O Artista Divino

Albrecht Dürer, Adoração da Santíssima Trindade, 1511

A doutrina da criação (de Santo Tomás) é cheia de implicações doutrinais e espirituais de todas as espécies que se manifestarão pouco a pouco na continuação destas páginas. A primeira que se oferece à meditação é a de Deus artesão e até artista que imprime em sua obra um vestígio de sua beleza. É um lugar-comum do pensamento medieval, que encontrou sua tradução até na pintura – conhece-se a miniatura da escola de Chartres em que o criador, com o compasso na mão, se põe a fazer uma terra perfeitamente esférica. Não se pode dizer que a arte imita a natureza, uma vez que antes da criação não há nada. Era necessário, portanto, que o criador divino se tomasse a si mesmo por modelo. Sendo reconhecido o princípio geral pelo qual o efeito se assemelha à sua causa e, mais precisamente, a obra a seu autor, se é obrigado a concluir que a criação se assemelha ao criador:

Deus é a causa primeira exemplar de todas as coisas. Para se ter clareza disso é preciso considerar que um exemplar é necessário à produção de uma coisa para que o efeito assuma determinada forma. De fato, o artífice produz determinada forma na matéria por causa do exemplar que tem diante de si, seja ele um exemplar que se vê exteriormente, seja um exemplar concebido interiormente pela mente. Ora, é manifesto que as coisas produzidas pela natureza seguem uma forma determinada. Essa determinação das formas deve ser atribuída como a seu primeiro princípio, à sabedoria divina, que pensou a ordem do universo consistente na disposição diferenciada das coisas. Portanto, é preciso dizer que na sabedoria divina estão as razões de todas as coisas, que acima chamamos de “idéias”, isto é, formas exemplares existentes na mente divina. Embora sejam múltiplas conforme se referem às coisas, não se distinguem da essência divina, uma vez que da semelhança com Deus podem participar diversas coisas de modos variados. Assim, Deus é o primeiro exemplar de tudo. (P1,Q44,A3)

Embora seja aproximativa, a comparação do Artista divino com um artesão desta terra em trabalho de criação é por si mesma altamente evocativa. E mais ainda porque não se pensaria nela numa primeira abordagem, porque é a Trindade que está na origem desta obra de arte que é o mundo, e vimos que cada Pessoa aí participa conforme lhe é próprio segundo a ordem das processões. Se é assim, nova conclusão se impõe: encontrar-se-á necessariamente uma semelhança, um “traço” (vestigium) da Trindade em todas as criaturas e não somente no homem. Apoiado em Santo Agostinho, Tomás não teme afirmá-lo, mas distingue duas maneiras pelas quais um efeito pode se assemelhar à sua causa, como vestígio ou como imagem.

Retomaremos a imagem no capítulo seguinte, mas a doutrina do vestígio é muito rica. Fala-se de vestígio ou de traço quando o efeito representa a causalidade do agente que a produz, mas não sua forma; assim a fumaça ou a cinza evocam o fogo, mas não o reproduzem: “O vestígio mostra que alguém passou por ali, mas não nos diz quem é”. Ele, no entanto, nada é, e isso basta para Tomás assegurar que

em todas as criaturas encontra-se uma representação da Trindade à maneira de vestígio, na medida em que se encontra nelas alguma coisa que deve necessariamente referir às Pessoas divinas como à sua causa… Com efeito, enquanto substância criada, ela representa sua causa e seu princípio, e assim mostra a pessoa do Pai, que é um princípio que não tem princípio. Enquanto ela tem certa forma e espécie, representa o Verbo, pois a forma da obra de arte provém da concepção do artífice. Enquanto ordenada a outros, representa o Espírito Santo como Amor, pois a ordenação de um efeito a algo distinto provém da vontade do criador.(P1,Q45,A7)

Para apoiar esses exemplos cuja inspiração encontra em Agostinho, Tomás se refere com ele à tríade célebre do livro da Sabedoria (11, 21), segundo a qual Deus regulou todas as coisas com número, peso e medida; “a medida se refere à substância de uma coisa limitada a seus próprios elementos, o número à espécie e o peso à ordem”. Segundo ele, poder-se-ia facilmente reduzir a essa tríade muitas explicações propostas por diferentes pensadores, mas ele evita levar muito longe o espírito do sistema até querer encontrá-la por toda a parte. Basta que um ou outro desses elementos esteja presente para que, mantida a Trindade pela fé, seja possível proceder a esse tipo de apropriações.

Santo Tomás explicou muitas vezes essa distinção fundamental entre imagem e vestígio; sem nos deter muito, é preciso sublinhar o interesse espiritual dessa doutrina. Que Deus seja assim reconhecível em seus vestígios na criação é evidentemente o ponto de partida das vias que demonstram a existência de Deus, mas é também permitido entender “reconhecer” no sentido de “confessar”, e, então, se abre o caminho para o louvor e a admiração. Seguindo o salmista, Tomás sabe que os céus cantam a glória de Deus, e ele não é nem o primeiro nem o único. Com Santo Agostinho sobretudo, ao qual remete, mantém que “as criaturas são como palavras que exprimem o único Verbo divino”. Sem ter o brilho de Agostinho e o lirismo de são João da Cruz, que ele também explora, partilha a convicção e a expressa com a sobriedade de seu carisma próprio: “O mundo inteiro não é outra coisa que uma vasta representação da Sabedoria divina concebida no pensamento do Pai”. A preocupação legítima e necessária de definir o estatuto exato desse conhecimento de Deus com base na criação levou muitas vezes a segundo plano entre seus discípulos o sentimento de admiração extasiada que arrebata o crente à vista de todos esses sinais da Trindade, mas nada impede ler o Mestre dessa maneira.

 

Fonte: Jean-Pierre Torrel, OP, Santo Tomás de Aquino – Mestre Espiritual, Edições Loyola, 2ª ed.

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