Tomás responde: O Filho é igual ao Pai em grandeza?

Cristo Pantocrator, Catedral de Monreale, Sicília, Itália (clique para ampliar)

Parece que o Filho não é igual ao Pai em grandeza:

1. Com efeito, ele próprio diz: “O Pai é maior do que eu” (Jo 14, 28). E o Apóstolo, na primeira Carta aos Coríntios: “O próprio Filho será submetido àquele que tudo lhe submeteu” (18, 28).

2. Além disso, a paternidade faz parte da dignidade do Pai. Ora, a paternidade não convém ao Filho. Portanto, o Filho não possui toda a dignidade do Pai. Logo, ele não é igual ao Pai em grandeza.

3. Ademais, onde há todo e parte, várias partes são mais do que um só ou que um número menor dessas partes. Por exemplo, três homens fazem um total maior do que dois homens ou um só. Ora, parece que em Deus há um todo universal e partes: pois sob o termo relação ou noção estão compreendidas várias noções. E porque no Pai há três noções, e duas somente no Filho, parece, portanto, que o Filho não é igual ao Pai.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz a Carta aos Filipenses: “Não julgou que fosse usurpação ser ele igual a Deus” (2, 6).

RESPONDO. É necessário dizer que o Filho é igual ao Pai em grandeza. Com efeito, a grandeza de Deus nada mais é que a perfeição de sua natureza. É da razão da paternidade e filiação que, por sua geração, o filho chegue a ter a perfeição da natureza do pai, como o pai a possui. Mas porque nos homens, a geração é uma mudança que faz passar o sujeito da potência ao ato, o filho não é desde o começo igual ao pai que o gera. É por um crescimento conveniente que ele chega a tal igualdade, a não ser que aconteça diferentemente devido a um defeito do princípio gerador. É claro, pois, pelo que foi dito, que em Deus há, própria e verdadeiramente, paternidade e filiação. E não é possível admitir uma falha no poder de Deus Pai, em seu ato gerador, nem que o Filho de Deus tenha chegado à sua perfeição por mudanças sucessivas. Portanto, deve-se afirmar que, desde toda eternidade, o Filho foi igual ao Pai em grandeza. É por isso que Hilário escreve: “Afastai as enfermidades do corpo, afastai o início da concepção, afastai as dores e toda necessidade humana: todo filho, pelo nascimento natural, é igual ao pai, pois ele é a semelhança de sua natureza”.

Quanto às objeções iniciais deve-se dizer, portanto, que:

1. Aquelas palavras se entendem de Cristo em sua natureza humana, na qual de fato ele é inferior ao Pai e lhe é submisso. Mas em sua natureza divina ele é igual ao Pai. É o que diz Atanásio: “Igual ao Pai, pela divindade, menor que o Pai, pela humanidade”. Ou, como diz Hilário: “Por sua autoridade de Doador o Pai é maior; mas menor não é aquele a quem foi dado o mesmo ser”. E explica: “A submissão doFilho é sua piedade natural”, isto é, o reconhecimento da autoridade paterna. “Mas a submissão de todos os outros é fraqueza da criação”.

2. A igualdade diz respeito à grandeza. Ora, a grandeza em Deus significa a perfeição da natureza, como foi dito, e pertence à essência. Assim, em Deus igualdade e semelhança dizem respeito aos atributos essenciais, e não se pode falar de desigualdade ou de dessemelhança a propósito das distinções relativas. Agostinho diz: “A questão de origem é: o que procede do que; a questão de igualdade é: qual é ela e de qual grandeza”. Portanto, se a paternidade é uma dignidade do Pai, como também é a essência do Pai: a dignidade é, com efeito, um atributo absoluto que pertence à essência. E, como a mesma essência é paternidade no Pai e filiação no Filho, assim a mesma dignidade que no Pai é a paternidade, é no filho a filiação. Portanto, com verdade se diz que toda dignidade que o Pai tem, o Filho tem. Não se pode daí deduzir: o Pai possui a paternidade, logo o Filho possui a paternidade, porque se passa, assim, do absoluto (quid) ao relativo (ad aliquid). O Pai e o Filho têm a mesma essência e dignidade, mas no Pai segundo a relação de quem dá, e no Filho, de quem recebe.

3. Em deus, a relação não é um todo universal, embora seja atribuída a diversas relações, pois todas essas relações são uma única coisa na essência e no ser, o que vai contra a razão de universal, cujas partes são distintas segundo o ser. Igualmente, como acima foi dito, em Deus, pessoa não é um universal. Por conseguinte, todas as relações não são algo maior do que uma só delas, nem todas as pessoas são algo maior do que uma só, pois cada pessoa possui toda a perfeição da natureza divina.

Fonte: ST I, 42, 4

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