Cur Deus homo

Agnolo Bronzino, o nascimento de Jesus, 1535-40

Conformes ao propósito dessa iniciação, gostaríamos de fazer descobrir outra face de sua aproximação ao mistério. Sem refazer todo o seu percurso, seria mais esclarecedor retomar aqui a questão que os teólogos se punham desde muito tempo: Cur Deus homo? Por que Deus se fez homem?

Já evocamos a parte mais conhecida da resposta de Mestre Tomás, mas não conseguimos esgotar tudo o que disse sobre esse assunto. Como ele se recusa a falar de uma necessidade pura e simples da encarnação  – uma vez que não podemos limitar a onipotência de Deus, que poderia nos salvar de qualquer outro modo -, procura antes as razões de conveniência que podem ajudar a entender alguma coisa do incompreensível amor que levou Deus a tal extremo. Depois de Santo Agostinho, de Santo Anselmo e de tantos outros, os quais a Escritura orientava nessa direção, ele apela naturalmente à cura da ferida causada pelo pecado (remedium peccati), à restauração (reparatio) da humanidade na amizade com Deus, à satisfação pelo pecado, que aparecem como os motivos mais manifestos. É assim que o tema da satisfação, presente nas Sentenças e perfeitamente formulado no Compendium theologiae, persiste ainda na Suma Teológica:

 

A encarnação liberta o homem da servidão, o que, como Agostinho diz, “teve de ser feito de tal sorte que o demônio fosse vencido pela justiça do homem Jesus Cristo”. E isso se fez pela satisfação de Cristo por nós. Um simples homem não poderia satisfazer por todo o gênero humano; Deus não o devia; portanto era necessário que Jesus Cristo fosse Deus e homem (Homo autem Purus satisfacere non poterat, Deus autem satisfacere non debebat). [O balanço das fórmulas bastaria para revelar o sinal de origem, Anselmo foi nisso apenas um intermediário. Longe de dissimulá-lo, Tomás o anuncia, e após citar Agostinho continua com Leão:] “A fraqueza é assumida pela força, a humildade pela majestade; para que, conforme era necessário para nossa cura, um só e o mesmo mediador entre Deus e os homens (1Tm 2,5) pudesse morrer como homem e ressurgir como Deus. Se não fosse verdadeiro Deus, não poderia trazer-nos o remédio; se não fosse verdadeiro homem, não nos daria o exemplo”.(P3Q1A2)

 

Não obstante sua pertinência e sua persistência, o tema da reparação do equilíbrio perdido pelo pecado corre sempre o risco de favorecer uma visão antropocêntrica das coisas: o pecado parece impor a Deus uma finalidade não prevista por ele. Na busca de uma via nova, Tomás parece tê-la encontrado na Suma contra os gentios, em que sem repudiar o legado tradicional ele se liberta um pouco da carga demasiado pesada das autoridades, para agir de maneira pessoal. Propõe, então, um argumento que, ao menos sob esta forma, parece inédito nesse contexto; convinha que Deus se fizesse homem para dar ao homem a possibilidade de ver a Deus:

 

Se se contempla com atenção e piedade o mistério da encarnação, descobre-se aí um tal abismo de sabedoria que submerge o conhecimento humano. O apóstolo disse bem (1Cor 1,25): A loucura de Deus é mais sábia que os homens. Eis por que àquele que considera as coisas com piedade as razões desse mistério aparecem sempre mais admiráveis. (SCG IV 54, n. 3922)

 

Essas poucas palavras introduzem um longo capítulo, do qual reteremos apenas alguns elementos, mas não se pode ficar insensível à paixão aí incompreendida que os inspira. Apesar da sobriedade do teólogo, deve-se lembrar que se trata do mesmo homem cuja biografia é marcada pelo amor a Cristo Jesus. É a mesma emoção que subjaz ao estrito rigor do raciocínio a seguir:

 

Primeiramente, a encarnação traz para o homem no caminho para a bem-aventurança (ad beatitudinem tendenti) uma ajuda eficacíssima. Já foi dito, a bem-aventurança perfeita do homem consiste na visão imediata de Deus. Em razão da imensa distância das naturezas, poderia parecer impossível que o homem pudesse atingir um tal estado em que o intelecto humano estivesse unido à essência divina de maneira imediata, como o intelecto ao inteligível. Paralisado pelo desespero, o homem, então, se relaxaria em sua busca da bem-aventurança. Mas o fato de que Deus tenha querido se unir em pessoa à natureza humana demonstra com evidência aos homens que é possível estar imediatamente unido a Deus pela inteligência, sendo-o sem intermediário. Convinha, pois, muitíssimo, que Deus assumisse a natureza humana a fim de reavivar a esperança do homem na bem-aventurança. Desse modo, após a encarnação de Cristo, os homens começaram a aspirar mais ardentemente à bem-aventurança celeste conforme o que foi dito (Jo 10,10): vim para que eles tenham a vida e que eles a tenham em abundância. (SCG IV 54, n. 3923)

 

A seqüência imediata desse texto toma em consideração outro argumento, tirado da dignidade do homem que recebe da encarnação uma manifestação brilhante; voltaremos a isso adiante. Mas, para ler as linhas que precedem como devem ser, convém não hipertrofiar sua aparência “intelectualista”. O texto seguinte nos lembrará que a bem-aventurança não é um affaire abstrato concernente unicamente à razão. Ela toma todo homem com suas potências de amar:

 

Uma vez que o homem encontra sua bem-aventurança perfeita na fruição (fruitio) de Deus, era necessário que sua afetividade fosse preparada para o desejo dessa divina fruição, desejo natural da bem-aventurança que constatamos existente no homem. Ora, é o amor por uma coisa que desperta o desejo de fruí-la. Era preciso, pois, que o homem, em marcha para a bem-aventurança perfeita, fosse levado a amar a Deus. Mas nada nos provoca tanto a amar alguém do que fazer a experiência do seu amor por nós. Os homens não podiam, portanto, esperar prova mais eficaz do amor de Deus por eles do que ver Deus se unir ao homem pessoalmente, uma vez que é próprio do amor unir quanto possível o amante ao amado. Era, pois, uma exigência para o homem a caminho para a bem-aventurança que Deus se encarnasse. (SCG IV 54, n. 3926)

 

Não é necessário insistir em que se reconheçam numerosos temas que alimentam nossa meditação até aqui. Reencontraremos logo esse homem desejoso de bem-aventurança, porque é dele que fala Tomás do início ao fim de sua consideração moral. Mas o tema do amor que acaba de lembrar com uma citação implícita do Pseudo-Dionísio parece lhe ter lembrado – mas está longe de ser fortuito – a maneira pela qual Aristóteles fala da amizade:

 

Uma vez que a amizade supõe certa igualdade, não é possível que seres muito diferentes possam se unir em amizade. A fim de que a amizade entre Deus e o homem fosse mais íntima, era oportuno para o homem que Deus se fizesse homem, uma vez que o homem é para o homem um amigo natural. De sorte que conhecendo Deus sob uma forma visível sejamos arrebatados por ele ao amor do Invisível. (SCG IV 54, n. 3927)

 

Bem real, a referência a Aristóteles não deve ofuscar a citação explícita do prefácio do Natal que termina essa passagem e na qual Tomás encontrou provavelmente sua inspiração: Dum visibiliter Deum cognoscimus, in invisibilium amorem rapiamur. Posta sobre o signo da filantropia divina e de sua manifestação pela vinda do Verbo na carne, a celebração litúrgica de Natal era bem adequada para ajudar Tomás a aprofundar sua meditação das conveniências da encarnação. Quando o encontramos em Contra gentiles, esse tema lhe era familiar havia muito tempo, uma vez que se encontra nas Sentenças:

 

A fim de que houvesse uma maneira fácil de subir para Deus, convinha que o homem pudesse se pôr em sua busca (consurgeret), tanto por sua inteligência quanto por sua vontade, a partir do que lhe é conhecido. E porque é conatural ao homem no estado de miséria presente tirar seu conhecimento das realidades visíveis e se apegar a isso, era conveniente (congruenter) que Deus se fizesse visível assumindo a natureza humana. De sorte que a partir das realidades visíveis sejamos levados ao amor e ao conhecimento das realidades invisíveis. (Sent. III d.1 a.2)

 

Sem a referência litúrgica, o tema reaparece uma última vez na Suma Teológica. É, sem dúvida, com um pouco menos de relevo, porque o desejo de síntese que anima essa obra conduziu Tomás a reunir duas importantes séries de razões de conveniências complementares, no que parece ter tido a intenção de nada omitir daquilo que podia dizer a esse propósito. Com um acento levemente diferente, o tema permanece, no entanto, bem presente, cabendo ao leitor restituir-lhe todas as suas consonâncias a partir do que sabe das outras obras:

 

A quinta razão se refere à plena participação na divindade, o que é a verdadeira bem-aventurança do homem e o fim da vida humana. E isso nos foi trazido pela humanidade de Cristo. Com efeito diz Agostinho: “Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus” (Factus est Deus homo, ut homo fieret Deus). (P3Q1A2)

 

Se o final desse texto é um bem comum da patrística, no que nosso autor nada manifesta de originalidade, observe-se, ao contrário, a menção à bem-aventurança, que lhe é um tema muito mais pessoal nesse contexto. Em relação a uma motivação muito estreitamente antropocêntrica da encarnação pelo pecado do homem, a grande diferença consiste evidentemente no desejo de ver Deus que é o vazio deixado nele por seu Criador. O amor que Deus tem pelo homem não se limita a restabelecer, com estreita justiça, o equilíbrio destruído pelo pecado; ele quer ainda mais o sucesso de seu plano de salvação. É assim que a encarnação é vista como uma manuductio, um tomar o homem pela mão para conduzi-lo no caminho de Deus. É esta a “via nova e vivificadora” da qual fala a carta aos Hebreus (10,20):

 

[O apóstolo] mostra como temos a confiança de nos aproximar, porque Cristo por seu sangue inaugurou (initiavit), isto é, começou (inchoavit), para nós uma nova via… É, portanto, a via que leva ao céu. Ela é nova, porque antes de Cristo ninguém a havia encontrado: “ninguém sobe ao céu senão aquele que desce do céu” (Jo 3, 13). Por isso, aquele que quer subir deve se unir a ele como um membro à sua cabeça. … Ela é vivificadora, isto é, ela dura sempre, pelo fato de que nela se manifesta a fecundidade (virtus) da divindade que vive sempre. Qual é esta via, o Apóstolo a indica quando continua: “Através do véu, isto é, de sua carne”. Assim como o sumo sacerdote penetrava no Santo dos Santos para além do véu, assim também se queremos entrar no santuário da glória devemos passar pela carne de Cristo que foi o véu de sua divindade. “És verdadeiramente um Deus escondido!” (Is 45, 15). Não basta crer em Deus se não se crê na encarnação. (In ad Hebraeos 10, 20, lect. 2, n. 502)

 

Sem que a tenhamos jamais abandonado, porque ela aflora em numerosos textos, a temática explícita do caminho manifesta novamente sua importância. Como o desejo da bem-aventurança, ela atravessa totalmente a obra de Tomás. Melhor ainda, reencontramos nesse contexto o movimento circular de cuja fecundidade já tratamos. Esse texto foi citado em parte, mas não se deve temer a repetição, ela valoriza o caráter central da intuição:

 

[Pela encarnação] o homem recebe um exemplo notável dessa união bem-aventurada pela qual o intelecto criado será unido por sua inteligência ao intelecto incriado. Desde que Deus se uniu ao homem assumindo sua natureza, não é mais inacreditável que o intelecto criado possa ser unido a Deus vendo sua essência. É assim que termina de alguma maneira o conjunto da obra de Deus, quando o homem, criado em último lugar, retorna a seu princípio por uma espécie de círculo, estando unido ao princípio das coisas pela obra da encarnação. (Compendium theologiae I 201)

 

Essa pequena escolha de textos poderia ser consideravelmente ampliada. Tal como está, deveria bastar para dissipar as apreensões suscitadas pela situação de Cristo no último lugar no plano da Suma. O teocentrismo de Tomás não remete Cristo à periferia. Ele está exatamente onde deve estar: no centro perfeito de nossa história, na junção entre Deus e o homem. Não como um meio estático, mas como o caminho que sobe para a pátria celeste, como “o príncipe de nossa fé e aquele que a leva à perfeição” (Hb 12, 2), que nos move ao seu seguimento com a força irresistível que impulsiona sua própria humanidade para o Pai.

Fonte: Jean-Pierre Torrel, OP, Santo Tomás de Aquino – Mestre Espiritual, Edições Loyola, 2ª ed.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: