A ação dos anjos sobre os homens (III): O anjo pode agir sobre a imaginação do homem?

Giotto di Bondone (1266-1337), Vida de Cristo, Lamentação, Capela Scrovegni de Pádua, detalhe (clique para ampliar)

Parece que o anjo não pode agir sobre a imaginação do homem:

1. Com efeito, segundo o livro da Alma, a fantasia é “um movimento realizado pelo sentido em ato”. Ora, se fosse feito por uma ação causada pelo anjo, não teria sido feita pelo sentido em ato.

2. Além disso, as formas que estão na imaginação, por serem espirituais, são mais nobres que aquelas que estão na matéria sensível. Ora, os anjos não podem imprimir formas na matéria sensível, como ficou dito (q. 110, a. 2). Logo, não podem imprimir formas na imaginação; e assim não podem sequer agir sobre ela.

3. Ademais, conforme Agostinho, “quando um espírito se une a outro, é possível que comunique a ele o que sabe, graças às imagens que possui, seja levando-o a entendê-las, seja a aceitá-las como quem aprende”. Ora, não parece que um anjo possa se unir à imaginação de um homem e nem que esta possa apreender os inteligíveis que o anjo conhece. Logo, parece que o anjo não pode agir sobre a imaginação.

4. Ademais, na visão imaginária, o homem adere às representações das coisas como se fossem as próprias coisas. Ora, nisso há algum engano. Logo, como é impossível que um anjo bom seja causa de engano, parece que não pode causar uma visão imaginária agindo sobre a imaginação.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o que aparece em sonhos é visto por uma visão imaginária. Ora, há coisas que os anjos revelam em sonhos, como aconteceu com José a quem o anjo apareceu em sonhos. Portanto, os anjos podem mover a imaginação.

RESPONDO. O anjo, bom ou mau, pode, em virtude de sua natureza, mover a imaginação do homem. Isso pode ser assim considerado. Acima foi dito (q. 110, a. 3) que a natureza corporal obedece ao anjo quanto ao movimento local. Logo, tudo o que pode ser causado pelo movimento local de alguns corpos está sujeito à potência natural dos anjos. É evidente que as aparições imaginárias são causadas às vezes em nós pela ação local de espíritos e humores corporais. Por isso Aristóteles, no livro do Sono e da Vigília, assinalando a causa dos sonhos, diz que “quando o animal dorme, pelo fato de descer muito sangue ao princípio sensitivo, ao mesmo tempo descem os movimentos”, isto é, as impressões deixadas pelas sensações, que se conservam nos espíritos sensíveis, “e que movem o princípio sensitivo”: de tal modo se dá uma aparição, como se as próprias coisas exteriores agissem sobre o princípio sensitivo. A comoção dos espíritos e humores pode ser tão forte que tais aparições ocorram até em pessoas acordadas, como acontece nos que padecem de delírios e em outros semelhantes. Portanto, assim como isso é o efeito de uma comoção natural dos humores, e mesmo por vezes da vontade do homem que voluntariamente imagina o que antes sentira, assim também isso pode ser o efeito da potência de um anjo bom ou mau, às vezes com suspensão dos sentidos ou mesmo sem ela*.

* Nota: Se a verdade divina só pode ser proposta mediante uma representação sensível, o poder do anjo sobre a imaginação e sobre a formação de imagens é pressuposto em seu papel iluminador. Esse poder chega a dar às visões ou palavras interiores que ele provoca toda a força e objetividade que tem a percepção da realidade exterior, seja ou não em um estado de alienação dos sentidos. Como se vê, Sto. Tomás atribui aos anjos tão somente o papel de utilizar e colocar em operação e em movimento as imagens já presentes no espírito daquele que vê, e isso ativando a função natural da imaginação. É o que as respostas às objeções detalham de maneira extremamente interessante e fácil de atualizar.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. O primeiro princípio da fantasia tem sua origem no sentido em ato. De fato, não podemos imaginar aquilo que não sentimos de forma alguma, total ou parcialmente que seja. Por exemplo, o cego de nascença não pode imaginar a cor. Todavia, às vezes a imaginação é informada, como foi dito, pelas impressões interiormente conservadas, de modo que surja o ato da fantasia.

2. O anjo age sobre a imaginação, não certamente imprimindo nela alguma forma imaginária que de modo algum teria antes sido recebida pelos sentidos, pois não pode fazer que um cego imagine as cores; mas faz isso mediante o movimento local dos espíritos e humores, conforme foi dito.

3. A união do espírito do anjo com a imaginação humana não é pela essência, mas, pelo efeito que faz na imaginação pelo modo dito, à qual manifesta o que conhece, mas não do modo pelo qual conhece.

4. O anjo que causa a visão imaginária às vezes ilumina ao mesmo tempo o intelecto, para que conheça o que é significado por essas imagens, e então não há engano algum. Outras vezes o anjo faz aparecer na imaginação somente semelhanças das coisas. Nem mesmo então o engano é devido ao anjo, mas a uma deficiência do intelecto daquele a quem tais coisas aparecem. Assim nem Cristo foi causa de engano em ter proposto em parábolas muitas coisas às multidões, sem lhes explicar.

Fonte: ST I, 111, 3

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One Response to A ação dos anjos sobre os homens (III): O anjo pode agir sobre a imaginação do homem?

  1. O que creio é que a Visão Interior do ser humano pode transportar sua essência a rincões desconhecidos ao intelecto. Até a Física Quântica já admite dimensões de matéria invisível e sutil, as quais poderiam ser povoadas por inteligências em diverso grau de energia.

    Não seria nada difícil supor que a essência mental-espiritual humana, mais sutil, poderia acessar tais dimensões espirituais sem dificuldade alguma.

    Desraco, entre os anjos maus mais atuantes na imaginação do homem hipermaterialista os Lilim.

    Abçs e a Paz de Cristo!!

    Ebrael.

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