Dante encontra Tomás: dia de festa no Paraíso

Philipp Veit, O Céu do Sol, com Dante e Beatriz, Tomás de Aquino, Alberto Magno, Pedro Lombardo e outros, 1817-1827, Casa Massimo, Roma (clique para ampliar)

“Um anho fui da santa grei que chama
De Domingos a voz pelo caminho,
Onde prospera só quem mal não trama.

“Tomás de Aquino sou; me está vizinho,
À destra de Colônia o grande Alberto
A quem de aluno e irmão devo o carinho.

[O primeiro espírito à direita é o de Alberto Magno, de Colônia, que foi o primeiro mestre de Santo Tomás de Aquino]

“Se dos mais todos ser desejas certo,
Na santa c’roa atenta cuidadoso,
A tua vista a voz siga-me perto.

“Nesse esplendor sorri-se jubiloso
Graciano que num e noutro foro
Di’no se fez de ser no céu ditoso.

[Francisco Graciano, monge italiano do século XII, que estudou a relação entre as duas leis, a civil e a canônica]

“Aquele outro ornamento deste coro
Foi Pedro: como a pobre a of’renda escassa,
À Santa Igreja deu rico tesouro.

[Pedro Lombardo, também do século XII, o qual desejou, como a pobre viúva citada por Lucas, que deu suas duas últimas moedas, “renunciar a algo de sua pobreza para o tesouro do Senhor”]

“A quinta luz, que as mais em lustro passa
Se acende em tanta luz, que anela o mundo
Saber se goza da celeste Graça.

“O alto esp’rito encerra, tão profundo,
Que se o vero é verdadeiro,
De saber tanto não se alçou segundo.

[O rei Salomão, autor do “Cântico dos Cânticos”.]

“Ao lado seu lampeja esse luzeiro,
Que os anjos, seu mister, sua natura
Em conhecer na terra foi primeiro.

[Dionísio Areopagita, convertido por São Paulo ao cristianismo]

Ilustração do Paraíso de Dante, Canto X, primeiro círculo dos 12 professores da sabedoria liderada por Tomás de Aquino
Manuscrito: Copenhagen, a Biblioteca Real (século 15)

“Sorri na luz menor, serena e pura,

Dos séculos cristãos esse advogado

De Agostinho tão útil à escritura.

[Paulo Orósio, padre espanhol do século V]

“Se os olhos da tua mente acompanhado
De luz em luz me tens nestes louvores
Saber já tens da oitava desejado.

“Do Sumo Bem se enleva nos fulgores
Essa alma santa, havendo demonstrado
As mentiras do mundo e os seus rigores;

“Jaz daquela alma o corpo despojado
Em Cieldauro; e ela veio à paz divina
Após martírio e exílio amargurado.

[Boécio, senador romano, autor do célebre De consolatione philosophiae, de inspiração estoica, escrito no cárcere]

“Mais longe, em cada flama purpurina,
Beda, Isidoro estão, Ricardo esplende,
Que além do humano o pensamento afina.

[Santo Isidoro, arcebispo de Sevilha, o venerável Beda e o místico Ricardo de San Vittore]

“Esse, de quem tua vista se desprende
A mim tornando, achou, grave e prudente,
Que morte pronta um grande bem compreende:

“É Siger, que assim luz eternamente.
Na rua de Fouare lera outrora
Verdades, que ódio hão provocado ingente.”

[Siger de Brabant, professor de filosofia na Universidade de Paris em fins do século XIII, sofreu censuras dos bispos de Paris e de Roma por adotar o pensamento aristotélico]

E qual relógio, que nos chama em hora,
Em que, desperta, do Senhor a Esposa
Matinas canta e o seu amor implora;

[A Igreja, esposa de Deus, chama Cristo para as orações matinais]

Que, no girar das rodas, tão donosa
Nota faz retinir, de amor enchendo
Devota alma, que o escuta fervorosa;

O glorioso círc’lo, se movendo,
Assim vi eu, com tal suavidade
E doçura de vozes, que comprendo

Só haja iguais do céu na eternidade.

Dante Alighieri, A Divina Comédia, Paraíso, Canto X, 94-148

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