Tomás responde: O mundo é governado por algo?

O mais antigo ícone conhecido do Cristo Pantocrátor (séc. VI) – Monastério de Santa Catarina, Monte Sinai

Parece que o mundo não é governado por algo:

1) Com efeito, ser governado é próprio dos que são movidos ou que agem em função de um fim. Ora, as coisas naturais, que constituem a maior parte do mundo, não são movidas nem operam em função de um fim, porque não o conhecem. Logo, o mundo não é governado.

2) Além disso, ser governado, propriamente, é próprio dos que são movidos a algo. Ora, não parece que o mundo seja movido para algo, mas que possui em si mesmo sua estabilidade. Logo, não é governado.

3) Ademais, o que tem em si mesmo uma necessidade pela qual é determinado a algo único, não precisa de um agente externo para governá-lo. Ora, as principais partes do mundo estão determinadas, por certa necessidade, a algo único, em seus atos e movimentos. Logo, o mundo não precisa de governo.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, consta no livro da Sabedoria: “Mas Tu, Pai, governas todas as coisas pela providência”. E Boécio diz: “Oh! Tu, que governas o mundo de acordo com um plano eterno!

 

RESPONDO. Alguns filósofos antigos negaram que o mundo seja governado, dizendo que todas as coisas agiam ao acaso. Esta posição mostra-se impossível por dois motivos:

1. Primeiro, em razão daquilo que se manifesta nas próprias coisas. Vemos, com efeito, nas coisas naturais suceder o que é melhor, sempre ou na maioria das vezes. Isso não aconteceria, a não ser que as coisas naturais fossem conduzidas, por uma providência, a um fim bom. Isto é governar. Daí se vê que a própria ordem exata das coisas demonstra, de maneira clara, que o mundo é governado. Segundo a observação de Cícero, citando Aristóteles, quando se entra numa casa bem arrumada, esta arrumação bem ordenada permite perceber a presença orientadora do senhor da casa.

2. Em segundo lugar, o mesmo fica claro, pela consideração da bondade divina, pela qual as coisas foram produzidas no existir, como acima mencionado (Q. 44, a. 4; q. 65, a. 2). Dado que é próprio do excelente produzir coisas excelentes, não convém à bondade soberana de Deus não conduzir à perfeição as coisas por ele produzidas. Ora, a perfeição última de qualquer coisa consiste na consecução do fim. Logo, cabe à divina bondade, assim como produziu as coisas no existir, também conduzi-las ao fim. Isto é governar.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1) Algo é movido, ou opera, em vista de um fim, de duas maneiras: primeiro, como o que se porta a si próprio na direção do fim, como o homem e as outras criaturas racionais. É próprio deles conhecer a razão do fim, e daquilo que é para o fim. Segundo, pode-se dizer que uma coisa é movida ou opera em função de um fim, quando é conduzida ou dirigida ao fim por um outro. Por exemplo, a flecha se move para o alvo dirigida pelo arqueiro, que conhece o fim; a flecha não o conhece. Por isso, assim como o movimento da flecha em direção a um fim determinado evidencia que é dirigida por alguém que conhece, assim também o curso correto das coisas naturais que carecem de conhecimento manifesta claramente que o mundo é governado por uma razão.

2) Em todas as coisas criadas existe algo de estável, pelo manos a matéria primeira; e também algo da ordem do movimento, de modo que entendamos no movimento também a operação. Em ambos os casos, a coisa tem necessidade de ser governada, pois isso mesmo que nas coisas é estável, retornaria ao nada (pois veio do nada) se não fosse preservado pela mão de quem governa, como se verá a seguir.

3) A necessidade natural inerente às coisas que estão determinadas a um único fim é uma marca de Deus que as dirige ao fim. Assim como a necessidade pela qual a flecha é atuada para atingir um determinado alvo é uma marca do arqueiro, e não da flecha. Mas há aí uma diferença; porque o que as criaturas recebem de Deus é a natureza delas; mas aquilo que, pela ação do homem, se imprime nas coisas naturais, sem levar em conta a natureza delas, é da ordem da violência. Portanto, assim como a necessidade da violência no movimento da flecha demonstra a atuação diretiva do arqueiro, da mesma forma a necessidade natural das criaturas demonstra o governo da divina providência.

 

Fonte: ST I, 103, 1

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