O fim da Cristandade (I): Uma intensa e dolorosa fermentação

Gustave Doré, Canto XIX da Divina Comedia, Inferno (simonia), de Dante Alighieri. Cena: Dante se dirige ao Papa Nicolau III (clique para ampliar)

Leia também: O fim da Cristandade (II): A crise do espírito

Estava a Igreja fatigada pelos esforços que fizera para manter e reforçar a sua autoridade no Ocidente? Tinha esgotado a sua seiva ao multiplicar os grandes empreendimentos? Seja como for, era visível em todos os terrenos que o seu impulso interior já não era o de antes e que havia menos vibração, menos fervor. Bastava olhar em volta para comprová-lo.

Não era só o papado que estava em causa, embora os pontífices se sucedessem, há bastante tempo, a um ritmo demasiado rápido para poderem ser eficazes, e embora as vacâncias da Santa Sé se prolongassem de forma inquietante (dez anos de vacância entre 1241 e 1305), e em breve o papado se transferisse de Roma para Avinhão. A cruzada pertencia agora ao passado; tanto sangue derramado não tinha evitado que o Santo Sepulcro permanecesse em poder dos infiéis. Em 1291, caía São João d’Acre. O zelo dos construtores de catedrais declinava; continuava-se a trabalhar para concluir grandes obras em andamento, mas já não era com o entusiasmo do tempo em que voluntários de todas as classes sociais se ofereciam para transportar pedras e em que os pedidos de contribuição para as catedrais eram acolhidos em toda parte com grande alegria. É certo que existia um testemunho do constante vigor da Cristandade: as missões, que, nesse mesmo período, penetravam nas regiões mais difíceis da África e da Ásia; mas essa admirável aventura era pouco conhecida do grande público cristão.

Havia algo mais grave. Mais uma vez entrava em cena aquela lei humana, demasiado humana, de perpétuo deslizamento, de incessante decadência, que quer que a todo o grande esforço de restauração suceda um período de negligência e abandono. A massa informe que as Ordens mendicantes tinham trabalhado tão bem voltava a cair. O clero retornava aos velhos erros de que, por várias vezes, os reformadores o tinham desviado. É certo que se tinham obtido alguns resultados duráveis e já não havia padres casados; mas, como conseqüência necessária de uma seleção defeituosa numa sociedade em que os costumes tendiam a relaxar-se, havia muitos cujo teor de vida desprovido de dignidade escandalizava mais do que os verdadeiros desregramentos. A negligência no cumprimento dos deveres de estado era outro mal extremamente espalhado; havia muitos bispos cheios de privilégios, muitos cônegos prebendados que não residiam onde deviam e só celebravam missa vez por outra. Quando um príncipe da Igreja possuía quatro ou cinco bispados e três ou quatro abadias, era de duvidar que pudesse cuidar convenientemente, em toda a parte e ao mesmo tempo, dos interesses espirituais das suas ovelhas.

Ali estava o verdadeiro perigo: o gosto pelo lucro gangrenava o clero. Era o vício do tempo, aquele que os grandes burgueses das cidades tinham elevado à categoria de um princípio e que penetrava em todas as classes da sociedade; E isso começava no palácio pontifício, onde não se podia entrar sem que se vissem dezenas de clérigos ocupados em contar peças de ouro, e onde a administração se engenhava em multiplicar taxas que os cobradores recolhiam sem contemplação. O mesmo acontecia com os altos prelados, muitos dos quais tinham como principal preocupação caçar benefícios: cita-se um cardeal que possuía vinte e três. E no degrau mais baixo da escala, agitava-se um proletariado de vigários, de “altaristas”, que viviam miseravelmente da côngrua e que, roídos também pela lepra do lucro, disputavam entre si os restos da mesa dos grandes.

Existem abundantes testemunhos desta rapacidade do clero. É Jacopone de Todi que grita a Celestino V: “Desconfia dos beneficiados, sempre famintos de prebendas; a sua sede é tal que nenhuma bebida a extingue!”. É Dante que lança aos papas do seu tempo esta apóstrofe: “Modelastes um deus de prata e ouro: a diferença que há entre vós e o idólatra é que este adora um deus e vós adorais cem” (Inferno, canto XIX, 112-114). É o cardeal João Le Moyne que faz este severo juízo sobre os prelados: “Hoje nenhum dentre eles, ou infelizmente muito poucos, cuidam de levar os seus rebanhos ao pasto. Pelo contrário, todos pensam em tosquiá-los e ordenhá-los; importam-se com a lã e com o leite, não com as ovelhas”. São testemunhos dolorosos de que se faz eco, de forma irônica, a literatura popular das trovas e do Roman de Renart.

O pior é que a crise não poupava as Ordens que,, nos começos do século XIII, tinham arrancado tão corajosamente a Igreja da rotina. Quando o terrível Jacopone dizia aos seus irmãos em São Francisco: “Ó pobreza pouco amada, poucos homens te desposaram a ponto de renunciarem a um bispado que lhes oferecem!”, todos compreendiam o que ele queria dizer. A virtude do grande ideal de pobreza que permitira a renovação monástica esgotava-se; os religiosos encontravam-se envolvidos no século por exigência da sua própria atividade. Anunciava-se uma crise de novas vocações que se tornaria séria a partir de 1350. E, mais grave, abria-se uma crise de autoridade, de que era um exemplo claro o caso dos espirituais na Ordem de São Francisco, mas que existia mais ou menos por toda a parte, principalmente entre os premonstratenses, cujos membros se faziam “isentar de obediência” aos superiores. O êxito das grandes Ordens expunha-as a essa tentação da riqueza contra a qual o Poverello tivera de lutar: muitos conventos suntuosos, muitas igrejas que pretendiam igualar-se em fausto às dos seculares. Era por causa disso, aliás, que nasciam as mais violentas querelas entre as diversas Ordens e dentro de cada uma delas. Subitamente, o prestígio dos monges, que fora tão grande, encontrava-se muito em baixa. Para nos convencermos disso, bastará ver como o publicista Pierre Dubois os critica nos começos do século XIV.

A situação resumia-se assim: durante séculos, a Igreja tinha sido a mentora da civilização da Cristandade. Mas estava ameaçada de ser absorvida por essa civilização profana avassalada pelo dinheiro dominador, como estivera a ponto de ser absorvida pelo feudalismo antes da reforma gregoriana. Rompia-se o equilíbrio entre o esforço criador da civilização e o ideal cristão de renúncia à terra com vistas ao céu. Era indispensável uma reforma. Assim o diziam os melhores espíritos, como Guilherme, o prefeito de Angers: “A Igreja tem de ser reformada de alto a baixo, tanto na cabeça como nos membros”. Ou o bispo Guilherme Durand, de Mende, que escrevia em 1311: “Se não se realizar uma reforma urgente as coisas irão de mal a pior, e todo esse mal será imputado ao Santo Padre, aos seus cardeais, ao Concílio”. Apelos que, em breve, ecoariam como um trovão na voz inspirada de Catarina de Sena. Era necessária uma reforma, mas seria ela possível?

Esta crise na Igreja teve graves conseqüências. Provocou uma fermentação geral, um borbulhar semelhante ao que se produz nos mostos que se decompõem. Aqui e ali reapareciam os velhos erros, mesmo sem que houvesse relações entre os diversos grupos dos seus promotores. Os Irmãos do Livre Espírito não tinham morrido; reviviam na Alemanha, na Itália e por toda a parte, tal como inúmeras pequenas seitas de doutrinas aberrantes: os “turlupins”, os adamistas e outros. “Toda a mulher casada que não chore a sua virgindade perdida será condenada!”, ensinavam uns. “Há duas palavras funestas: o teu e o meu. É preciso suprimi-las!”, afirmavam outros, partidários de um comunismo integral. Os begardos, movimento que se dedicara a uma autêntica piedade, abrigava agora muitos exaltados que perambulavam gritando: “Brot durch Gott!”: pão por Deus! Os valdenses, que a Inquisição não conseguira submeter, levantavam a cabeça e saíam dos seus vales alpinos. Eclodiam novas heresias, como por exemplo, a dos Irmãos apostólicos, fundada por um franciscano expulso de sua Ordem, Segarelli, que se insurgia contra a Igreja, “refúgio de Satanás, antro do demônio do dinheiro”, e anunciava a sua queda próxima. Toda a região de Parma ficou infestada por esta heresia e, embora prendessem e queimassem o seu fundador e os discípulos mais fervorosos, o movimento continuou a propagar-se, sob a direção de Frei Dolcino, e fez tantos estragos na província de Verceil que o bispo local se viu obrigado a organizar contra esses exaltados uma verdadeira cruzada, que só teve êxito após dois anos de luta armada (1307).

Tais sintomas eram graves: mostravam que esses erros correspondiam a uma expectativa. Muitos bons cristãos perguntavam a si mesmos se os males de que a Cristandade sofria não teriam o valor de sinais; se não anunciavam castigos próximos; se a Igreja, tal como estava organizada temporalmente, não tinha traído a sua missão, e se não seria necessário promover outra coisa, uma sociedade mais pura, mais próxima de Deus, na qual já não seria por meio de uma hierarquia clerical que o Espírito Santo governaria o mundo, mas diretamente, encaminhando as almas fiéis para a sua lei. Um mundo inteiro de devaneios, mais ou menos apocalípticos, bebia nessas fontes, que exaltavam perigosamente os espíritos fracos. E estes encontrariam inesgotáveis alimentos num monge chamado Joaquim de Fiore.

Este Joaquim era, como devemos lembrar-nos, um honesto e piedoso cisterciense que dera provas das mais altas virtudes, mas que tinha uma imaginação excessivamente viva, com uma terrível tendência para o iluminismo. Muitos dos seus contemporâneos o tinham por santo e se interessavam pelas suas teorias, embora o quarto Concílio de Latrão tivesse condenado as suas idéias sobre a Trindade. As suas profecias, porém, não foram condenadas… Segundo a concepção tripartida que tinha da história da humanidade, anunciava que, após a revelação do Pai e depois da do Filho, viria a do Espírito Santo, a última, em que tudo seria perfeito, em que desapareceriam todas as manchas e em que se cumpririam os preceitos do Evangelho eterno. Com precisão, Joaquim fixara para o ano de 1260 o começo do reinado da Terceira Pessoa, que só terminaria no fim do mundo.

Essas idéias, que, aliás, concluíam muito santamente com a necessidade da penitência, percorreram a Cristandade inteira. Como estavam em sintonia com o sentido da reforma, as autoridades não as combateram. Mas a partir da data fatídica, 1260, foram retomadas e ampliadas por certos franciscanos que se intitulavam os Espirituais. Sabe-se que, já em vida de São Francisco e sobretudo depois de sua morte, surgira o seguinte problema: era possível que uma congregação tão numerosa como a franciscana subsistisse nesse sublime anarquismo que fora o ideal do fundador? Não era preciso introduzir na Regra algumas modificações? Foi o que aconteceu. Mas persistiu na Ordem uma tendência que preconizava a aplicação estrita da Regra, da renúncia total, da heróica e santa pobreza – a dos “espirituais”. O seu principal porta-voz era, em meados do século XIII, Gerardo de Borgo San Donnino, que, levando essas idéias ao extremo, insurgia-se contra toda a propriedade eclesiástica dos religiosos e, principalmente, fazia uma estranha mistura dos temas franciscanos com os de Joaquim de Fiore. No seu livro Introdução ao Evangelho eterno, anunciava que a terceira idade da humanidade seria a de São Francisco, que o Poverello era “o anjo do sexto selo” de que fala o apocalipse, e que eles, os franciscanos espirituais, em breve governariam a terra inteira e instalariam nela o reino de Deus.

Embora Alexandre IV tivesse condenado esses devaneios desde 1255, e o sábio São Boaventura se tivesse esforçado por manter a Ordem num termo médio, o movimento “espiritual” ganhou terreno. Os principais focos foram o Languedoc, com Pedro João Oliva, a Toscana, com Ubertino de Casale, e a Marca de Ancona, com Ângelo Clareno. Durante o seu breve pontificado, Celestino V autorizou os “espirituais” a formarem um ramo à parte na ordem franciscana, mas Bonifácio VIII anulou a autorização e mandou recolhê-los ao redil. Muitos recusaram. Os “espirituais” (designados agora com a alcunha desdenhosa de fraticelli) estavam possuídos de uma extraordinária exaltação, uma exaltação que Jacopone de Todi traduzia em laudes sublimes e veementes. A sincera e generosa aspiração por um cristianismo mais puro transformava-se numa penosa rebelião, de onde derivavam os maiores insultos contra a Igreja. E, o que é pior ainda, no seu conflito com o papado, estes “espirituais” aliaram-se aos Colonna contra Bonifácio VIII e, mais tarde, a Luís de Baviera contra João XXII.

Desde então, tratados como rebeldes e como hereges, os “espirituais” tornaram-se caça da Inquisição. Os primeiros a serem condenados foram os de Ancona, apesar da santidade real de vários deles, e apesar de o ministro-geral Gaufredi ter murmurado, ao ler o veredito que os castigava: “Possamos todos nós ser culpados deste mesmo crime…”. Mas era pelo crime de amar a pobreza que os censuravam? A seguir, foram castigados os da Toscana. O caso mais grave ocorreu no Languedoc, onde numerosos elementos do antigo catarismo se tinham infiltrado entre os fraticelli. A partir de 1316, organizaram-se processos-monstro em Narbonne, Béziers e Marselha, e uma das vítimas mais ilustres foi o franciscano Bernardo Délicieux, que aproveitou a ocasião para criticar abertamente a Inquisição, antes de ser condenado à prisão perpétua. Alguns dos irmãos foram queimados.

Mas o movimento não desapareceu. Orientando-se cada vez mais no sentido de uma recusa da Igreja estabelecida, para a qual se pedia a destruição vinda do céu, a corrente “espiritual”, nos princípios do século XIV, continuava a rebrotar aqui e acolá, sempre ameaçadora. Assim, em 1322, dava origem nas margens do Reno à seita dos lollards, fundada pelo holandês Lollard Walter, que foi preso e queimado. E esta fermentação não cessaria até o aparecimento do protestantismo.

Mas nem tudo foi prejudicial para a Igreja nesta dolorosa agitação. Na própria Ordem de São Francisco houve almas santas que se aplicaram a realizar o ideal dos “espirituais” sem caírem nos seus erros. Por volta de 1334, esboçou-se o movimento da Observância com João de Valle, e sobretudo com o bem-aventurado Paoluccio de Trinci; movimento ao qual São Bernardino de Sena imprimiria um maravilhoso impulso sessenta anos mais tarde. De maneira mais ampla, esta fermentação contribuiu para uma renovação mística de grande importância nesta época, como veremos. Mas nem por isso podemos deixar de notar que se tratou de uma crise profunda, que revelava até que ponto a alma da Cristandade estava perturbada e mergulhada na incerteza, se não quanto ao seu objetivo, pelo menos quanto aos seus métodos. E por isso era grave. Tanto mais que, simultaneamente, se produzia uma crise ainda pior – a do espírito.

Fonte: Daniel-Rops, A Igreja das Catedrais e das Cruzadas, Quadrante, 1993, págs 616-622.

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