EM QUE A HUMANIDADE ESTÁ SENDO SALVA PELO DEUS TRINO. A ARMONIA DO CRIADOR COM A CRIAÇÃO, O VERDADEIRO PARAISO PROMETIDO POE ELE DESDE A CRIAÇÃO, QUE PELO PECADO DE ADÃO E EVA FOI DISTANCIADO.DEUS JAMAIS IRIA PERDER SUA CRIAÇÃO.
    CHEGOU O MOMENTO EM QUE A CRIAÇÃO É SALVA PELA FÉ NO CRIADOR.
    PAZ E BEM!

  2. David says:

    Não se preocupe, Renato. Também Tomás não se contentava com respostas fáceis, e parece que seu primeiro questionamento interior foi: “Deus existe?”.
    Abraço
    David

  3. Renato says:

    Eu depois de meditar,cheguei a conclusao que estava caminhando para a cegueira.
    Por vezes somos tentados e tentam nos desviar para outro caminho.
    Mas graças a Deus nao fui abandonado.
    Continuo a ser Catolico e fiel a nosso Senhor Jesus Cristo.

    Me desculpem o comentario que escrevi em cima.

  4. Renato says:

    Estou contra essa “imagem”de Deus.
    Isso foi proibido por Deus e no fundo nada mais é que uma provocacao a Deus.
    Deus criou o homem a Sua imagem,isso é certo.Mas em semelhanca do Espirito e nao de uma simples carne humana!

    Eu proprio sou catolico e artista,mas…
    Estou comecando a deixar de ser cego.

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