Os grandes temas da Idade Média (II): A criação

Na imagem temos uma amostra das mais velhas galáxias jamais vistas opcticamente, formadas há 13 mil milhões de anos, quando o Universo tinha apenas 5% da sua idade actual. O tempo de exposição da imgem é de loucos: três meses a olhar sempre o mesmo local (!), permite-nos, através do seu estudo, perceber melhor como as estrelas e as galáxias se formaram no início do Universo.
Leia também: Os grandes temas da Idade Média (I): Os universais

O cristão parte de uma posição essencialmente distinta da grega, ou seja, da niilidade do mundo. Em outras palavras, o mundo é contingente, não necessário; não tem em si a sua razão de ser, mas a recebe de outro, que é Deus. O mundo é um ens ab alio, diferentemente do ens a se divino. Deus é criador, e o mundo, criado: dois modos de ser profundamente distintos e talvez irredutíveis. A criação é, portanto, o primeiro problema metafísico da Idade Média, do qual derivam, em suma, todos os demais.

A criação não deve ser confundida com o que os gregos chamam de gênese ou geração. A geração é um modo do movimento, o movimento substancial; este pressupõe um sujeito, um ente que se move e passa de um princípio a um fim. O carpinteiro que faz uma mesa a faz de madeira, e a madeira é o sujeito do movimento. Na criação isso não ocorre: não há sujeito. Deus não fabrica ou faz o mundo com uma matéria prévia, mas o cria, o põe na existência. A criação é criação a partir do nada; segundo a expressão escolástica, creatio ex nihilo; de mo do mais explícito, ex nihilo sui et subjecti. Mas um princípio da filosofia medieval é que ex nihilo nihil fit, do nada nada se faz, o que pareceria significar que a criação é impossível, que do nada não pode resultar o ser, e seria a fórmula do panteísmo; mas o sentido com que essa frase é empregada na Idade Média é de que do nada nada pode ser feito sem a intervenção de Deus, ou seja, justamente, sem a criação.

Isso abre um abismo metafísico entre Deus e o mundo que o grego não conheceu; por isso aparece agora uma nova questão que afeta o próprio ser: pode se aplicar a mesma palavra ser a Deus e às criaturas? Não é um equívoco? Pode-se, no máximo, falar de uma nova analogia do ente, num sentido muito mais profundo que o aristotélico. Chegou-se a negar que o ser corresponda a Deus; o ser seria uma coisa criada, distinta de seu criador, que estaria além do ser. Prima rerum creatarum est esse, diziam os platonizantes medievais (ver Zubiri: Em torno al problema de Dios). Vemos, portanto, como a idéia de criação, de origem religiosa, afeta em sua raiz mais profunda a ontologia medieval.

Essa criação poderia ser ab aeterno ou no tempo. As opiniões dos escolásticos estão divididas, não tanto quanto à verdade dogmática de que a criação aconteceu no tempo, como acerca da possibilidade de demonstrá-lo racionalmente. Santo Tomás considera que a criação é demonstrável, mas não sua temporalidade, conhecida tão-somente por revelação; e a idéia de uma criação desde a eternidade não é contraditória, pois o ser criado só quer dizer que seu ser é recebido de Deus, que é ab alio, independentemente da relação com o tempo.

Mas uma nova questão se coloca, que é a relação de Deus com o mundo já criado. O mundo não se basta a si mesmo para ser, não tem razão de ser suficiente; está sustentado por Deus na existência para não cair no nada; é preciso, pois, além da criação, a conservação. A ação de Deus em relação ao mundo é constante; tem de continuar fazendo com que exista a cada momento, e isso equivale a uma criação continuada. Portanto, o mundo necessita sempre de Deus e é constitutivamente necessitado e insuficiente. É isso o que pensa a Escolástica dos primeiros séculos. O fundamento ontológico do mundo se encontra em Deus, não só em sua origem, mas de modo atual. No nominalismo dos séculos XIV e XV, contudo, essa convicção vacila. Pensa-se então que já não é necessária a criação continuada, que o mundo não necessita ser conservado. Continua-se pensando que é um ens ab alio, que não se basta a si mesmo, que recebeu sua existência das mãos de seu criador; mas acredita-se que esse ser que Deus lhe dá ao criá-lo lhe basta para subsistir; o mundo é um ente com capacidade de continuar existindo por si só; a cooperação de Deus em sua existência, depois do ato criador, se reduz a não aniquilá-lo, a deixá-lo ser. Desse modo, à idéia da criação continuada sucede a da relativa suficiência e autonomia do mundo como criatura. O mundo, uma vez criado, pode existir por si só, abandonado a suas próprias leis, sem a intervenção direta e constante da Divindade.

Vemos como o desenvolvimento do problema da criação na Idade Média leva a conferir uma maior independência à criatura em relação ao criador e, portanto, conduz a um distanciamento de Deus. Por distintas vias, ao término dessa etapa todos os grandes problemas da metafísica medieval levarão o homem a uma idêntica situação.

Fonte: Julián Marías, História da Filosofia, Martins Fontes, 1ª edição, págs 141-143.

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