Os grandes temas da Idade Média (III): A razão

A “deusa razão”, representada por uma prostituta, sendo carregada pelas ruas de Paris

“Se Deus é logos, segundo São João, e o homem também vem definido pelo logos, há adequação entre ambos e é possível um conhecimento da essência divina; pode haver uma teologia racional, embora fundada sobre os dados da revelação.”

“No momento em que o nominalismo de Ockham reduziu a razão a uma coisa de foro íntimo do homem, uma determinação sua puramente humana, e não essência da Divindade, neste momento o espírito humano também fica segregado desta. Portanto, sozinho, sem mundo e sem Deus, o espírito humano começa a se sentir inseguro no universo” (Zubiri: Hegel y El problema metafísico).

O logos aparece como um motivo cristão essencial desde os primeiros momentos. O começo do Evangelho de São João diz taxativamente que no princípio era o verbo, o logos, e que Deus era o logos. Isso quer dizer que Deus é, em primeiro lugar, palavra, e, ademais, razão. Isso coloca vários problemas particularmente importantes, sobretudo a posição do homem.

Que é o homem? É um ente finito, uma criatura, um ens creatum, uma coisa entre as demais; é, como o mundo, algo finito e contingente. Mas, ao mesmo tempo, o homem é logos: segundo toda a tradição helênica, o homem é um animal que tem logos. Por um lado, portanto, é uma coisa a mais no mundo; mas, por outro lado, sabe o mundo todo, como Deus, e tem logos, como ele. Qual a relação com Deus e com o mundo? É uma relação essencialmente equívoca; já que por um lado é um ente que participa do ser no sentido das criaturas, e por outro, é um espírito capaz de saber o que é o mundo, um ente que é logos. A Idade Média vai dizer que o homem é um certo intermediário entre o nada e Deus: medium quid inter nihilum et Deum. Além disso, essa peculiar situação do homem já está indicada desde o Gênesis: Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram. O homem está feito à imagem e semelhança de Deus. Ou seja, a idéia do homem, o modelo exemplar segundo o qual está criado, é Deus ele mesmo. Por isso mestre Eckhart dizia que no homem há algo, uma centelha – scintilla, Funken – que é incriada e incriável. Essa afirmação foi interpretada como uma exclusão do ser criado no homem, portanto como panteísmo, e foi condenada; mas seu sentido correto, como Zubiri demonstrou claramente, é o de que o homem tem uma scintilla incriada e incriável, ou seja, sua própria idéia; e isso é completamente ortodoxo.

Que conseqüências terá para a filosofia esse horizonte em que se move o cristianismo? Para conhecer a verdade é preciso entrar em si mesmo, é preciso se interiorizar, como já vimos em Santo Agostinho. Intra in cubiculum mentis tuae, dirá também Santo Anselmo. De acordo com isso, o pior que o homem pode fazer para conhecer é olhar as coisas do mundo, porque a verdade não está nas coisas, mas em Deus, e Deus, o homem encontra em si mesmo. E como a verdade é Deus, a via para chegar a ela é a caritas: só pelo amor chegamos a Deus, e só Deus é a verdade, não é outro o sentido do fides quaerens intellectum de Santo Anselmo; São Boaventura vai chamar a filosofia de caminho da mente para Deus (Itinerarium mentis in Deum), e se parte da fé. Assim fica especificada a situação da filosofia medieval em seus primeiros séculos.

Em Santo Tomás, a teoria é um saber especulativo, racional. A teologia é de fé na medida em que é construída sobre dados sobrenaturais, revelados; mas o homem trabalha com eles com sua razão, para interpretá-los e alcançar um saber teológico. Supõe-se, portanto, que há uma adequação perfeita entre o que Deus é e a razão humana. Se Deus é logos, segundo São João, e o homem também vem definido pelo logos, há adequação entre ambos e é possível um conhecimento da essência divina; pode haver uma teologia racional, embora fundada sobre os dados da revelação. Pois bem, se a teologia e a filosofia tratam de Deus, em que se diferenciam? Santo Tomás diz que o objeto material da teologia e da filosofia pode ser o mesmo quando falam de Deus; mas o objeto formal é distinto. A teologia tem acesso ao ente divino por outros caminhos que a filosofia, e portanto, embora esse ente seja numericamente o mesmo, trata-se de dois objetos formais distintos.

Dessa situação de equilíbrio em Santo Tomás passa-se para uma muito diferente em Duns Escoto e em Ockham. Em Duns Escoto, a teologia não é mais ciência especulativa, mas prática e moralizadora. O homem, que é razão, fará uma filosofia racional, porque aqui se trata de um logos. Em contraposição, a teologia é sobrenatural; a razão pouco tem a fazer nela; é, antes de tudo, práxis.

Em Ockham se acentuam estas tendências escotistas. Para Ockham, a razão será um assunto exclusivamente humano. A razão é, sim, própria do homem, mas não de Deus; este é onipotente e não pode estar submetido a nenhuma lei, nem sequer à da razão. Isso lhe parece uma limitação inadmissível do arbítrio divino. As coisas são como são, até mesmo verdadeiras ou boas, porque Deus quer; se Deus quisesse que matar fosse bom, ou que 2 mais 2 fossem 19, seriam – chegarão a dizer os continuadores do ockhamismo. Ockham é voluntarista e não admite nada acima da vontade divina, nem mesmo a razão. “A partir desse momento, a especulação metafísica se lança, por assim dizer, numa vertiginosa carreira, na qual o logos, que começou sendo essência de Deus, vai terminar sendo simplesmente essência do homem. É o momento, no século XIV, em que Ockham vai afirmar, de maneira textual e taxativa, que a essência da Divindade é arbitrariedade, livre-arbítrio, onipotência, e que, portanto, a necessidade racional é uma propriedade exclusiva dos conceitos humanos.” “No momento em que o nominalismo de Ockham reduziu a razão a uma coisa de foro íntimo do homem, uma determinação sua puramente humana, e não essência da Divindade, neste momento o espírito humano também fica segregado desta. Portanto, sozinho, sem mundo e sem Deus, o espírito humano começa a se sentir inseguro no universo” (Zubiri: Hegel y El problema metafísico).

Se Deus não é razão, a razão humana não pode se ocupar dele. A Divindade deixa de ser o grande tema teórico do homem no final da Idade Média, e isso o separa de Deus. A razão volta-se para os objetos aos quais é adequada, aqueles que pode alcançar. Quais são eles? Antes de tudo, o próprio homem; em segundo lugar, o mundo, cuja maravilhosa estrutura começa a ser descoberta então: estrutura não só racional, mas matemática. O conhecimento simbólico a que o nominalismo nos levou se adapta à índole matemática da natureza. E esse mundo independente de Deus – de quem recebeu seu impulso criador, mas que não tem de conservá-lo – transforma-se no outro grande objeto para o qual se volta a razão humana, ao se tornar inacessível à Divindade. O homem e o mundo são os dois grandes temas: por isso o humanismo e a ciência da natureza, a física moderna, serão as duas ocupações magnas do homem renascentista, que se encontra afastado de Deus.

Vemos, pois, como toda a história da filosofia medieval, tomada em suas três questões mais profundas, a da criação, a dos universais e a da razão, conduz unitariamente para essa nova situação com que se encontra a metafísica moderna.

Fonte: Julián Marías, História da Filosofia, Martins Fontes, 1ª edição, págs 147-150.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: