Uma arte oratória bem sucedida: a pregação

O púlpito de Siena, feito em mármore de Carrara, foi esculpido em 1265, por Nicola Pisano e seu filho, Giovanni Pisano, bem como seus assistentes Arnolfo di Cambio, Lapo di Ricevuto e vários outros artistas. É a obra mais antiga da igreja. Nicola Pisano ganhou essa encomenda a partir de seu trabalho no púlpito de Pisa. Esse em Siena é mais ambicioso e é considerado sua obra-prima. Toda a mensagem do púlpito é centrada na doutrina da Salvação e no Julgamento Final. A escadaria foi feita em 1543 por Bartolomea Neroni. Mostra as influência do Gótico do norte, adaptados por Pisano, e ainda várias influências clássicas.
O chão em opus sectile é um dos mais decorados da Itália e cobre toda a área da Catedral. Sua construção durou dois séculos e quarenta artistas trabalharam na obra. São 56 painéis em diferentes tamanhos. O chão inteiro pode ser visto apenas durante três semanas ao ano. Para o proteger, no resto do ano, o pavimento é coberto e poucas áreas podem ser vistas.

Como é que a Igreja difunde as grandes noções dogmáticas que estão na base destas devoções, os dados da Escritura e da hagiografia? Essencialmente, pela pregação, cuja importância na época só compreenderemos se abstrairmos dos nossos hábitos modernos. Hoje, cada um de nós tem à sua disposição numerosos e cômodos meios de informação e entretenimento, mas devemos lembrar-nos de que na Idade Média não existiam jornais, nem rádio, nem televisão, nem cinema, nem reuniões políticas. Tudo isso, que absorve muito tempo e atenção dos nossos contemporâneos, era substituído naquela época pelas cerimônias da Igreja. Por mais paradoxal que possa parecer, na Idade Média as recreações instrutivas eram a Missa e o sermão!

Ao longo dos tempos confusos que se tinham seguido à decadência carolíngia, a pregação tinha sido quase abandonada. Enquanto possuímos muitos sermões dos séculos IV, V e VI, é com muita dificuldade que podemos citar alguns posteriores, até que no século XII o gênero readquire a sua importância. Este renascimento deve-se, certamente, ao mesmo impulso que a levantava em todos os âmbitos a alma deste tempo, bem como à sede de conhecer as coisas de Deus. A pregação reaparece primeiro nos meios religiosos, em que os mestres do século XII se dirigem a uma elite de clérigos. Não demora, porém, a sair dos capítulos e mosteiros: Pedro o Calvo († 1197), Maurício de Sully, bispo de Paris († 1196), Raul Ardent († 1101), cuja “palavra era um gládio”, dirigem-se às multidões (1).

A partir deste momento, a pregação experimenta um desenvolvimento inaudito, e é a ela que numerosas celebridades religiosas da época devem a sua glória. São Norberto, fundador dos premonstratenses, São Bernardo, voz poderosa num corpo frágil, São Francisco de Assis, São Domingos, são oradores que fazem acorrer as multidões. O mais célebre é Santo Antônio, dito de Pádua, de origem portuguesa, orador sacro de categoria internacional. Também foram pregadores célebres São Boaventura e Santo Tomás de Aquino, Pedro o Eremita, Foulques de Neuilly, Gilberto de Nogent, Urbano II e Inocêncio III, bem como esse Guichard de Beaujeu que foi qualificado pelos seus ouvintes, talvez um tanto indulgentes, como o “Homero dos leigos”. Mesmo quando coligidos por escrito – e Deus bem sabe até que ponto são indigestos nesta forma! -, os sermões são lidos, estudados, comentados, como acontece com o Miroir de l’Église, de Honório de Autun († 1129), compilação de sermões para cada dia do ano, escritos num latim sofrível e vagamente rimado, mas que Émile Mâle demonstrou ter influenciado muitos artistas.

Prega-se incessantemente a partir do século XII. Todas as ocasiões são oportunas: na missa, nas peregrinações, nas cerimônias religiosas, nas tomadas de hábito ou na consagração das igrejas, como também nas cerimônias civis, nas coroações, nos enterros, nas negociações de paz e até nos torneios. Prega-se nas feiras, do alto das pontes e nas esquinas das ruas. Nas praças, é freqüente construírem-se púlpitos de pedra ou instalar-se um estrado de madeira.

Púlpito de Siena (clique para ampliar)

E como se desenvolve um sermão na Idade Média? Certamente não tem nenhuma relação com a nobre arte de Bossuet. Parece-se mais com as pregações enérgicas e vigorosas que um São Cesário de Arles ou um Santo Hilário de Poitiers pronunciavam diante de auditórios apaixonados. O tom é vivo, cheio de familiaridade e confiança, e por vezes chega a aproximar-se da trivialidade e da bufonaria. Para atrair a atenção, o orador não hesita em intercalar notícias grandes e pequenas de que teve conhecimento ao longo das suas viagens. Anunciará, por exemplo, a tomada de Jerusalém pelos cruzados ou a humilhação do imperados em Canossa, mas também um incidente cômico que agitou o mercado da cidade vizinha ou a história da vaca que teve quatro bezerros. E se é o pároco que fala às suas ovelhas, será capaz de aludir aos pequenos e até grandes escândalos, porque todos gostam de reconhecer neles o seu vizinho.

Mas se o orador toma essas liberdades, o público não lhe fica atrás. O sermão é uma espécie de melodrama em que se chora e se ri, e em que a assistência intervém de vez em quando. Se o pregador expõe uma tese que surpreende, interrompem-no e fazem-lhe perguntas. Um dia em que um dominicano desenvolvia a idéia de que a mulher de Pilatos, cujo papel no processo de Cristo foi bastante apagado, teria podido, com a sua intervenção, impedir o sacrifício da cruz e, por conseguinte, pôr obstáculo à nossa Redenção, uma castelã levantou-se indignada e saiu, declarando que não estava disposta a ouvir insultos ao seu sexo!

Este molho apimentado serve para fazer tragar o prato principal, que é copioso… A finalidade é com certeza ensinar as verdades da religião, mas sem a menor preocupação de apresentá-las metodicamente. Na maior parte do tempo, o pregador desfia desordenadamente citações bíblicas, comentários patrísticos ou pessoais, alegorias, pequenas histórias. A Sagrada escritura ocupa o primeiro lugar neste pot-pourri: “Os dois Testamentos são os peitos. Pregadores, bebei!”, exclamava Hildeberto. Os textos bíblicos são, pois, citados em abundância, e servem como argumentos decisivos. Mas a todos eles se atribuem pelo menos quatro sentidos. Quando, por exemplo, o pregador fala de Jerusalém, tanto pode querer designar a cidade propriamente dita como a Santa Igreja de que ela é a figura, ou a alma do fiel que aspira a possuir Deus – como a capital judaica possuía o Templo -, ou, enfim, o lugar inefável em que o eleito contempla a Deus. Esta simbologia seria complicada para os ouvintes? De qualquer modo, era a usual (2), e aliás completava-se com muitos outros dados igualmente sutis, como a significação secreta das plantas e dos animais, das pedras preciosas, dos astros e de mil outras coisas mais, não menos apaixonantes…

Felizmente, para desanuviar o ambiente e tornar as lições mais acessíveis, existem os “exemplos”, os episódios e os apólogos. Uns tirados da história, da crônica cotidiana, das lendas; outros das fábulas, como a da raposa e o corvo, a do sapateiro e do ricaço, a da leiteira e do pote de leite, a da rã que queria ser do tamanho do boi. Todos os sermões medievais transbordam de vida, de cor, e terminam com uma mensagem moral edificante, facilmente compreensível. Como estranhar que, em tais condições, um bom sermão durasse tranquilamente duas horas?

Fonte: Daniel-Rops, A Igreja das Catedrais e das Cruzadas, Quadrante, 1993, págs 64-66.

(1) O púlpito, tribuna especialmente prevista para falar, parece ter sido inventado pelos dominicanos na sua igreja de Toulouse. Antes, existiam ambões, tribunas baixas, situadas no coro, que serviam principalmente para as leituras da Epístola e do Evangelho. É no século XV que se generaliza o uso do púlpito (móvel ou fixo), embora os liturgistas continuem a ignorá-lo. (G. A. Lecoy de La Marche, La chaire française au Moyen Âge, Paris, 1886).

(2) Havia manuais para orientar os pregadores mais jovens ou menos experientes. Alain de Lille, Pedro de Limoges e Santo Antônio de Pádua compuseram alguns, volumosos como dicionários; mais tarde, foram escritos os de Guilherme de Mailly, Nicolau de Gorran, João de San Giminiano, autor do Universum praedicabile, cujo título já de per si é um programa! Em 1303, um decreto do Reitor da Universidade de Paris fixará taxas de aluguel para estes “sermológios”, tal a quantidade de amadores que os pediam emprestados à biblioteca.

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